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Notícias de Marte

Uma viagem pelo universo dos livros e seus autores: literatura, poesia, ensaio, cinema, banda desenhada, arte e teatro.

Notícias de Marte

Uma viagem pelo universo dos livros e seus autores: literatura, poesia, ensaio, cinema, banda desenhada, arte e teatro.

Yukio Mishima - “O Tumulto das Ondas”

Rui Luís Lima, 22.09.25

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Yukio Mishima
“O Tumulto das Ondas” / "Shiosai"
Páginas: 174
Relógio D’Água

Foi através de um texto de António Mega Ferreira (*) publicado no "JL – Jornal de Letras", na época em que ele era chefe de redacção, que descobri o escritor Yukio Mishima, o alvo era a publicação em Portugal de “O Marinheiro que Perdeu as Graças do Mar” e desde então tenho lido tudo o que encontro do autor japonês, depois temos o celebre filme que Paul Schrader realizou, sobre o qual já escrevemos aqui no blog "Manuscritos da Galáxia", e essa obra incontornável que Margueritte Yourcenar escreveu sobre o escritor, sobre o qual já escrevemos aqui, e disponível no nosso país graças à editora Relógio D’Água que também é responsável pela edição deste belo e singular romance intitulado “O Tumulto das Ondas” com ilustrações de Catarina Baleiras.

Estamos perante um belo romance que nos narra a história de amor entre Shinji, um jovem pescador pobre e a bela Hatsue de outra condição social, mas que não será impedimento para que a chama do amor surja de mansinho e os leve a unir esforços para ultrapassar as barreiras que os separam do Paraíso. Como já é habitual nestas pequenas crónicas aqui fica um pequeno trecho deste belíssimo livro de Yukio Mishima.

Rui Luís Lima

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(...) "Agora, já Shinji podia entrar livremente em casa de Miyata Terukichi. Um dia que voltava, apresentou-se à porta da casa com uma camisa de colarinho aberto, de brancura impecável, e com as calças acabadas de passar a ferro; em cada mão trazia uma dourada...

Hatsue esperava-o, já pronta. Os dois jovens haviam prometido ir ao templo de Yashiro e ao farol para anunciar o noivado e transmitir os agradecimentos.

Iluminou-se a entrada de terra batida mergulhada na meia escuridão do crepúsculo. Hatsue surgiu, vestida com aquele quimono de Verão, branco, com grandes campainhas, que comprara ao vendedor ambulante. A brancura do vestido brilhante, mesmo em plena noite.

Shinji ficara à espera, apoiando-se com uma mão à porta da entrada; baixou o olhar para Hatsue quando esta apareceu e, sacudindo uma das pernas calçadas com socos de madeira, como quem espanta os insectos, murmurou:

- Os mosquitos são terríveis!

- São, não são?

Os dois jovens subiram a escadaria de pedra que levava ao templo de Yashiro. Em vez de correrem por ali acima como poderiam ter feito, preferiram subir lentamente os degraus, com os corações banhados de alegria, como para saborearem o prazer de cada degrau." (...)

Yukio Mishima

in "O Tumulto das Ondas"

(*) - O Texto de António Mega Ferreira sobre Yukio Mishima que refiro, poderá ser encontrado no livro "A Borboleta de Nabokov". (Ed. Noticias)

Tolstoi - "Guerra e Paz"

Rui Luís Lima, 18.08.25

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Tolstoi
"Guerra e Paz"
Biblioteca Popular Minerva (6 volumes)
Páginas: 250 +- por volume
Editorial Minerva

Quando me cruzei com Tolstoi e a sua "Guerra e Paz" nos finais dos anos 60 e ainda com a idade de um digito, ele chamava-se aqui no burgo Leão Tolstoi mas, anos mais tarde, passou a Leon Tolstoi, com a chegada do novo milénio foi "baptizado" de Lev Tolstoi, mas ao preparar este post também o descobri como Liev Tolstoi, por tudo isto e não querendo confundir alguém que passe por aqui, optei por referir-me a este génio da Literatura simplesmente como Tolstoi.

