Sam Shepard - "Crónicas Americanas"

Sam Shepard
"Crónicas Americanas" / "Motel Chronicles"
Difel
Quando a sua mulher Jessica Lange era entrevistada no seu rancho, Sam Shepard procurava refúgio junto dos estábulos ou partia a cavalo para a colina mais próxima do sol. Este homem, nascido em Fort Sheridan, no estado do Illinois, foi um dos maiores dramaturgos norte-americanos, sendo comparado por muitos a Eugene O’Neil. Para Frank Rich, ele foi um profeta, amante da tecnologia e dos ambientes selvagens, bem patente nos seus contos, poemas, monólogos e peças de teatro.

"esta gente aqui
já é
a gente
que finge ser"
27/7/81 – Los Angeles/Sam Shepard
Filho de um oficial da aviação, a sua infância, tal como a de Jim Morrison dos Doors, foi invadida pelo sentido nómada a que se encontravam ligados os pais. Ele mesmo referiu numa entrevista que as suas raízes intelectuais foram adquiridas na “cultura-auto” para adolescentes, através das cidades do sul da Califórnia.
A sua obra apresenta no seu interior a nostalgia pelo velho Oeste: as planícies desertas, as águas dos rios frescas e cristalinas, o amor da solidão, o medo, o rock na estrada, os motéis, a família em desagregação, a amizade, os breves encontros e a dor dos sentimentos.
Com mais de quarenta peças escritas, entre as quais “Burried Chield” que obteve o Pulitzer, Sam Shepard acabou por chegar ao cinema. Mas muito antes navegara pelas águas do rock, tocando bateria ao lado de Bob Dylan e dos Molly Modal Rounders. O seu conto “Ritmo”, invadido pelo "rock and roll", é a melhor referência ao movimento sincopado de bateristas como Ginger Baker ou Keith Moon.
Em Portugal, Sam Shepard viu chegarem ao palco as peças “Loucos de Amor” / "Fool For Love" encenada pela primeira vez em S. Francisco a 8 de Fevereiro de 1983 no Magic Theatre e a peça “Coração na Boca” / "Cowboy Mouth", escrita de parceria com a cantora/poetisa Patti Smith, com quem vivia na época.
Sam Shepard e o cinema encontraram-se pela primeira vez em “Deserto de Almas”/”Zabriskie Point” de Michelangelo Antonioni, no qual colaborou como argumentista. No entanto será com “Paris/Texas” de Wim Wenders, um “road-movie” nostálgico, que Sam Shepard irá alcançar a fama no Velho Continente. Os diálogos do encontro de Travis com Jane no "Peep-Show" são dos mais dolorosos e sinceros que alguma vez foram escritos para cinema e Wim Wenders, com a música de Ry Cooder, atingiu o estado-cristalino da sua criatividade.

"A felicidade
cai
no lado errado
da Sorte
A felicidade
cai
longe das minhas mão.
A felicidade
despenha-se
entre as árvores
toda a gente se queixa."
2//7/81 – San Fernando Valley / Sam Shepard
A estreia de Sam Shepard na Sétima Arte como actor, ocorreu no “cult-movie” de Terrence Malick “Dias do Paraíso”/”Days of Heaven” e mais tarde deu-se o encontro com a sua companheira Jessica Lange no ano de 1982, em “Frances” realizado por Graeme Clifford, que narra a história de Frances Farmer, estrela de cinema cintilante dos anos trinta. Depois Philip Kaufman passou para o écran a epopeia de Tom Wolf “The Right Stuff”/”Os Eleitos”. O desempenho de Sam Shepard nesta película leva a Academia de Hollywood a nomeá-lo para o Oscar do Melhor Secundário, isto num filme em que não havia actores principais.
Entretanto a sua ligação com a actriz Jessica Lange, de quem teve dois filhos, leva-o a interpretar e produzir “Country - A Minha Terra”, reflexo da sua própria vida como fazendeiro e cujo objectivo era alertar os agricultores para a política agrícola nefasta do então presidente Ronald Reagan.
A sua peça “Fool For Love”/ ”Loucos de Amor”, das mais conhecidas internacionalmente, foi adaptada ao cinema por Robert Altman e, melhor do que ninguém, Sam Shepard vestiu a pele do cowboy errante, que regressa à sua amada, uma Kim Basinger sensual e selvagem. Falou-se na altura numa relação escaldante entre ambos, durante as filmagens.
Depois de “Loucos de Amor”, Sam Shepard teve três papéis secundários em películas medianas de reduzido interesse, caso de “Crimes do Coração” / "Crimes of The Heart" de Bruce Beresford, “Quem Chamou a Cegonha” / "Baby Boom" de Charles Sheyer e “Flores de Aço” / "Steel Magnolias" do veterano Herbert Ross.
Entretanto Shepard passou para o outro lado da câmara e realizou e escreveu “Ordem de Execução” / "Far North", exibido em Lisboa apenas durante uma semana, numa sala "deserta" do cinema Amoreiras, e só com referências na imprensa depois da sua saída de cartaz, aliás as referências foram lamentações da crítica, porque ninguém viu a película.

"desde a relva alta, alta
até à esquina do parque
vejo-te que me estudas
eu vejo-te quando tu não sabes que estou a olhar
e cada olhar que te roubo
deixa-me um dia mais novo
Ultimamente tem sido difícil apanhar-te
ou então sou eu que estou a ficar velho
um dos dois está com certeza a perder"
6/11/81 – Homestead Valley/Sam Shepard
Nos anos noventa do século passado continuou a surgir em papéis secundários em diversos filmes, numa média de três por ano e ainda escreveu e realizou o seu segundo "movie", um "western" intitulado “Silent Tongue”, com Richard Harris, Alan Bates e River Phoenix nos protagonistas... no novo século XXI manteve a média de aparições, sendo de destacar a sua interpretação em “Cercados”/”Black Hawk Down”.
Sam Shepard foi o último dos cowboys, o homem que atravessou os anos sessenta com o rock, a poesia e o teatro no seu alforge; depois, quando desceu do cavalo, descobriu o cinema ao lado do saloon, conquistou a "girl" de “King Kong”, transformando-a na sua companheira para a vida, fazendo dela a mulher que todos admiramos e ele continuou as suas narrativas do velho Oeste com o Sol a Sorrir no Horizonte Feliz, mesmo depois de ter partido nesse ano de 2017.
“Crónicas Americanas” / "Motel Chronicles" reúne poemas e contos escritos com a inevitável originalidade de Sam Shepard, onde as memórias navegam ao sabor da escrita.
Rui Luís Lima













