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Notícias de Marte

Uma viagem pelo universo dos livros e seus autores: literatura, poesia, ensaio, cinema, banda desenhada, arte e teatro.

Notícias de Marte

Uma viagem pelo universo dos livros e seus autores: literatura, poesia, ensaio, cinema, banda desenhada, arte e teatro.

Sam Shepard - "Crónicas Americanas"

Rui Luís Lima, 06.01.26

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Sam Shepard
"Crónicas Americanas" / "Motel Chronicles"
Difel

Quando a sua mulher Jessica Lange era entrevistada no seu rancho, Sam Shepard procurava refúgio junto dos estábulos ou partia a cavalo para a colina mais próxima do sol. Este homem, nascido em Fort Sheridan, no estado do Illinois, foi um dos maiores dramaturgos norte-americanos, sendo comparado por muitos a Eugene O’Neil. Para Frank Rich, ele foi um profeta, amante da tecnologia e dos ambientes selvagens, bem patente nos seus contos, poemas, monólogos e peças de teatro.

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"esta gente aqui

já é

a gente

que finge ser"

27/7/81 – Los Angeles/Sam Shepard

Filho de um oficial da aviação, a sua infância, tal como a de Jim Morrison dos Doors, foi invadida pelo sentido nómada a que se encontravam ligados os pais. Ele mesmo referiu numa entrevista que as suas raízes intelectuais foram adquiridas na “cultura-auto” para adolescentes, através das cidades do sul da Califórnia.

A sua obra apresenta no seu interior a nostalgia pelo velho Oeste: as planícies desertas, as águas dos rios frescas e cristalinas, o amor da solidão, o medo, o rock na estrada, os motéis, a família em desagregação, a amizade, os breves encontros e a dor dos sentimentos.

Com mais de quarenta peças escritas, entre as quais “Burried Chield” que obteve o Pulitzer, Sam Shepard acabou por chegar ao cinema. Mas muito antes navegara pelas águas do rock, tocando bateria ao lado de Bob Dylan e dos Molly Modal Rounders. O seu conto “Ritmo”, invadido pelo "rock and roll", é a melhor referência ao movimento sincopado de bateristas como Ginger Baker ou Keith Moon.

Em Portugal, Sam Shepard viu chegarem ao palco as peças “Loucos de Amor” / "Fool For Love" encenada pela primeira vez em S. Francisco a 8 de Fevereiro de 1983 no Magic Theatre e a peça “Coração na Boca” / "Cowboy Mouth", escrita de parceria com a cantora/poetisa Patti Smith, com quem vivia na época.

Sam Shepard e o cinema encontraram-se pela primeira vez em “Deserto de Almas”/”Zabriskie Point” de Michelangelo Antonioni, no qual colaborou como argumentista. No entanto será com “Paris/Texas” de Wim Wenders, um “road-movie” nostálgico, que Sam Shepard irá alcançar a fama no Velho Continente. Os diálogos do encontro de Travis com Jane no "Peep-Show" são dos mais dolorosos e sinceros que alguma vez foram escritos para cinema e Wim Wenders, com a música de Ry Cooder, atingiu o estado-cristalino da sua criatividade.

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"A felicidade

cai

no lado errado

da Sorte

A felicidade

cai

longe das minhas mão.

A felicidade

despenha-se

entre as árvores

toda a gente se queixa."

2//7/81 – San Fernando Valley / Sam Shepard

A estreia de Sam Shepard na Sétima Arte como actor, ocorreu no “cult-movie” de Terrence Malick “Dias do Paraíso”/”Days of Heaven” e mais tarde deu-se o encontro com a sua companheira Jessica Lange no ano de 1982, em “Frances” realizado por Graeme Clifford, que narra a história de Frances Farmer, estrela de cinema cintilante dos anos trinta. Depois Philip Kaufman passou para o écran a epopeia de Tom Wolf “The Right Stuff”/”Os Eleitos”. O desempenho de Sam Shepard nesta película leva a Academia de Hollywood a nomeá-lo para o Oscar do Melhor Secundário, isto num filme em que não havia actores principais.

Entretanto a sua ligação com a actriz Jessica Lange, de quem teve dois filhos, leva-o a interpretar e produzir “Country - A Minha Terra”, reflexo da sua própria vida como fazendeiro e cujo objectivo era alertar os agricultores para a política agrícola nefasta do então presidente Ronald Reagan.