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Vamos então a uma memória de um dia de verão, na companhia da minha avó, que me tinha comprado os seis volumes da Minerva a meu pedido nesse ano na Feira do Livro, que na época se situava na Avenida da Liberdade e como já era tradição chovia torrencialmente. Assim estivemos abrigados numa pastelaria e só quando a chuva abrandou lá fomos ver os livros. Nessa época tinha começado a trocar as leituras dos "Bravos do Oeste" e da "Patrulha de Combate" pelos russos que tinha descoberto: Maximo Gorki (fiquei fascinado com o "Infância" e as personagens da avó e o neto, que li várias vezes), Dostoievski e Tolstoi.

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Dias depois vinha com a minha avó no eléctrico 24 que na época tinha um atrelado e eu agarrado ao livro de Tolstoi, sentado a ler, desde o Alto de S. João; quando chegámos a Campolide deram-me um encontrão que até o livro me fugiu das mãos, lá o apanhei do chão com a capa dobrada para meu infortúnio e perdido no meio da batalha que se desenrolava nas páginas do "Guerra e Paz", já não sabia quem era quem e assim tive que voltar atrás umas quantas páginas e retomar a leitura até chegar ao Carmo, término do 24 da Carris e nosso destino final.

Na época desconhecia que o Henry Fonda e a bela Audrey Hepburn entravam no filme realizado por Henry King em 1956, que só vi recentemente, mas Tolstoi, com Leão, Leon ou Lev no nome regressou recentemente ao meu convívio com o fabuloso "Ressurreição" e continuo a interrogar-me porque razão os editores portugueses não gostam do formato dos livros de bolso?

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Para terminar gostaria de referir que o célebre escritor russo, a quem o actor Christopher Plummer deu vida no grande écran do cinema, nos oferece um conjunto de considerações sobre a guerra bastante filosóficas neste seu livro e bem interessantes nos dias de hoje. "Guerra e Paz" que reli este ano e me surpreendeu, mais uma vez, mas com outros olhos, conduziu-me a essa infância em que descobri o maravilhoso universo dos livros, companheiro de mais dois mundos: o do cinema e o da música.

Rui Luís Lima

Jane Austen - "Pride and Prejudice"

Rui Luís Lima, 12.08.25

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Jane Austen
"Pride and Prejudice"
with illustrations by Hugh Thomson
hand coloured by Barbara Frith
Posfácio: Henry Hitchings
Páginas: 496
Collector's Library

Durante vários anos aqui em casa diziam que era uma lacuna eu nunca ter lido nenhum romance da Jane Austen e eu em minha defesa respondia que tinha visto os filmes. E até tinha visto a película "O Clube de Jane Austen" em que um dos personagens julgava que os romances eram sequelas. Como adoro esta edição de "Pride and Prejudice", que mora aqui em casa, decidi finalmente ler o mais famoso romance da célebre escritora inglesa.

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Jane Austen que viu publicado este seu romance ainda em vida, embora a autoria fosse atribuída a um autor anónimo, faz ao longo de "Orgulho e Preconceito" / "Pride and Prejudice" uma critica à literatura da época, derrubando convenções e introduzindo através dos seus heróis pontos de vista bem diferentes do estabelecido. E curiosamente, tantos anos depois, os "herdeiros" do inesquecível Mr. Collins continuam a navegar por aí, fruto da ambição humana.

Tenho de confessar que a escrita de Jame Austen seduz e depois ao recordar-me da famosa série de tv que ofereceu uma nova vida ao livro, sobre o qual a Paula já escreveu aqui, verifico que o argumentista seguiu "à letra" os diálogos do livro e fez muito bem!

Como última nota uma referência às belas ilustrações desta edição da responsabilidade de Hugh Thomson e Barbara Frith, que são uma verdadeira delícia, porque respiram Arte!

Rui Luís Lima

John Fowles - "A Amante do Tenente Francês" / "The French Lieutenant's Woman"

Rui Luís Lima, 07.08.25

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John Fowles
"A Amante do Tenente Francês" / "The French Lieutenant's Woman"
Páginas: 360
Editorial Presença

Foram alguns os que viram a excelente adaptação cinematográfica de "A Amante do Tenente Francês" saída das mãos de Harold Pinter, para a realização de Karel Reisz, mas serão certamente poucos os que leram o genial romance de John Fowles, que nos oferece um retrato de época fabuloso, e ainda tem tempo para conversar com o leitor sobre o livro, as personagens que criou e a época que retratou de forma inesquecível.

