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Notícias de Marte

Uma viagem pelo universo dos livros e seus autores: literatura, poesia, ensaio, cinema, banda desenhada, arte e teatro.

Notícias de Marte

Uma viagem pelo universo dos livros e seus autores: literatura, poesia, ensaio, cinema, banda desenhada, arte e teatro.

Annie Cohen-Solal - “Sartre 1905 – 1980”

Rui Luís Lima, 25.06.25

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Annie Cohen-Solal
“Sartre 1905 – 1980”
Páginas: 976+24
Colecção: Folio Essais nª.353
Gallimard
Ano: 1985

Quando desejamos saber mais sobre um escritor, para além de lermos os seus livros, é importante encontrarmos uma boa biografia sobre ele e a sua obra.

Confesso, desde já, que na primeira tentativa que fiz para conhecer melhor Jean-Paul Sartre o resultado não foi satisfatório, já que a autora do livro em questão, uma americana, pertencia a essa legião de novos escritores que andam por aí, a publicar livros com títulos sonantes e com um conteúdo bem decepcionante, para não utilizar outras palavras. Mas felizmente em terras de França, na Gibert Joseph, a minha livraria favorita, descobri este belo livro intitulado simplesmente “Sartre 1905-1980” escrito por Annie Cohen-Solal e confesso que “devorei” o livro numa semana, porque nele viajamos por Paris, pela literatura e filosofia do século xx, acompanhamos os debates que animaram gerações e acima de tudo conhecemos Jean-Paul Sartre, como se estivéssemos a visionar o filme da sua vida.

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Recordo-me que, em tempos idos, a TV5 Monde exibiu uma série bem interessante sobre a vida de Jean-Paul Sartre realizada pelo cineasta Claude Goretta e intitulada "Sartre, l'âge des passions" e Alexandre Astruc também nos ofereceu o belo documentário "Sartre par lui-mème", o homem que recusou o Prémio Nobel, mas este fabuloso livro é um convite a conhecer o homem, o escritor e o filósofo, não esquecendo as suas contradições, os seus amores, as suas lutas, para além de uma viagem pelo século xx, acompanhando o trajecto de um homem que, um estadista famoso, mas que não aprecio, comparou com Voltaire!

“Sartre 1905-1980” de Annie Cohen-Solal, com as suas 1000 páginas, na bela edição de bolso da Folio/Gallimard, é um desses livros que se começa a ler e não se larga mais, até chegar à última página. Bem merecia uma tradução para português, de preferência em edição de bolso, essa "coisa" estranha tão desconhecida do nosso universo editorial!

Rui Luís Lima

Umberto Eco - "Diário Mínimo"

Rui Luís Lima, 09.06.25

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Umberto Eco
"Diário Mínimo"
Páginas: 180
Difel

Umberto Eco
“Pastiches et postiches”
Páginas: 224
Le livre de poche

Ao longo da sua vida, Umberto Eco teve sempre uma enorme intervenção na imprensa, escrevendo inúmeros artigos ou crónicas, se preferirem, muitas vezes com uma mordacidade e um humor a que não resistimos sorrir e foi isso mesmo que me sucedeu quando comecei a ler este "Diário Mínimo" / “Pastiches et postiches” (1), no comboio da linha de Sintra, rumo a Lisboa e quando levantei os olhos do livro a senhora sentada à minha frente olhou-me com ar bastante reprovador, censurando-me assim de forma silenciosa e veemente por estar a sorrir, àquela hora da manhã. Mas se vocês lerem as respostas dadas por um editor a lamentar recusar a edição de diversos livros que lhe foram enviados, irão certamente ler este belo livro, que em Itália teve o título de “Diario Minimo” e em Portugal também.

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O editor leu diversas obras que lhe foram enviadas, solicitando publicação e carinhosamente deu as suas razões para a recusa, para abrir o vosso apetite literário poderei adiantar que a primeira se trata de “A Biblia” (autor(es) anónimos, um problema com os direitos de autor; depois temos Homero e a sua “Odisseia”, hum… o tal filme que não me queriam deixar ver em pequenino, no Chiado Terrasse; já “A Divina Comédia”, de um cavalheiro chamado Dante, tem demasiado Inferno e já há um livro de sucesso com esse título; por sua vez “A Religiosa” de um tal de Diderot convém recusar para impedir Jacques Rivette de “massacrar” a pobre Anna Karina; depois temos um tal “Don Quixote” (não confundir com o “Don Corleone” do Mario Puzo), escrito por Miguel de Cervantes, deve ser recusado para não comprometer a linha editorial, que tanto sucesso tem obtido junto do público leitor; por outro lado “Em Busca do Tempo Perdido” assinado pelo Parisiense Marcel Proust, denota uma enorme necessidade de rever toda a pontuação e de o próprio romance transmitir perigosamente a asma ao leitor; por sua vez “A Crítica da Razão Prática” de Emmanuelle Kant (o homem que muitas vezes é confundido com um relógio pelos vizinhos), o editor, por falta de tempo, pediu ao crítico Vittorio Saltini que desse uma “vista de olhos” e a resposta foi peremptória, aquilo não valia “grande coisa” e além disso o editor alemão insiste em que se publique o livro anterior e o que se encontra em elaboração na “Torre” do Filósofo, para além do problema dos títulos serem tão idênticos que irão confundir o leitor; já o romance policial “O Processo”, que um tal Max enviou a pedido do autor (segundo consegui apurar, chama-se Franz K.) possui umas tiradas à Alfred Hitchcock, por sinal bem agradáveis, mas os personagens deviam ter nomes bem precisos, fáceis para o leitor fixar e o mistério é tão confuso que até o próprio MacGuffin se sentiu perplexo com tanto abstraccionismo literário, pior do que o hoje mal-amado Nouveau Roman; por último, “Finnegans Wake”, enviado por uma jovem americana a viver em Paris, na Rive Gauche, chamada Sylvia Beach, que deve ter trocado certamente os pacotes na expedição do correio em “Les Halles”, porque o volume em questão só tem o título em inglês, o “dialecto” usado no livro é desconhecido do departamento de inglês da editora e com J. R. R. Tolkien, especialista em línguas mortas, de férias na Terra do Nunca, não poderemos contar com a sua preciosa ajuda na decifração do enigma linguístico.