A sua peça “Fool For Love”/ ”Loucos de Amor”, das mais conhecidas internacionalmente, foi adaptada ao cinema por Robert Altman e, melhor do que ninguém, Sam Shepard vestiu a pele do cowboy errante, que regressa à sua amada, uma Kim Basinger sensual e selvagem. Falou-se na altura numa relação escaldante entre ambos, durante as filmagens.

Depois de “Loucos de Amor”, Sam Shepard teve três papéis secundários em películas medianas de reduzido interesse, caso de “Crimes do Coração” / "Crimes of The Heart" de Bruce Beresford, “Quem Chamou a Cegonha” / "Baby Boom" de Charles Sheyer e “Flores de Aço” / "Steel Magnolias" do veterano Herbert Ross.

Entretanto Shepard passou para o outro lado da câmara e realizou e escreveu “Ordem de Execução” / "Far North", exibido em Lisboa apenas durante uma semana, numa sala "deserta" do cinema Amoreiras, e só com referências na imprensa depois da sua saída de cartaz, aliás as referências foram lamentações da crítica, porque ninguém viu a película.

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"desde a relva alta, alta

até à esquina do parque

vejo-te que me estudas

eu vejo-te quando tu não sabes que estou a olhar

e cada olhar que te roubo

deixa-me um dia mais novo

Ultimamente tem sido difícil apanhar-te

ou então sou eu que estou a ficar velho

um dos dois está com certeza a perder"

6/11/81 – Homestead Valley/Sam Shepard

Nos anos noventa do século passado continuou a surgir em papéis secundários em diversos filmes, numa média de três por ano e ainda escreveu e realizou o seu segundo "movie", um "western" intitulado “Silent Tongue”, com Richard Harris, Alan Bates e River Phoenix nos protagonistas... no novo século XXI manteve a média de aparições, sendo de destacar a sua interpretação em “Cercados”/”Black Hawk Down”.

Sam Shepard foi o último dos cowboys, o homem que atravessou os anos sessenta com o rock, a poesia e o teatro no seu alforge; depois, quando desceu do cavalo, descobriu o cinema ao lado do saloon, conquistou a "girl" de “King Kong”, transformando-a na sua companheira para a vida, fazendo dela a mulher que todos admiramos e ele continuou as suas narrativas do velho Oeste com o Sol a Sorrir no Horizonte Feliz, mesmo depois de ter partido nesse ano de 2017.

“Crónicas Americanas” / "Motel Chronicles" reúne poemas e contos escritos com a inevitável originalidade de Sam Shepard, onde as memórias navegam ao sabor da escrita.

Rui Luís Lima

João Miguel Fernandes Jorge / Jorge Molder / Joaquim Manuel Magalhães - "Uma Exposição"

Rui Luís Lima, 05.01.26

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João Miguel Fernandes Jorge / Jorge Molder / Joaquim Manuel Magalhães
"Uma Exposição"
A Regra do Jogo

Em 1980, a editora A Regra do Jogo ofereceu-nos um dos mais belos livros de poesia e fotografia dedicados a um pintor. O seu título era simplesmente “Uma Exposição” e o pintor chamava-se Edward Hooper. O livro de 83 páginas e com uma capa bastante frágil, era dono de belos poemas dedicados à vida e obra desse génio da pintura e os poetas que prestavam assim a sua admiração e homenagem a esta figura incontornável do mundo das artes eram João Miguel Fernandes Jorge e Joaquim Manuel Magalhães a que se juntou o fotógrafo Jorge Molder que, através da sua arte, percorria os caminhos da obra do célebre pintor norte-americano.

Este pequeno, belo e inesquecível livro rapidamente desapareceu das livrarias, mas costumo vê-lo na Feira do Livro de Lisboa, na zona dos pavilhões dos Alfarrabistas. Como depois de o ler diversas vezes o perdi na espuma dos dias, espero reencontrá-lo em breve. Aqui vos deixo um dos poemas que guardo nos meus apontamentos, da autoria de Joaquim Manuel Magalhães.

Rui Luís Lima

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Sunlight in a Cafetaria

Abria o guarda-fatos e tirava

o casaco mais velho e as piores

calças de veludo cor de sombras.