"A Amante do Tenente Francês" / "The French Lieutenant's Woman" é um desses livros que depois de ser lido (um capítulo por dia para saborear de forma perfeita este livro, que derruba todas as fronteiras literárias), nunca mais se esquece e se torna um desses belos livros que nos acompanha para o resto da vida.

Rui Luís Lima

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«O vento de leste é o mais desagradável na Baía de Lyme - sendo a Baía de Lyme aquela maior dentada na parte inferior da longa perna sudoeste da Inglaterra - , e uma pessoa curiosa poderia imediatamente ter tecido várias boas hipóteses acerca do par que começou a passear ao longo do cais em Lyme Regis, o pequeno mas antigo epónimo da dentada, numa cortantemente fria e ventosa manhã dos fins de Março de 1867».

John Fowles

in ""A Amante do Tenente Francês"

John Le Carré - "O Ilustre Colegial" / "The Honourable Schollboy"

Rui Luís Lima, 25.07.25

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John Le Carré
"O Ilustre Colegial" / "The Honourable Schollboy"
Páginas: 655
Dom Quixote

Mr. David John Moore Cornwell, mais conhecido no universo literário por John Le Carré, ex-membro dos Serviços Secretos Britânicos, quando escreveu o seu primeiro romance ainda pertencia ao MI6 e por aqueles corredores bem cinzentos por onde ele se movimentava muito boa gente andava em sobressalto devido a terem um romancista entre eles que, apesar de possuir uma imaginação fértil, conhecia de facto a triste realidade dos Serviços Secretos Ocidentais, mas também os do outro lado do muro.

Durante décadas os Serviços Secretos de Sua Majestade Britânica Isabel II foram um dos territórios mais férteis de fuga de informação dita classificada, ao mesmo tempo que se transformava no mais perfeito e brilhante covil de toupeiras, durante o período da denominada Guerra Fria, de que há memória.

Este tema tão delicado será o eleito por John Le Carré ao fazer nascer essa personagem “cinzenta” chamado George Smiley, um homem “vulgar”, dono de uma inteligência e uma perspicácia únicas, que irá ter do outro lado do muro ou se preferirem do outro lado da cortina de ferro um opositor soviético de nome Karla, que se irá tornar no seu maior pesadelo.

“O Ilustre Colegial” é o segundo volume deste duelo entre Smiley e Karla, onde iremos percorrer os mais diversos cenários, desde o Sudoeste Asiático, tendo Hong-Kong como pano de fundo, passando inevitavelmente por Londres, onde Smiley reorganiza os Serviços do Circus, anteriormente” danificados” por Karla, até chegar aos Balcans onde se encontra esse Ilustre Colegial, um agente adormecido à espera de missão, que irá tentar impedir que o KGB continue a realizar com sucesso as suas acções numa nova zona do globo, considerada estratégica para os Serviços Ocidentais.

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John Le Carré, ao longo dos capítulos de “O Ilustre Colegial”, vai-nos apresentar personagens já conhecidas do leitor, desenrolando-se a acção em diversos cenários, que nos são oferecidos em capítulos distintos, ao mesmo tempo que descobrimos o retrato bem mordaz com que John Le Carré caracteriza o jornalismo praticado nesses tempos da Guerra Fria, em que não há almoços grátis e os inocentes são uma raça em via de extinção

A escrita de John Le Carré, tendo em conta o tema que retrata e que tão bem conheceu, surge minuciosa e detalhada em todos os pormenores da acção, obrigando o leitor a absorver cuidadosamente todos os detalhes referidos ao longo do livro para compreender a trama que se está a desenrolar, onde a intoxicação de informação usando os jornalistas como correia de transmissão é um dado mais do que adquirido.

John Le Carré, ao longo do seu percurso literário, revelou-se um dos mais admiráveis escritores de romances policiais, sempre no cerne do acontecimento político e tantas vezes incómodo para as autoridades, que olhavam sempre com desconfiança o aparecimento de um novo livro do escritor no universo literário.

