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Notícias de Marte

Uma viagem pelo universo dos livros e seus autores: literatura, poesia, ensaio, cinema, banda desenhada, arte e teatro.

Notícias de Marte

Uma viagem pelo universo dos livros e seus autores: literatura, poesia, ensaio, cinema, banda desenhada, arte e teatro.

Lawrence Durrell - "Clea"

Rui Luís Lima, 05.11.25

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Lawrence Durrell
"Clea"
(Quarteto de Alexandria 4)
Páginas: 314
Ulisseia

«O milagre produziu-se num belo dia radioso, imprevistamente, sem sinais premonitores, e nunca pensei que a coisa se pudesse passar com tanta facilidade. Então compreendi que tinha sido até aí como uma mulher, tímida e jovem, a quem assusta a ideia do nascimento do seu primeiro filho.

Sim, nesse dia surpreendi-me a escrever com a mão tremula as três palavras que todos os rapsodos da Terra pronunciam desde que o mundo é mundo para concitar a atenção do auditório. Palavras que simplesmente anunciam a maturidade de um artista. Escrevi: «Era uma vez...»

E senti-me como se o universo me tivesse piscado o olho!»

Lawrence Durrell

in "Clea"

Tradução: Daniel Gonçalves

Lawrence Durrell - "Mountolive"

Rui Luís Lima, 03.11.25

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Lawrence Durrell
"Mountolive"
(Quarteto de Alexandria 3)
Páginas: 382
Ulisseia

«Mountolive lançou em redor um olhar apaixonado, como se desejasse encher a memória para sempre com os detalhes desta terra e das feições que lhe sorriam desejando-lhes felicidades. «Até à vista», gritou, mas na sua voz Leila descobriu toda a ansiedade e dor que o oprimia. Narouz acenou com o braço curvado, sorrindo o seu sorriso torvo; Nessim passou um dos braços em torno dos ombros de Leila enquanto acenava com o braço livre, sabendo perfeitamente o que ela sentia, embora fosse incapaz de encontrar palavras para sentimentos tão equívocos e sinceros.

A barca desatracou. Estava tudo acabado.»

Lawrence Durrell

in "Mountolive"

Tradução: Daniel Gonçalves

Lawrence Durrell - "Baltasar"

Rui Luís Lima, 01.11.25

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Lawrence Durrell
"Baltasar"
(Quarteto de Alexandria 2)
Páginas: 278
Ulisseia

«Nós vivemos - escreve algures Puserwarden - vidas baseadas sobre uma selecção de ficções. A nossa perspectiva da realidade é condicionada pela nossa posição no espaço e no tempo, e não pela nossa personalidade como geralmente se crê. Assim, cada interpretação da realidade se baseia sobre uma posição única. Dois passos para leste ou para oeste e o quadro muda inteiramente.» Ou qualquer coisa parecida...»

Lawrence Durrell
in "Baltasar"
Tradução: Daniel Gonçalves

Lawrence Durrell - "Justine"

Rui Luís Lima, 30.10.25

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Lawrence Durrell
"Justine"
(Quarteto de Alexandria - 1)
Páginas:286
Ulisseia

«O mar está novamente agitado hoje, com rajadas de vento que despertam os sentidos. Em pleno Inverno, a Primavera começa a fazer-se sentir. Toda a manhã o céu esteve de uma pureza de pérolas; há grilos nos recantos sombrios; o vento despoja e fustiga os grandes plátanos...

Retirei-me para esta ilha com alguns livros e com a criança - a filha de Melissa. Não sei porquê, agora, ao escrever, penso nesta ilha como num «retiro». Os habitantes dizem por brincadeira que só um convalescente pensaria em vir procurar este lugar. Bem, para ser condescendente, admitamos que sou um homem que procura curar-se...»

Lawrence Durrell

in "Justine"

Tradução: Daniel Gonçalves

Lawrence Durrell - "Taormina"

Rui Luís Lima, 18.09.25

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Lawrence Durrell - "Taormina"

Os critérios editoriais da edição em Portugal são muitas vezes um mistério no que diz respeito a alguns autores consagrados, segundo o meu ponto de vista e embora me declare desde já um leitor assíduo da Lawrence Durrell, nunca consegui perceber o silêncio que paira sobre a sua poesia. É certo que a sua prosa é verdadeiramente poética, basta recordar essa obra intitulada “O Quarteto de Alexandria” para ficar tudo dito, mas Lawrence Durrell possui uma enorme obra poética e o seu aparecimento na nossa bela língua, que uns cavalheiros insistem em danificar através de acordos ortográficos, seria certamente um acontecimento literário, recorde-se que algum do seu Teatro é também em verso. Um dos seus livros ao qual retorno com enorme prazer intitula-se “Carrossel Siciliano” e nele é possível encontrar alguns belos poemas do autor, entre os quais este lindíssimo “Taormina”, que aqui vos deixo.