Ia ter contigo. Só o perfume

 

fazia pressentir o coração.

essa frágil ideia que batia

quando me sentava no café

muito antes da hora combinada.

 

As mãos quietas, o rosto debruçado

para o vidro sujo de tabacos

donde ao longe havias de chegar.

 

O chão coberto duma luz magoada,

de papéis amassados, cinzas

que teus pés vinham a calcar.

 

Joaquim Manuel Magalhães

in "Uma Exposição"

"Paris! Paris!"

Rui Luís Lima, 28.12.25

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"Paris! Paris!"

As saudades que tenho de passear por Paris,
Ver a vida a passar por Paris,
Os Boulevards repletos de gente em Paris,
As exposições de Paris,
As livrarias e os seus bouquins em Paris,
As discotecas e as caves de Paris,
A moda a passear por Paris
As moules, a choucroute e os coscous saboreados no Bouillon Chartier em Paris,
O cinema de Rohmer, Truffaut e Godard na Cinemateca em Paris
Chorar de emoção a escutar Leo Ferré em Paris
Descer de mão dada com o meu amor os Champs-Élysées
Ah Paris! O Sollers passou por mim e eu não o vi!

Rui Luís Lima

O Prazer da Escrita

Rui Luís Lima, 27.12.25

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O Prazer da Escrita

Tinha perdido o sentido das palavras
e um dia numa simples ligação
descobri três letras nascidas nas marcas do deserto
indicadoras do caminho do oásis.

Chegado lá saciei a minha sede de poesia
e comecei a edificar a minha casa no bairro,
mas no vocabulário da minha nova casa
não poderia haver portas fechadas, nem chaves,
apenas uma entrada larga para uma simples sala,
onde a todos fosse permitido habitar,
apesar de por vezes existirem olhares não coincidentes
e se trocarem ideias opostas.

Os antagonismos gerados pelas palavras,
conduzem a um labirinto sem portas,
enquanto o direito à diferença
origina o saber e a beleza da descoberta
de novos mundos e de outros seres,
para partilhar o mesmo território de liberdade,
na diversidade das linguagens,
e assim nasceu a escrita no deserto,
como aprendi recentemente.

O prazer da escrita não possui tempo nem lugar,
ele existe em comunhão com o desejo,
o desejo sem deveres nem leis,
porque as palavras nascem livres de condicionalismos
e só assim é possível nascer a poesia.

Rui Luís Lima

Tabacaria Orquidea!

Rui Luís Lima, 26.12.25

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Tabacaria Orquidea!

Na Tabacaria há jornais e revistas,
tabaco, fósforos e isqueiros,
lápis, canetas, borrachas e apara-lápis,
mas também tinteiros,
pequenas bombas de gasolina
a dez tostões para isqueiros
e latas de gaz para isqueiro, para os mais finos,
vejo-me aflito a encher os isqueiros
e a colocar correias nos relógios.

Também temos livros
dos clássicos às coboiadas,
Corin Tellado e familiares,
policiais, guerra e o Asimov para quem fuma cachimbo,
mais o Vilhena debaixo do balcão para os amigos!
Uns são vendidos e outros alugados
15 tostões os mais antigos e dois escudos as novidades.
Depois há os postais, para todos os géneros:
aniversários, romance e uns mais atrevidos debaixo do balcão.

Na Tabacaria temos pastilhas elásticas Pirata para os miúdos
e chocolates da Regina para os gulosos.
Come chocolates pequena, como dizia o Engenheiro.
Mas Digital não temos, caro Costa,
por aqui há envelopes, papel de carta, avulso e em blocos,
confesso que adoro os de papel fino para avião,
mas tenho pena dos de tarja preta e dos seus clientes.

A tabuada do Ratinho vende-se bem e já a decorei toda a cantar,
os cadernos de duas linhas ajudam-nos a ter uma letra bonita,
os quadriculados a respeitar os números nos quadrados,
os de desenho dizem se temos talento,
mas do que gosto mesmo são das sebentas,
com aquele cavaleiro andante parecido com o Ivanhoe!

Sabonetes e dentífricos também se vendem bem,
Nove em cada 10 estrelas de Hollywood usam Lux,
(não sei se os números estão certos)
mas eu gostava era do Nordika,
tinha aquele cheiro dos pinheiros da Escandinávia
(embora nunca lá tivesse estado).