Podemos até imaginar os frequentadores desses corredores cinzentos onde se movimentam os serviços secretos, com as suas inevitáveis casas seguras e os seus escritórios camuflados de firmas de advogados a murmurarem uns com ou outros; “mas que será que ele descobriu agora, para nos atormentar?”

John Le Carré faleceu a 12 de Dezembro de 2020, mas os seus livros permanecem bem vivos e são o retrato deste mundo contemporâneo em que vivemos.

Rui Luís Lima

Jorge Silva Melo - "Século Passado"

Rui Luís Lima, 23.07.25

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Jorge Silva Melo
"Século Passado"
Páginas: 560
Livros Cotovia

“Século Passado” é um livro da autoria de Jorge Silva Melo (1948 - 2022), que reúne diversos textos escritos pelo autor em publicações periódicas, ao longo dos anos, assim como diversos textos cinematográficos publicados em diversos catálogos de cinema. Mas “Século Passado” é muito mais do que uma compilação de textos porque, através deles, temos o retrato de uma geração brilhante, ao mesmo tempo que nos é oferecida uma imagem muito bela de uma época em que a cultura respirava por todos os poros, sendo um verdadeiro prazer a sua leitura, porque a literatura vive por aqui.

Nunca é demais realçar o trabalho de Jorge Silva Melo e Luís Miguel Cintra ao longo dos anos no Teatro da Cornucópia, onde foi possível viajar ao longo da História do Teatro, desde a Antiguidade até aos autores contemporâneos. Depois temos sempre a visão de crítico de cinema que Jorge Silva Melo, nos deixou ao longo dos textos que escreveu sobre a Sétima Arte, recordo-me desse fabuloso catálogo editado pela Fundação Gulbenkian, aquando do ciclo de cinema Actor/Actor, que deixa maravilhado quem o descobre, seja cinéfilo ou não.

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E se há peças de Teatro que nos ficam na memória para sempre, uma delas é precisamente “Casimiro e Carolina”, de Odon Von Horváth, onde o Teatro visita o Cinema pela porta grande da Sétima Arte, uma peça cuja encenação permanece bem viva nas minhas memórias, temos automóveis a movimentarem-se e um Zeppelin a voar, numa encenação memorável. Já no que respeita à obra cinematográfica de Jorge Silva Melo será sempre de recordar esse “António, Um Rapaz de Lisboa”, um filme magnífico que deixou perfeitamente espantados e maravilhados todos os espectadores que o viram, respirava cinema por todos os fotogramas.

“Século Passado” não é só o testemunho de uma geração, através da escrita inconfundível de Jorge Silva Melo, onde descobrimos esse enorme universo cultural do seu autor, mas também é um daqueles livros que nos faz o retrato dessa época, em que sonhar era uma aventura maravilhosa. Jorge Silva Melo partiu a 14 de Março de 2022, tinha 73 anos.

Rui Luís Lima

Lawrence Durrell - "O Quarteto de Alexandria"

Rui Luís Lima, 21.07.25

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Lawrence Durrell
"O Quarteto de Alexandria"
Páginas: 936
D. Quixote

A genial e incontornável obra de Lawrence Durrell, “O Quarteto de Alexandria” está editada em português em três modalidades: um conjunto de 4 volumes, em livro de bolso também em quatro volumes e apenas num só livro, como sucede com esta edção da D. Quixote..

“O Quarteto de Alexandria” de Lawrence Durrell tem sido lido sempre com um enorme prazer desde que o descobri, porque Durrell trabalha o espaço e o tempo de forma sublime e a leitura desta magnífica obra tem várias hipóteses, como nos diz o seu autor: seguir a ordem de “Justine”, “Baltazar”, “Moutolive” e “Clea”, ou optarmos por outra ordem qualquer, mas iniciando sempre em "Justine".

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Tenho que confessar que já li de todas as "maneiras", descobrindo sempre um enorme prazer literário, porque na verdade estamos perante um desses monumentos incontornáveis das letras do século XX, que bem merece não ficar esquecido neste novo milénio em que a memória se perde a uma velocidade contemporânea ouu seja é imediato e rapidamente esquecida.