Rui Luís Lima

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Taormina

Nós três passámos a noite inteira sentados

No roseiral bebendo e esperando

Que a lua tornasse pretas as nossas rosas

No seu lento passeio pelo céu. Falámos

Uma vez por outra na nossa amiga ausente.

Algumas peças de xadrez caíram,

Morrem também os que apenas se sentem e esperam

A lua nova diante desta porta aberta.

 

Que outra viagem podemos desejar a amigos

Para adular a sua ausência com a nossa lembrança -

Um que se seguiu o peixe-voador para além das remotas Américas, outro para morrer em combate,

Outro para viver na Pérsia e nunca mais escrever.

 

Ela a todos amou consoante a necessidade deles.

Agora eles são pó na memória de alguém

Esperando em perfeita ordem uma deixa.

Assim e desta maneira te lembraremos.

 

O fumo dos cachimbos sobe num contentamento puro,

As rosas esticam os pescoços e eis que enfim

Ela cavalga além para emprestar

Uma forma e ficção ao nosso carinhoso desejo.

As legiões dos silenciosos esperam, todas.

 

Lawrence Durrell

in "Carrossel Siciliano"

Livros do Brasil

Lawrence Durrell - A Casa e o Escritor!

Rui Luís Lima, 10.09.25

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Lawrence Durrell - A Casa e o Escritor!

Uma imagem que me tem acompanhado a minha actividade como blogger tem sido a fotografia de uma casa, situada em Kalami, Corfu na Grécia, onde viveu o escritor Lawrence Durrell, e quando a olhamos quase que vislumbramos o escritor debruçado sobre o papel a escrever mais uma história do seu herói Antrobus, numa espécie de pausa entre os seus grandes romances que ofereceram novos horizontes à Literatura.

Se Fernando Pessoa tivesse vivido naquela casa como é que teria nascido o seu heterónimo Álvaro de Campos? Nasceria também num daqueles momentos de genialidade em que encostado a uma cómoda criaria o poeta marítimo, tendo ainda forças para escrever em nome próprio a sua “Chuva Oblíqua” ou simplesmente andaria a passear com Ricardo Reis conversando sobre a cultura helenística, até chegar aquela pequena vaga que o obrigaria a tirar o seu "moleskine" do bolso e fazer nascer uma ode marítima?

Encontrei Antrobus no dia em que comprei “As Cenas da Vida Diplomática” e de imediato fiquei fascinado por ele e as personagens que se movimentavam nesses círculos diplomáticos tão bem conhecidos do escritor. A sua publicação na época teve um efeito devastador no bom sentido da palavra, porque o humor vive em cada página com um sorriso verdadeiramente diplomático, embora algumas situações não sejam nada diplomáticas.

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Lawrence Durrell escreveu três livros com o herói, foram eles: “Stiff Upper Lip” e Esprit de Corps” ambos editados em Portugal sobre o título “Cenas da Vida Diplomática” e um terceiro volume “Sauve qui Peut” editado autonomamente com o título “Salve-se Quem Puder!” (A Faber & Faber possui uma edição com diversos cartoons dos personagens). E o prazer que a sua leitura me proporcionou levou-me a compartilhar estes livros com todos os meus amigos, porque a melhor prenda que se pode dar a alguém, como todos sabemos, é um livro.

Regressando à casa do escritor temos a sensação de o encontrar a olhar a paisagem debruçado de uma das janelas, enquanto mentalmente vai criando as suas histórias com um sorriso nos olhos da alma, até chegar esse dia em que ele irá trocar de país e partir para uma outra casa, situada na Provença e ali dar nascimento a um "Quinteto de Avinhão" que nos deixará a todos deslumbrados. Mas para trás ficará sempre na nossa memória as areias escaldantes de Alexandria, onde viveu esse célebre Quarteto, que fez da passagem do tempo, uma das mais belas histórias da Literatura.

