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Notícias de Marte

Uma viagem pelo universo dos livros e seus autores: literatura, poesia, ensaio, cinema, banda desenhada, arte e teatro.

Notícias de Marte

Uma viagem pelo universo dos livros e seus autores: literatura, poesia, ensaio, cinema, banda desenhada, arte e teatro.

Umberto Eco - "A Biblioteca"

Rui Luís Lima, 17.10.25

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Umberto Eco
"A Biblioteca"
Páginas: 48
Difel

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Com a partida de Umberto Eco nesse triste dia 16 de Fevereiro de 2016, o universo perdeu um dos seus maiores pensadores de sempre, alguém que não parava de interrogar a sociedade em que vivemos sempre com perguntas bem pertinentes, demonstrando e desmontando os frágeis alicerces em que se baseia a sociedade de consumo deste estranho mundo contemporâneo que habitamos.

Para Umberto Eco uma Biblioteca tem a principal função de nos levar a descobrir livros cuja existência se desconhecia e que se irão revelar extremamente proveitosos ou aliciantes para nós simples leitores, em busca do conhecimento.

Existem como todos sabemos dois tipos de Bibliotecas: as públicas e as privadas. E se as primeiras são construídas pelas Instituições e pelo Poder Público e Político e são frequentadas como espaço público onde podemos ir para consultar e ler livros que nos interessam, já as segundas são criadas por nós, ao longo dos anos, ao longo da vida, revelando ao forasteiro ou convidado que visita a nossa casa as nossas pequenas paixões ou, se preferirem, os nossos pequenos prazeres.

Ao longo deste aliciante pequeno livro, o escritor italiano aborda o funcionamento dessa grande Instituição que se convencionou chamar Biblioteca e que no mundo Antigo teve em Alexandria o seu farol do saber, até nos conduzir a esse outro território que se chama a livraria, onde nos dá a conhecer essa personagem em vias de extinção que é o livreiro, infelizmente para mal das livrarias, que cada vez mais são substituídas pelas grandes superfícies comerciais onde os livros são apenas uma das muitas mercadorias expostas dando sempre primazia à novidade, ou não estivéssemos a viver na “adorável sociedade de consumo”.

“A Biblioteca” de Umberto Eco revela-se um pequeno grande livro, que mais uma vez nos oferece o seu pensamento acutilante e sedutor, depois de o lermos terminamos sempre por amar um pouco mais os livros que rodeiam as paredes da nossa humilde casa, sejam eles muitos ou poucos ou até apenas pequenos escritos guardados ao longo dos anos, porque a nossa Biblioteca é o espelho do nosso pensamento.

Rui Luís Lima

Umberto Eco - "A Passo de Caranguejo - Guerras Quentes e Populismo Mediático"

Rui Luís Lima, 01.10.25

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Umberto Eco
"A Passo de Caranguejo - Guerras Quentes e Populismo Mediático"
Páginas: 388
Difel

Este livro de Umberto Eco reúne textos escritos entre 2000 e 2005, onde iremos descobrir que esse célebre anúncio do "Fim da História" proclamado por Francis Fukuyama, muito celebrado aquando do fim da União Soviética, viria a ser desmentido pela roda da História, que vai mudando de protagonistas ao mesmo tempo que vai elaborando uma certa reciclagem das ideologias a fim de as inserir como novidade no novo Milénio.

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As análises de Umberto Eco ao Novo Milénio permanecem bem interessantes nestes textos oriundos de diversas Conferências em que participou, assim como da Imprensa, que também não escapa à sua análise. Essa Imprensa cada vez mais populista e com uma amnésia sobre o passado bastante redutora e que cada vez mais acredita que quem "matou Liberty Valance" foi Ranson Stoddard (James Stewart) e não Tom Doniphon (John Wayne). Esses tempos longínquos em que se chamava Quarto Poder à Imprensa, não passam de uma miragem, porque o que está na moda são as "fake news".