"O Quarteto de Alexandria" de Lawrence Durrell (1912 - 1990) é uma obra incontornável no universo literário!

Rui Luís Lima

Peter Handke - “A Tarde de um Escritor” / “Nachmittag eines Schriftstellars”

Rui Luís Lima, 19.07.25

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Peter Handke
“A Tarde de um Escritor” / “Nachmittag eines Schriftstellars”
Páginas: 90
Editorial Presença

Quando escutamos alguém a falar no nome de Peter Handke, de imediato surgem na nossa memória as películas de Wim Wenders nascidas a partir dos argumentos desta voz singular da denominada nova literatura alemã, em que a solidão é tantas vezes personagem, basta recordar filmes como “As Asas dos Desejo”, “Movimento em Falso”, “A Mulher Canhota” ou “A Angustia do Guarda-Redes Perante o Penalty”, estes dois últimos nascidos primeiro no formato de novela e só depois transformados em argumento cinematográfico.

Peter Handke, ao longo dos anos, tem trabalhado a palavra através de uma actividade ímpar, que tem alternado entre a literatura, o teatro e o cinema, recorde-se que também ele já realizou quatro películas. Mas o que nos interessa aqui é precisamente o seu trabalho literário, mais concretamente o livro “A Tarde de um Escritor”, que surge dedicado a Francis Scott Fitzgerald e onde a solidão humana se encontra bem presente, ou não fosse essa mesma solidão a oficina ideal do escritor, como um dia referiu Paul Auster numa entrevista.

Em “A Tarde de um Escritor” iremos descobrir uma profunda reflexão sobre a existência humana nas sociedades contemporâneas, essa difícil arte de existir tantas vezes incógnito no interior da sua própria escrita, oferecendo sempre um pouco de si mesmo às personagens que vai criando, até chegar esse momento em que a ficção e a realidade se diluem de forma perfeita nas palavras que vai construindo, em busca dessa linguagem que aquece os dias matando o frio das pequenas solidões.

Rui Luís Lima

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«Desde que, durante quase um ano, o escritor viveu com a ideia de ter perdido a língua, cada frase que escrevia, sentindo ainda por cima o ímpeto da possível continuação, era para ele um acontecimento. Cada palavra que, não dita, mas escrita, dava origem à outra palavra, fazia-o respirar fundo e ligava-o de novo ao mundo; só com esse apontamento feliz começava para ele o dia, e então também bem podia ser que nada mais acontecesse até à manhã seguinte.» (...)

(...) «O escritor já ía a meio caminho do portão do jardim, quando de repente se voltou.

Correu para dentro de casa, precipitou-se lá para cima para o quarto de trabalho e substituiu uma palavra por outra. Só agora sentia no quarto o cheiro do suor e via a humidade nos vidros.

De repente deixou de ter tanta pressa. De repente devido a essa nova palavra, toda a casa vazia deu a impressão de calor e de bem-estar.»(...)

Peter Handke

in "A Tarde de Um Escritor"

André Malraux - “A Esperança” / “L’Espoir”

Rui Luís Lima, 17.07.25

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André Malraux
“A Esperança” / “L’Espoir”
Páginas: 518
Colecção: Dois Mundos
Livros do Brasil

“A Esperança” de André Malraux é um dos mais dramáticos testemunhos da Guerra Civil de Espanha, convidando-nos a descobrir a forma como Franco chegou ao poder no país vizinho, derrubando o legítimo Governo Republicano, com o apoio militar de Hitler (que testou a seu “Blitzkrieg” sobre Guernica e não só), Mussolini (com os seus caças Fiat e tropas regulares no terreno ambicionando anexar Gibraltar) e Salazar, que lhe deu apoio e deixou os bombardeiros alemães com pilotos e mecânicos estacionarem na fronteira, perto de Badajoz.

A leitura deste romance de André Malraux, que combateu ao lado das tropas da República, sendo um dos comandantes das Esquadrilhas Aéreas com os seus aviões repletos de remendos e os seus tripulantes a lançarem as bombas à mão, oferece-nos um relato desta guerra desigual, à qual a Europa fechou os olhos, para só os abrir quando Hitler invadiu a Polónia.