Olhamos esta casa em Kalami e temos o desejo de fazer recuar os dias até chegarmos a esse café perdido no tempo, onde passávamos as tardes a consumir cigarros e a devorar as páginas do nosso amigo Lawrence Durrell, nesse Verão do nosso encantamento.

Rui Luís Lima

Lawrence Durrell - "O Quarteto de Alexandria"

Rui Luís Lima, 21.07.25

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Lawrence Durrell
"O Quarteto de Alexandria"
Páginas: 936
D. Quixote

A genial e incontornável obra de Lawrence Durrell, “O Quarteto de Alexandria” está editada em português em três modalidades: um conjunto de 4 volumes, em livro de bolso também em quatro volumes e apenas num só livro, como sucede com esta edção da D. Quixote..

“O Quarteto de Alexandria” de Lawrence Durrell tem sido lido sempre com um enorme prazer desde que o descobri, porque Durrell trabalha o espaço e o tempo de forma sublime e a leitura desta magnífica obra tem várias hipóteses, como nos diz o seu autor: seguir a ordem de “Justine”, “Baltazar”, “Moutolive” e “Clea”, ou optarmos por outra ordem qualquer, mas iniciando sempre em "Justine".

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Tenho que confessar que já li de todas as "maneiras", descobrindo sempre um enorme prazer literário, porque na verdade estamos perante um desses monumentos incontornáveis das letras do século XX, que bem merece não ficar esquecido neste novo milénio em que a memória se perde a uma velocidade contemporânea ouu seja é imediato e rapidamente esquecida.

"O Quarteto de Alexandria" de Lawrence Durrell (1912 - 1990) é uma obra incontornável no universo literário!

Rui Luís Lima

Lawrence Durrell - “Carrossel Siciliano”

Rui Luís Lima, 10.06.25

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Lawrence Durrell
“Carrossel Siciliano” / "Sicilian Carousel"
Páginas: 336
Livros do Brasil

Desde que descobri a escrita de Lawrence Durrell na adolescência, através do seu celebre “Quarteto de Alexandria”, que tenho lido e relido os seus livros, sempre com um enorme prazer, mas ao longo dos anos tenho-me deparado com enormes dificuldades em adquirir os livros que me faltam, mesmo em edições estrangeiras, porque as reedições são escassas, e algo que aprendi através de duras penas foi que, por muito mau estado em que esteja um livro, vale sempre a pena ficar com ele quando é o único exemplar disponível. Esta situação vivi-a na livraria Gilbert Joseph em Paris, quando ao fim de dez anos de busca descobri o célebre “Nunquam”, o segundo volume de “A Revolta de Afrodite”, já que o primeiro intitulado “Tunc” foi editado em Portugal pela Ulisseia e tenho-o em meu poder e até hoje não o voltei a encontrar.

Isto tudo para vos falar do fabuloso livro de Lawrence Durrell intitulado “Carrossel Siciliano”, que se encontra editado no nosso país, e que permanece adormecido, meio escondido, nas prateleiras das livrarias, porque infelizmente na maioria dos casos os livreiros do século xxi e os grandes espaços comerciais só dão destaque às novidades, muitas delas de qualidade bastante duvidosa, que revelam bem um sinal dos tempos presentes.

Lawrence Durrell, neste belo livro, oferece-nos a sua arte literária de forma esplendorosa em virtude de ser possível encontrar nele todas as vertentes da sua escrita, nas mais diversas áreas, pois temos por aqui a poesia , o humor, as viagens, as memórias e a literatura. De referir que o escritor surge em “O Carrossel Siciliano” como protagonista, fazendo parte de um grupo de excursionistas visitando as belas paisagens Sicilianas, mas também com a evocação de duas antigas paixões. A bela Martine e essa Grécia, com a sua História, que o acolheu de braços abertos, mas mais tarde o levou a partir para a Provence em França, como se encontra relatado no seu livro “Chipre Limões Amargos”.

Rui Luís Lima

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«(...) A cidade parecia sossegada e com pouco movimento, apesar de ainda ser cedo. Houve um pequenino contratempo no hotel, onde descobrimos que os porteiros tinham feito greve nesse dia. Tivemos por isso de carregar com as nossas malas de que precisávamos para aquela noite.