"A Passo de Caranguejo - Guerras Quentes e Populismo Mediático" de Umberto Eco convida-nos a uma meditação sobre a época em que vivemos, mas de todos os textos deste livro, gostaria de convidar o leitor a perder um pouco do seu tempo precioso e ir a uma livraria ou biblioteca ler o texto "Acerca do Politicamente Correcto", que surge na página 102, publicado originalmente em Outubro de 2004 no jornal "La Repubblica" e de uma actualidade gritante. Só por esta crónica vale a pena comprar este livro e após ler as oito páginas desse texto, certamente que o seu conhecimento da ideologia dominante. se vai tornar muito menos nublado.

Rui Luís Lima

Umberto Eco - "Aos Ombros de Gigantes" / "Sulle Spalle des Giganti"

Rui Luís Lima, 20.08.25

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Umberto Eco
"Aos Ombros de Gigantes" / "Sulle Spalle des Giganti"
Páginas: 444
Gradiva

Lições em La Milanesiana 2001 - 2015

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Os textos que compõem este volume foram escritos para serem lidos no "Festival La Milanesiana", por Umberto Eco em forma de "lectio magistralis", inclusivamente ilustrada, através dos célebres diaporamas. Mais uma vez a escrita do genial escritor e ensaísta italiano deixa o leitor encantado pela forma simples, como desmonta as novas "certezas" da sociedade contemporânea, atravessando os séculos e a História, navegando pela religião, até chegar ao célebre "terceiro segredo do milagre de Fátima" contado pela irmã Lucia, passando também pela imaginação frutuosa de um escritor chamado Dan Brown, que se tornou milionário.

Em "Aos Ombros de Gigantes" temos muito mais para explorar, desde "A Beleza" até à "Fealdade", em que o dinheiro tudo compra, assim como as temáticas do "Absoluto e Relativo", não esquecendo o "Invisível" e "O Sagrado", para além dos célebres "Paradoxos e Aforismos" onde navega Oscar Wilde e o seu "Dorian Gray". Mas a "Imperfeição" também é tema, tal como as "Falsificações" sejam elas na "Arte", como na "Política", onde é inevitável visitar a "Conspiração" através dos séculos e nesse novo universo mediático que é a net e onde a numerologia surge como uma equação conspirativa bem curiosa.

Mas quanto a revelações nada melhor do que visitar "Casablanca", o célebre filme de Michael Curtiz, que também por aqui navega de forma bem interessante. Quando terminamos a leitura deste livro fabuloso, repleto de ilustrações, como era agrado do escritor, sentimos de imediato a falta que Umberto Eco nos faz, neste perigoso universo "unipessoal".

Rui Luís Lima

Umberto Eco - "Diário Mínimo"

Rui Luís Lima, 09.06.25

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Umberto Eco
"Diário Mínimo"
Páginas: 180
Difel

Umberto Eco
“Pastiches et postiches”
Páginas: 224
Le livre de poche

Ao longo da sua vida, Umberto Eco teve sempre uma enorme intervenção na imprensa, escrevendo inúmeros artigos ou crónicas, se preferirem, muitas vezes com uma mordacidade e um humor a que não resistimos sorrir e foi isso mesmo que me sucedeu quando comecei a ler este "Diário Mínimo" / “Pastiches et postiches” (1), no comboio da linha de Sintra, rumo a Lisboa e quando levantei os olhos do livro a senhora sentada à minha frente olhou-me com ar bastante reprovador, censurando-me assim de forma silenciosa e veemente por estar a sorrir, àquela hora da manhã. Mas se vocês lerem as respostas dadas por um editor a lamentar recusar a edição de diversos livros que lhe foram enviados, irão certamente ler este belo livro, que em Itália teve o título de “Diario Minimo” e em Portugal também.