Mais o 4711 e a Bien Être para oferecer à namorada
e as alianças a 25 tostões muito procuradas,
por essas raparigas simpáticas que navegam no Bairro,
uma delas um dia perguntou-me se tinha camisas de Vénus,
era bem gira, confesso!

Quando chega o Natal a Tabacaria muda de cor,
fica cheia de brinquedos, jogos e bonecas,
as gentes do Bairro, nessa véspera de Natal,
levaram-nos a fechar a porta muito depois das nove da noite,
para despachar o embrulho das prendas
usámos uns laços já feitos que estavam para venda
e depois lá fomos comemorar o Natal para o Largo do Carmo.

Na Tabacaria, que abria às sete da matina
e fechava muitas vezes depois das nove,
havia de tudo: meias de senhora, pentes, atacadores, brincos,
e todo um universo que insistem em nos eliminar da memória.
Não se parava um minuto, mas eramos felizes sem o digital.

Rui Luís Lima

Jurgen Theobaldy – “Ida ao Cinema”

Rui Luís Lima, 20.11.25

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Jurgen Theobaldy – “Ida ao Cinema”

O poeta e escritor alemão Jürgen Theobaldy nasceu em Estrasburgo, a 7 de Março de 1944, de origens modestas, tendo crescido em Mannheim e estudado Literatura em Heidelberg e Colónia, e desde muito cedo se sentiu ligado a esse movimento das letras surgido na Alemanha na década de sessenta, do século xx, em que o experimentalismo poético, aliado à simplicidade das palavras deu origem à denominada poesia do quotidiano.

Mais tarde irá trocar a Alemanha pela Suíça, onde vive actualmente, tendo publicado ao longo dos anos mais de duas dezenas de livros, tanto de poesia como de prosa, onde a simplicidade da sua escrita é uma constante.

Aqui deixamos esse belo poema intitulado “Ida ao Cinema”, publicado em Portugal na colectânea de poesia “O Bosque Sagrado – A Poesia e o Cinema”, editado pela Gota d’Água.

Rui Luís Lima

…/…

Ida ao Cinema

"Quando era miúdo ía muito / ao cinema, todos os domingos às duas / havia uma “sessão juvenil” / no “Capitólio” com aquele relógio / ao lado do écran, e nós berrávamos / panteávamos e assobiávamos quando / o ponteiro saltava para as duas e um e / a fita ainda não tinha começado. Depois / quis ser crescido e fui / um sábado à sessão dos adultos, / embora ainda não tivesse feito os dezasseis. / Nesse filme vi a Rita Hayworth / na tina de banho, depois de o Gary Cooper / a ter salvo de um bando de índios / malucos. Gostava de a ter visto / nua, mas não lhe vi mais que / uma faixa do soutien. / No domingo seguinte voltei / à “sessão juvenil”, e às duas e um / lá estava eu a berrar, a patear, / e a assobiar, porque a fita / ainda não tinha começado".

Jürgen Theobald

In “O Bosque Sagrado – A Poesia e o Cinema”,

Nuno Júdice - “O Estado dos Campos”

Rui Luís Lima, 13.11.25

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Nuno Júdice
“O Estado dos Campos”
Páginas: 154
Dom Quixote

Foi na década de setenta, do século xx, que descobri a poesia de Nuno Júdice, na colecção “Cadernos de Poesia” das Publicações D. Quixote, tratava-se precisamente do seu primeiro livro de poemas intitulado “A Noção de Poema” e desde então tornei-me um leitor fiel da sua obra poética como da restante obra em prosa e teatro, recordo-me do magnífico “Última Palavra: «Sim»” saído nas edições & etc, ou o fabuloso “Plancton” na editora Contexto.

Nuno Júdice nasceu para o universo público nas páginas do Diário de Lisboa em 1967, onde outros nomes da mesma geração, hoje consagrados, ofereceram os seus primeiros trabalhos poéticos. Mantendo intensa actividade crítica com inúmeros ensaios publicados em jornais e revistas, o poeta manteve uma regularidade e uma qualidade poética que merecem ser referidos, onde a Literatura é uma constante presença através da sua História, mas também através das inúmeras referências românticas, que servem tantas vezes de ponto de partida para poemas que se guardam na memória com enorme carinho. Aqui vos deixo o meu poema favorito da obra “O Estado dos Campos”, saído em 2003.