Isso não teria sido uma questão muito séria se o elevador não estivesse tão atravancado e se o casal diplomático francês conhecesse a arte elementar de fazer as malas. (...) à saída colidimos de novo no corredor, e, com uma espécie de angústia sibilante, o meu companheiro de viagem disse: "Cher maitre, queira desculpar."

"O meu coração desfaleceu, pois compreendi que tinha sido reconhecido, em virtude, talvez, de ter aparecido demasiadas vezes na televisão, em Paris. Mas ele continuou: " Esteja tranquilo, o seu anonimato será respeitado por mim e pela minha mulher. Ninguém saberá nunca, que Lawrence Durrell está connosco." Foi como se Stendhal se encontrasse com Rossini no elevador. Pouco faltou para que ele fizesse uma genuflexão - quanto a mim, creio que inchei de orgulho, como um sapo. Ele afastou-se às arrecuas pelo corredor fora para o seu quarto - como se faz à realeza ou ao Papa. Eu segui pensativamente para o meu. (...)

(...) A noite estava serena e fragrante. Quando andávamos de um lado para o outro, o francês saiu, viu-nos e avançou com o seu cartão-de-visita em riste. "Como un ancien préfet de Paris" disse, "permita que me apresente. Conde Petremend, às suas ordens". Tinha umas maneiras deliciosas e inocentes de astúcia. (...)

(...) Fez-nos companhia num charuto e demos os três uma volta, para cima e para baixo pelo jardim tépido e sossegado. "Comoveu-me a sua menção do meu anonimato", declarei, emocionado. "Nunca tive qualquer problema com ele, antes. Uma ou duas vezes estive quase a ser declarado persona non grata, mas ficou por aí. Na verdade, a única cruz que tenho que carregar é a de, aonde quer que vá me pedirem que autografe os livros do meu irmão. É invariável." Devo ter falado com grande veemência, pois Deeds olhou para mim com alguma surpresa e disse: "Ainda não aconteceu. " "Mas acontecerá, Deeds, acontecerá." (Dois dias depois, aconteceu. Não me fiz rogado, como de costume, e assinei Marcel Proust com o floreado adequado. )

Nessa noite o nosso conhecimento não foi mais longe porque a mulher do Conde apareceu com uma rima de cartas para ele endereçar e estampilhar - e o conde despediu-se, uma vez mais com a mesma cortesia requintada. (...)»

Lawrence Durrell

in "Carrossel Siciliano" - (Siracusa)

Entrevistas da «Paris Review»!

Rui Luís Lima, 27.05.25

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Entrevistas da «Paris Review»: E. M. Forster, Graham Greene, William Faulkner, Truman Capote, Ernest Hemingway, Lawrence Durrell, Boris Pasternak, Saul Bellow, Jorge Luis Borges, Jack Kerouac.

(Organização: Carlos Vaz Marques)

Páginas: 345

Tinta da China

A Literatura também possui as suas revistas famosas e a “Paris Review”, a par da "Granta", da "New York Review of Books" e do "Magazine Literaire" é precisamente uma delas, tendo-se a primeira tornado famosa pelas suas entrevistas aos maiores nomes da Literatura.

Neste primeiro volume estão reunidas dez entrevistas realizadas nas décadas de 50/60 do século passado e nelas iremos mergulhar na famosa oficina do escritor. Recordo que posteriormente foram editados mais dois volumes com "Entrevistas da Paris Review".

E. M. Forster abre o livro e as portas da sua casa para receber o entrevistador e ao longo desse encontro mergulhamos no templo do autor ficando a saber, entre muitas coisas, que nem sempre a acção retratada num livro serviu de local para a sua feitura, como nos confessa Forster a propósito de “Passagem Para a Índia”, que seria mais tarde adaptado ao cinema por David Lean.

Já o encontro com Graham Greene, realizado também na sua casa, aborda o catolicismo da sua obra, vindo-nos de imediato à memória “O Fim da Aventura” com a inclusão do milagre e do pecado e a inevitável justiça de Deus. Um dado curioso neste encontro que ficamos a saber pela boca do escritor é que num concurso efectuado por uma revista junto dos seus leitores, convidando-os a imitar a escrita de Graham Greene, o escritor decidiu concorrer utilizando um pseudónimo, tendo obtido o segundo lugar.