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O editor leu diversas obras que lhe foram enviadas, solicitando publicação e carinhosamente deu as suas razões para a recusa, para abrir o vosso apetite literário poderei adiantar que a primeira se trata de “A Biblia” (autor(es) anónimos, um problema com os direitos de autor; depois temos Homero e a sua “Odisseia”, hum… o tal filme que não me queriam deixar ver em pequenino, no Chiado Terrasse; já “A Divina Comédia”, de um cavalheiro chamado Dante, tem demasiado Inferno e já há um livro de sucesso com esse título; por sua vez “A Religiosa” de um tal de Diderot convém recusar para impedir Jacques Rivette de “massacrar” a pobre Anna Karina; depois temos um tal “Don Quixote” (não confundir com o “Don Corleone” do Mario Puzo), escrito por Miguel de Cervantes, deve ser recusado para não comprometer a linha editorial, que tanto sucesso tem obtido junto do público leitor; por outro lado “Em Busca do Tempo Perdido” assinado pelo Parisiense Marcel Proust, denota uma enorme necessidade de rever toda a pontuação e de o próprio romance transmitir perigosamente a asma ao leitor; por sua vez “A Crítica da Razão Prática” de Emmanuelle Kant (o homem que muitas vezes é confundido com um relógio pelos vizinhos), o editor, por falta de tempo, pediu ao crítico Vittorio Saltini que desse uma “vista de olhos” e a resposta foi peremptória, aquilo não valia “grande coisa” e além disso o editor alemão insiste em que se publique o livro anterior e o que se encontra em elaboração na “Torre” do Filósofo, para além do problema dos títulos serem tão idênticos que irão confundir o leitor; já o romance policial “O Processo”, que um tal Max enviou a pedido do autor (segundo consegui apurar, chama-se Franz K.) possui umas tiradas à Alfred Hitchcock, por sinal bem agradáveis, mas os personagens deviam ter nomes bem precisos, fáceis para o leitor fixar e o mistério é tão confuso que até o próprio MacGuffin se sentiu perplexo com tanto abstraccionismo literário, pior do que o hoje mal-amado Nouveau Roman; por último, “Finnegans Wake”, enviado por uma jovem americana a viver em Paris, na Rive Gauche, chamada Sylvia Beach, que deve ter trocado certamente os pacotes na expedição do correio em “Les Halles”, porque o volume em questão só tem o título em inglês, o “dialecto” usado no livro é desconhecido do departamento de inglês da editora e com J. R. R. Tolkien, especialista em línguas mortas, de férias na Terra do Nunca, não poderemos contar com a sua preciosa ajuda na decifração do enigma linguístico.

Na verdade entusiasmei-me ao escrever esta crónica e ao humor de Umberto Eco neste seu "Diário Mínimo", acrescentei algumas palavras minhas, aqui e acolá, mas o melhor é lerem este delicioso livro de Umberto Eco, cujo segundo volume começa com a aventura de transportar um salmão em viagem, mas isso é outra história que terá de ficar para mais tarde, porque o comboio para Sintra vai partir, repleto de uma babilónia de turistas!

(1) - Li a edição francesa de "Diário Mínimo"  de Umberto Eco intitulada “Pastiches et postiches” numa edição de "Le livre de poche".

Rui Luís Lima

Umberto Eco / Jean-Claude Carrière - “Não Contem com o Fim dos Livros”

Rui Luís Lima, 19.05.25

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Umberto Eco / Jean-Claude Carrière
“Não Contem com o Fim dos Livros” / “N’espérez pas vous débarrasser des livres”
Páginas: 263
Gradiva

Será que os livros em papel estão condenados? Será que daqui a um século os nossos descendentes irão visitar exposições para descobrirem a Literatura em papel? Será que a revolução tecnológica irá eliminar para sempre o formato do livro? Será que a net e os infindáveis gadgets irão substituir os livros? Será que a Wikipédia irá fazer desaparecer da memória a famosa Enciclopédia Britânica? Será possível viver num universo sem memória dos livros?

A todas estas questões e a muitas outras irá o leitor descobrir a resposta através de uma conversa, que se estendeu por diversos dias, entre Umberto Eco (1932 - 2016) e Jean-Claude Carrière (1931 - 2021), conduzida por Jean-Philippe de Tonnac, em Paris e onde o famoso Umberto Eco, bem conhecido do grande público pelo seu romance “O Nome da Rosa” e não só, mas também um profundo observador dessa ideologia dominante do século XXI, que é o “politicamente correcto”, nos ofereceu um conjunto de saborosas conversas com o argumentista Jean-Claude Carrière, que ficou famoso pela sua colaboração com o cineasta Luis Buñuel e não só.