“A Esperança” de André Malraux ombreia ao lado de obras como “Por Quem os Sinos Dobram” de Ernest Hemingway, “Homenagem à Catalunha” de George Orwell ou o recente e pungente testemunho de memórias que é o inesquecível livro de Lydie Salvayre, “Pas Pleurer”, vencedor do Prémio Goncourt, que já foi publicado em Portugal com o título “Nada de Lágrimas”.

Uma última referência para o excelente trabalho de tradução levado a cabo por Judith Cortesão, que nos oferece um imenso conjunto de notas, que nos ajudam a situar e a identificar na história recente os protagonistas deste romance incontornável, sobre um dos conflitos mais mortais do século xx e que muitos decidiram apagar da memória da História.

Rui Luís Lima

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“Diante das vitrinas sombras agitavam-se na neblina e ouvia-se o ruído que faziam ao carregarem e descarregarem pedras da calçada. Na Gran Via, os empregados serviam, com uma estupefacção melancólica, três clientes perdidos na imensa sala, e que pensavam que seriam os últimos clientes da República. Mas na sala de entrada do hotel, os soldados do 5º regimento, um a um, retiravam punhados de balas de grandes sacos, e formavam, por companhias no passeio. Estavam fortemente armados. Em Tetán, em Cuatro-Caminos, as mulheres levavam para o último andar das casas toda a gasolina que tinham podido juntar; nesses bairros operários, render-se, ir-se embora, eram coisas inimagináveis. De camião e a pé, os homens do 5º regimento desciam para Carabanchel, Parque do Oeste e Cidade Universitária. Pela primeira vez, Scali sentia-se perante as energias coordenadas de quinhentos mil homens.”

André Malraux

“A Esperança”

Livros do Brasil

Catherine Texier - "Love Me Tender"

Rui Luís Lima, 15.07.25

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Catherine Texier
"Love Me Tender"
Páginas: 248
Edições 70

Catherine Texier, nascida e criada em França, reside em New York e viu ser editado em Portugal, pelas Edições 70, o magnífico “Love Me Tender”.

«Quero-te, diziam os olhos de Rafael, azul-turquesa como uma piscina da Florida. Encontravam-se apertados, cotovelo com cotovelo, num bar apinhado. Os olhos também denunciavam que ele estava bêbado. Mas sóbrio até à morte no seu desejo por ela.»

“Love Me Tender” possui uma fotografia sugestiva na capa, mas Catherine Texier não é só autora de uma obra: “Panic Blue” e “Chloé l’Atlantique” são outras das suas obras que se encontram com facilidade nas livrarias, tendo a última sido escrita originalmente em francês. Para além de escrever regularmente em revistas como “Harper’s Bazaar”, “Cosmopolitan”, “Marie Claire”, “Elle” e a “Newsday” foi também uma das responsáveis pela edição do magazine literário “Between C and D”.

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Já a sua novela “Victorinne” convoca Flaubert e Stendhal para a sua “feitura” do ponto de vista estilístico e a acção decorre em finais do século xix em França, sendo baseada na vida da sua bisavó, curiosamente a própria capa do livro é um “pastiche” das obras destes escritores.

Mais tarde Catherine Texier vê uma vida sólida, baseada no amor construído com o seu companheiro de sempre, explodir literalmente na selva de betão da grande metrópole, nascendo assim um dos livros mais lidos da autora, “Break Up – The End of a Love Affair”, crónica do último ano de uma tempestuosa vida matrimonial ao fim de 18 anos de sólido casamento e de amizade literária, onde a traição e a autodestruição percorrem o mesmo leito do rio: “I will never forgive you. I will never make love with you again. I do not love you anymore”.

A sua obra literária, embora pouco conhecida em Portugal, merece uma melhor divulgação, porque a sua escrita profundamente erótica merece bem ser descoberta. Enquanto isso não sucede procurem “Love Me Tender” e, já agora, porque não ler “Break Up – The End of a Love Affair” para evitar o fim da paixão.

Rui Luís Lima