William Faulkner é outro dos escritores que abriu as portas à “Paris Review”, oferecendo uma das mais belas entrevistas inseridas no livro. Não só fala dos seus livros e do seu método, como nos conta sem pudores como conseguiu editor para o seu primeiro livro. A sua relação com o cinema também é motivo de interesse, oferecendo-nos o olhar de Hollywood de forma bastante mordaz.

O “enfant-terrible” Truman Capote surge aqui também apresentando-se em todo o seu esplendor, nunca fugindo às perguntas do entrevistador, oferecendo-nos momentos de um humor único. Fala-nos do seu método e confessa a sua paixão pela literatura, não encontrando problemas em ler livros de outros autores enquanto escreve as suas obras, ao mesmo tempo que se revela um leitor compulsivo dos jornais diários.

Por seu lado Ernest Hemingway recebe o entrevistador da “Paris Review” com enorme relutância, sentindo-se a dificuldade do génio em ser confrontado pelo entrevistado na sua casa, situada na ilha de Cuba. O autor de “O Velho e o Mar” surge aqui muitas vezes não escondendo uma certa amargura por pessoas com quem conviveu, em especial Gertrud Stein, cujo relato dos encontros tidos na sua casa de Paris, não foram nada do agrado do escritor, que tão bem a retratou no seu "Paris é Uma Festa".

Lawrence Durrell, por seu lado, revela-se um maravilhoso conversador, oferecendo-nos um dos mais belos retratos que um escritor possa fazer de si, falando da sua infância sem pudores e da forma como desde sempre o universo literário o fascinou. Ficamos a saber como nasceu e foi escrita a sua obra literária mais famosa: “Quarteto de Alexandria”, que nasceu para fazer frente às dificuldades económicas então vividas, assim como foram criados os seus famosos livros de viagens, a maioria deles tendo por fundo as ilhas Gregas, aliás o escritor conta-nos que após ter publicado “Chipre, Limões Amargos”, achou por bem não regressar à ilha devido ao ambiente tumultuoso que então se vivia. Uma entrevista perfeita para figurar ao lado da sua obra, devido ao sabor das suas palavras.

Outra das entrevistas mais belas deste livro é efectuada ao prémio Nobel Boris Pasternak, que irá conversar calmamente com a filha de uns amigos, falando não só da sua obra, mas da pátria onde vive. Ao longo das conversas efectuadas (foram várias durante alguns dias), a entrevistadora relata-nos de forma soberba o ambiente que se vive na casa deste grande vulto das letras, cuja obra mais célebre é o famosíssimo “Dr. Jivago”, como muitos devem estar recordados. A simplicidade das suas palavras e a modéstia que vive nelas é de uma ternura pela vida que nos deixa a todos profundamente seduzidos.

Saul Bellow por seu lado fala essencialmente da sua obra e muito em especial de “Herzog”, esse livro incontornável, que o transportou até ao pico da fama.

Jorge Luis Borges oferece-nos outro dos momentos mais belos do livro, conversando tranquilamente com o entrevistador no seu local de trabalho, confessando o seu interesse pelo inglês e norueguês antigo, ao mesmo tempo que mergulhamos maravilhados nas suas palavras percorrendo esse universo único descoberto pelo mundo ao ler a sua obra mágica. Como não podia deixar de ser ficamos também a conhecer a sua luta com a falta de visão, ao mesmo tempo que nos fala do seu interesse pelo cinema.

A terminar este primeiro volume de entrevistas da "Paris Review" a autores que mudaram para sempre os caminhos da Literatura vamos encontrar Jack Kerouac na sua casa, sempre vigiado pela esposa Stella que faz uma verdadeira selecção de quem pode ou não falar com o escritor beatnick. Ficamos a conhecer a forma inteligente como o entrevistador se introduz no seu lar e, de imediato, percebemos que o maior nome da geração "beat" se encontra sobre o efeito de anfetaminas, mergulhando em respostas por vezes desconcertantes, mas profundamente reveladoras. Como não podia deixar de ser ficamos a conhecer um pouco melhor alguns dos episódios da sua convivência com Alan Ginsberg e outros nomes famosos da geração a que pertenceu, ao mesmo tempo que nos são oferecidos pormenores desconhecidos de como foram nascendo os seus livros.