Tanto Umberto Eco como Jean-Claude Carrière eram coleccionadores de livros antigos, sendo o último casado com uma iraniana, cujo pai “fez um estudo sobre um encadernador de Bagdad, que viveu no século X, chamado Al-Nadim” e também iremos ficar a saber por Jean-Claude Carrière “que foram os iranianos que inventaram a encadernação e mesmo aquela que recobre por completo a obra para a proteger”, terminando este coleccionador de livros antigos por nos dizer que, num período de grandes dificuldades económicas, foi forçado a vender parte da sua Biblioteca para fazer frente aos imponderáveis da vida e aqui tenho de confessar que também já me aconteceu o mesmo, o que nos leva a amar ainda mais os livros que possuímos na nossa Biblioteca.

Ao longo destes saborosos diálogos viajamos desde a Antiguidade, passando pela famosa Biblioteca de Alexandria, até chegar aos nossos dias. Os autores desde delicioso livro revelam a sua enorme sabedoria pela forma como abordam o panorama literário e a proliferação dos "best-sellers" e essa “vanity press” (o delicioso termo é aplicado por Umberto Eco), que enche o espaço dos destaques das grandes superfícies culturais, conhecidas vulgarmente por livrarias.

E, como não podia deixar de ser, também esse espaço conhecido por “A Biblioteca” está bem presente nestas conversas, não só a famosa "Biblioteca Pública" onde alguns de nós ainda vão, mas também a nossa querida Biblioteca que vamos construindo ao longo da nossa passagem pelo Universo e aqui tanto Umberto Eco como Jean-Claude Carrière nos falam desse visitante, amigo ou familiar, cuja personagem também já entrou na nossa habitação e ao olhar para as paredes afirma: “Tantos livros! Mas vocês já leram estes livros todos!?”. Sendo precisamente nestes momentos, que nos apetece dar uma dessas respostas que terminaria de imediato com a conversa e possivelmente com a amizade, mas a educação leva-nos a sorrir e a mudar de assunto, já Umberto Eco prefere responder assim, “Não. Estes livros são simplesmente os que terei de ler na próxima semana. Os que já li estão na Universidade.”

Neste incontornável livro, intitulado “Não Contem com o Fim dos Livros”, também se fala desses maus livros que espalharam o ódio como o “Mein Kampf” e as razões que levam ao seu reaparecimento nas livrarias, mas mais curioso são as respostas que alguns editores deram ao devolverem certas obras que fazem parte da memória literária do universo, considerando-a o organizador deste livro, Jean-Philippe de Tonnac, como “uma outra página caricata ou desconcertante da história do livro” e aqui passo a palavra a Umberto Eco que, ao responder à questão, se refere assim ao assunto:

 “Já mostraram que podiam, por vezes, ser suficientemente estúpidos para recusar certas obras-primas. Trata-se, com efeito, de um outro capítulo da história das burrices. «Sou talvez um pouco limitado, mas não consigo compreender a necessidade de consagrar trinta páginas para narrar como alguém se volta e torna a voltar na cama, sem conseguir dormir.» É o primeiro relatório de leitura sobre “Em Busca do Tempo Perdido” de Marcel Proust. A propósito de “Moby Dick”: «É pouco provável que uma tal obra possa interessar a um público jovem.» Dirigido a Flaubert, a propósito de “Madame Bovary”: «Caro Senhor, o seu romance submerge sob um mar de detalhes bem desenhados, mas inteiramente supérfluos.» A Emily Dickinson: «As suas rimas estão todas erradas.» A Colette, a propósito de “Claudine à l’école”: «Receio não vender mais que dez exemplares.» A George Orwell, sobre “Animal Farm”: «É impossível vender uma história de animais nos Estados Unidos.» Sobre o “Diário de Anne Frank”: «Esta rapariguinha não parece fazer a menor ideia de que o seu livro não pode ser senão objecto de curiosidade.»

Depois Umberto Eco ainda refere como contraponto o que, certos responsáveis dos Estúdios de Hollywood, afirmaram sobre Fred Astaire e Clark Gable e aqui chegado, meus caros amigos, sugiro que leiam este magnífico livro porque, se gostam de livros, este “Não Contem com o Fim dos Livros” tem que constar da vossa Biblioteca.

Rui Luís Lima