Rui Luís Lima

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Retrato de Mulher à Luz da Tarde

O poeta épico e o poeta dramático, disse

Goethe, estão submetidos às mesmas leis gerais. No

entanto, se cada um deles conduz o poema

até ao seu desfecho sem uma hesitação,

ou antes, limitando a dúvida ao que se passa

no espírito quando o amor, com a sua certeira

seta, o fere, já as palavras são diversas. Não é o mesmo

descrever a emoção com as imagens que ela sugere,

ou transformá-la num discurso lógico, que obriga

quem o faz a utilizar o raciocínio, deixando

para depois o sentimento. A construção é o mais

simples, neste processo, desde que o princípio

corresponda à verdade que faz parte da vida

de quem ama. O difícil é transpor a ponte

que nos conduz ao outro: refiro-me a ti, que

me esperas desse lado, por trás das árvores

e das flores do jardim, com o sol a iluminar-te

o rosto. É uma imagem simples: retrato

de mulher à luz da tarde. Mas sinto-me obrigado

a dar uma outra dimensão à figura humana,

puxando-a para o convívio da minha alma. Aí

as coisas ganham a profundidade de uma relação

abstracta, despida dos aspectos materiais, e

dos obstáculos que a realidade nos coloca. A

perfeição nasce das frases que o verso trabalha, com

o ritmo de uma respiração serena. Por fim, a

imagem adquire uma beleza própria, que foge

à própria fonte. E ao vê-la, pergunto: ainda és tu? Ou

foste roubada a ti própria por esta luz com que o poema

te envolve? Mas deixo-me de questões teóricas - e

atravesso a ponte, deixando para trás imagens e

discursos. É que do outro lado as leis gerais não

contam, e são-me indiferentes os problemas que se

colocam ao poeta, épico ou dramático. Puxo-te

pela mão - e saímos da moldura, para dentro da vida.

Nuno Júdice

in "O Estado dos Campos"

Herberto Helder - "O Corpo o Luxo a Obra"

Rui Luís Lima, 16.10.25

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Herberto Helder
"O Corpo o Luxo a Obra"
Colecção: Subterrãneo Três
& etc

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O editor Vítor Sílva Tavares da editora & etc em finais dos anos setenta do século passado lançou a colecção "Subterâneo Três", com uma tiragem muito limitada como era hábito na editora e embora mantivesse o famoso formato das edições da & etc, o material da capa era idêntico ao papel utilizado no interior do livro e a inaugurar a colecção foi escolhida uma obra do poeta Herberto Helder, que como alguns devem estar recordados foi galardoado com o famoso Prémio Camões, tendo recusado receber o prémio, que lhe oferecia uma avultada quantia. 

Herberto Helder é um nome incontornável da poesia do século xx e sempre foi fiel a determinados princípios. "O Corpo o Luxo a Obra" é nos dias de hoje uma raridade, sendo cobiçada por muito bibliógrafos, amantes dos livros e da poesia de Herberto Helder, sendo nos dias de hoje pedidas elevadas quantias por esta edição da "& etc".

Nota: Luiz Pacheco fez uma edição não autorizada deste livro na "Contraponto" e quando Herberto Helder teve conhecimento ficou muito aborrecido com o sucedido. Portanto não se esqueça se pretende comprar um dia este livro tenha em atenção a edição!

Rui Luís Lima

Lawrence Durrell - "Taormina"

Rui Luís Lima, 18.09.25

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Lawrence Durrell - "Taormina"

Os critérios editoriais da edição em Portugal são muitas vezes um mistério no que diz respeito a alguns autores consagrados, segundo o meu ponto de vista e embora me declare desde já um leitor assíduo da Lawrence Durrell, nunca consegui perceber o silêncio que paira sobre a sua poesia. É certo que a sua prosa é verdadeiramente poética, basta recordar essa obra intitulada “O Quarteto de Alexandria” para ficar tudo dito, mas Lawrence Durrell possui uma enorme obra poética e o seu aparecimento na nossa bela língua, que uns cavalheiros insistem em danificar através de acordos ortográficos, seria certamente um acontecimento literário, recorde-se que algum do seu Teatro é também em verso. Um dos seus livros ao qual retorno com enorme prazer intitula-se “Carrossel Siciliano” e nele é possível encontrar alguns belos poemas do autor, entre os quais este lindíssimo “Taormina”, que aqui vos deixo.