Mergulhar na leitura destas entrevistas é equivalente a uma viagem pelo interior da Literatura do século xx, nas suas mais diversas vertentes, uma viagem que se apresenta profundamente gratificante para o leitor, que inevitavelmente é convidado a (re)descobrir a obra destes homens, que mudaram para sempre o universo Literário. Depois de lerem este belo volume de entrevistas da "Paris Review" há mais dois a esperarem por si!

Rui Luís Lima

Lawrence Durrell - "Cenas da Vida Diplomática"

Rui Luís Lima, 14.05.25

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Lawrence Durrell
"Cenas da Vida Diplomática"
Paginas: 190
Ulisseia

Este divertido livro de Lawrence Durrell, editado pela editora Ulisseia, reúne dois livros do escritor com a mesma personagem, o célebre Antrobus, um funcionário do Foreign Office cujas aventuras ou (des)venturas deixa o leitor à beira de um ataque de lágrimas. Imagine só para ter uma ideia do que digo, a conhecida série televisiva “Sim Senhor Ministro” a ser escrita pelo genial Lawrence Durrell e o resultado seria o que irá encontrar nas páginas de “Cenas da Vida Diplomática”, que como já referimos é constituído pelos volumes “Stiff Upper Lip” e “Esprit De Corps”. Sendo também de salientar que as aventuras de Antrobus foram escritas por Lawrence Durrell, no formato de contos, durante o período em queo escritor  criava esse monumento literário intitulado “O Quarteto de Alexandria”.

O humor de Lawrence Durrell é por demais conhecido em outras obras do escritor e encontra-se bem expresso neste livro, que possui um "irmão gémeo" também editado pela Ulisseia, intitulado “Salve-se Quem Puder”, com Antropus como protagonista.

Durante vários anos Lawrence Durrell foi adido de imprensa de diversas embaixadas britânicas, tendo passado por países como o Egipto e a Jugoslávia, que serviram de palco a alguns dos seus livros. O sucesso das aventuras de Antrobus foi de tal ordem no Reino Unido que a BBC emitiu diversas emissões de rádio em que o conhecido actor Simon Callow (“Quatro Casamentos e Um Funeral”) dava voz ao sensível e diplomático Antrobus, que termina sempre por se ver enredado nos mais diversos conflitos diplomáticos, muitos deles sem resolução possível, como irá descobrir o leitor.

Lawrence Durrell dedicou “Cenas da Vida Diplomática” a Richard Aldington desta forma: “A Richard Aldington que me animou a escrever estas tolices”. A edição inglesa desta obra que reúne  "Stiff Upper Lip", " Esprit de Corps" e "Sauve Qui Peut”, sobre o título de “Antrobus Complete” oferece-nos uns divertidos "cartoons” dos diversos personagens criados pelo autor de "O Quarteto de Alexandria".

Para terem uma ideia do que são as aventuras de Antrobus, descritas pelo genial Lawrence Durrell, aqui vos deixo um excerto do conto intitulado “A Voz do Mar”, incluído no livro “Cenas da Vida Diplomática”, que mais uma vez teve a excelente tradução de Daniel Gonçalves, um profundo conhecedor da escrita de Lawrence Durrell - vamos assim entrar numa festa que a Embaixada Britânica se encontra a dar numa enorme jangada à beira do Danúbio.

…/…

«Estava tudo acabado. Não foi exactamente num abrir e fechar de olhos mas numa série de movimentos como numa sessão de "streap-tease". Aqueles que leram o Tufão de Conrad, podem fazer uma ideia do que se passava.

O Danúbio arrancou o oleado, desatou os troncos e lançou tudo pelos ares. Foi uma sorte que houvessem troncos em número suficiente. Não posso afirmar que o corpo diplomático estivesse a fazer uma bonita figura às cavalitas nos lenhos, com a água a cachoar em torno, mas, pelo menos, não era um espectáculo que se visse todos os dias. O ministro da argentina foi arrastado, aos gritos, rio abaixo, e só o encontraram no dia seguinte a dez milhas de Belgrado. As margens do Danúbio, de Belgrado a Smog, estavam coalhadas de suecos, finlandeses, japoneses e gregos ensopados e inertes, De Mandeville apanhou uma pancada na cabeça, Polk Mowbary ficou com o colarinho amarrotado. Draper perdeu o chinó, que lhe tinha custado cem libras, e teve de usar um barrete durante cerca de dois meses.»

Lawrence Durrell"

in "Cenas da Vida Diplomática"

Livros Ulisseia