Rui Luís Lima

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Taormina

Nós três passámos a noite inteira sentados

No roseiral bebendo e esperando

Que a lua tornasse pretas as nossas rosas

No seu lento passeio pelo céu. Falámos

Uma vez por outra na nossa amiga ausente.

Algumas peças de xadrez caíram,

Morrem também os que apenas se sentem e esperam

A lua nova diante desta porta aberta.

 

Que outra viagem podemos desejar a amigos

Para adular a sua ausência com a nossa lembrança -

Um que se seguiu o peixe-voador para além das remotas Américas, outro para morrer em combate,

Outro para viver na Pérsia e nunca mais escrever.

 

Ela a todos amou consoante a necessidade deles.

Agora eles são pó na memória de alguém

Esperando em perfeita ordem uma deixa.

Assim e desta maneira te lembraremos.

 

O fumo dos cachimbos sobe num contentamento puro,

As rosas esticam os pescoços e eis que enfim

Ela cavalga além para emprestar

Uma forma e ficção ao nosso carinhoso desejo.

As legiões dos silenciosos esperam, todas.

 

Lawrence Durrell

in "Carrossel Siciliano"

Livros do Brasil

Frank O'Hara - "Vinte e Cinco Poemas à Hora de Almoço"

Rui Luís Lima, 15.09.25

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Frank O'Hara
"Vinte e Cinco Poemas à Hora de Almoço"
Colecção: Documenta Poética nº.27
Páginas: 120
Assírio e Alvim

Conheci a poesia de Frank O'Hara numa antologia organizada por Manuel de Seabra sobre os novos poetas americanos e a sua poesia. O livro editado pela "Futura" em 1973 ainda me acompanha nos dias de hoje, e o poema de Frank O’Hara intitulado "A Industria Cinematográfica em Crise", surgiu como se alguém me tivesse dado um soco no estômago, fiquei simplesmente sem respiração e nunca mais me esqueci dele e de todos os poetas americanos da sua geração e consequentemente da Literatura Beatnick.

Em boa hora a editora Assírio e Alvim editou uma colectânea de Poemas de Frank O’Hara e de novo foi possível, de forma mais ampla, mergulhar na maravilhosa poesia deste autor que é urgente descobrir.

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Depois, ao saber como a vida está apenas presa por um ligeiro fio, fraco e frágil, decidi contemplar as ondas do mar com o meu olhar no silêncio dos dias e muitas vezes descobri marcas de pés na areia húmida da praia e inevitavelmente pensei que o Frank O'Hara tinha estado nesse dia naquele lugar, esse lugar que ele pisou pela última vez e cuja beleza não o deixou ver a viatura que o iria levar do nosso convívio, mas os poetas – sejam aprendizes ou consagrados – nunca esquecerão este homem, cuja poesia nascia dos temas mais simples e das pessoas anónimas que com ele se cruzavam nas ruas de Nova Iorque, enquanto ele seguia para o seu local de trabalho no MOMA.

Nascia assim o seu convívio com a pintura e os seus artistas, Jasper Johns, De Konning, Rauchenberg, entre outros, já na poesia encontrou em Kenneth Koch e John Ashbery a amizade (ambos já publicados entre nós), mas nunca constituíram um grupo homogéneo como os Beat de S. Francisco, devido talvez à sua singularidade, embora todos eles fossem beber a poesia a Walt Whitman – o Pai de toda a Moderna Poesia Norte-Americana e também Mestre de Álvaro de Campos, recordam-se da sua “Saudação a Walt Whitman”?

O cinema, o teatro e a pintura acabaram também por surgir como matéria-prima para os seus poemas, assim como o jazz. Ler hoje Frank O'Hara é um daqueles prazeres que nos enche a alma de alegria, já que por vezes a vida insiste em nos oferecer a amargura e a tristeza. Beber a sua poesia através deste livro de poemas nas noites frias de Inverno, ou numa outra estação mais quente saborear a frescura das suas palavras, numa esplanada de uma praia no final do dia, revela-se na verdade um daqueles prazeres que nos enche a alma e nos leva a acreditar no universo poético deste magnifico livro de Frank O’Hara intitulado “Vinte e Cinco Poemas à Hora do Almoço”.

Rui Luís Lima