Na verdade entusiasmei-me ao escrever esta crónica e ao humor de Umberto Eco neste seu "Diário Mínimo", acrescentei algumas palavras minhas, aqui e acolá, mas o melhor é lerem este delicioso livro de Umberto Eco, cujo segundo volume começa com a aventura de transportar um salmão em viagem, mas isso é outra história que terá de ficar para mais tarde, porque o comboio para Sintra vai partir, repleto de uma babilónia de turistas!

(1) - Li a edição francesa de "Diário Mínimo"  de Umberto Eco intitulada “Pastiches et postiches” numa edição de "Le livre de poche".

Rui Luís Lima

E. M. Forster - "Pharos & Pharillon - Uma Evocação de Alexandria"

Rui Luís Lima, 03.06.25

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E. M. Forster
"Pharos & Pharillon - Uma Evocação de Alexandria"
Páginas:118
Livros Cotovia

Há livros que nos deixam profundamente fascinados pela história de uma cidade e “Pharos & Pharillon – Uma Evocação de Alexandria”, da autoria de E. M. Forster, possui esse mesmo fascínio, revelando-nos a magnifica arte deste escritor nascido em Londres em Janeiro de 1879 e que faleceu em 1970, deixando-nos uma obra extensa que irá passar ao cinema pelas mãos de James Ivory e David Lean, dois cineastas que sempre revelaram um enorme fascínio pela obra literária de Edward Morgan Forster.

O livro “Passagem Para a Índia” / “A Passage to India” esperou 14 anos para ser publicado, tendo sido levado muitos anos depois ao cinema pelo britânico David Lean, revelando-se como a última obra do cineasta britânico. “Quarto com Vista” / “A Room With a View” (1908) e “Howard’s End” (1910) chegaram ao cinema pela mão do americano James Ivory, assim como “Maurice”, uma obra literária que só viria a ser publicada um ano após a morte do escritor, de acordo com o seu desejo.

“Pharos & Pharillon – Uma Evocação de Alexandria”, editado pelos Livros Cotovia, oferece-nos uma viagem por Alexandria, essa cidade egípcia que tanto fascinou o Ocidente e os seus escritores, bastando recordar o célebre “Quarteto de Alexandria” de Lawrence Durrell um dos maiores monumentos do universo literário, para nos situarmos no interior da cidade que Edward Morgan  Forster nos retrata desde o tempo da sua fundação até aos dias da escrita deste livro, convidando-nos a acompanhar diversas figuras que marcaram a vida da famosa cidade, muito anos antes de Cristo nascer, até chegarmos ao período contemporâneo e descobrirmos o maior poeta que habitou a cidade de Alexandria, o grego K. P. Kavafis, que nos irá deixar uma obra poética admirável e inesquecível.

Enquanto desfolhamos as páginas de “Pharos & Pharillon – Uma Evocação de Alexandria”, mergulhamos na vida desta conhecida cidade Egípcia desde a antiguidade até à época contemporânea, sempre conduzidos por uma escrita fascinante, que nos vai relatando as inúmeras histórias dos seus habitantes mais ilustres, desde os sábios da antiguidade, passando por Alexandre o Grande e Santo Agostinho, até chegarmos ao famoso Farol, para depois entrarmos no século XX e sentirmos a temperatura da cidade e das pessoas que a povoavam, tantas de forma anónima ou outras como Kavafis, que na solidão do seu quarto foi criando uma obra poética imortal e que bem merece ser (re)descoberta, já que na nossa língua possui em Jorge de Sena um dos seus melhores tradutores.

“Pharos & Pharillon – Uma Evocação de Alexandria” de E. M. Forster, não é um livro de viagens, mas sim uma monumental obra-literária que fascina o leitor da primeira à última página, levando-o a caminhar através dos tempos pelo pulsar de Alexandria, essa cidade profundamente literária, um símbolo perfeito da globalização, muito antes da palavra possuir o peso político que lhe foi dado pelas ideologias. Sendo sempre de referir que foram os Woolf, Leonard e Virginia, os editores deste belo “Pharos & Pharillion” no longínquo ano de 1923.

Rui Luís Lima

Jean-Paul et Raphaël Enthoven - "Dictionnaire Amoureux de Marcel Proust"

Rui Luís Lima, 02.06.25

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Jean-Paul et Raphaël Enthoven
"Dictionnaire Amoureux de Marcel Proust"
Páginas: 730
Plon / Grasset

Quem visita o meu blog "Notícias de Marte" dedicado aos livros, já percebeu que Marcel Proust é um dos meus escritores de cabeceira e a primeira vez que ouvi alguém falar sobre o célebre escritor francês foi precisamente num programa de televisão, que era emitido na RTP no início da década de setenta (século xx) intitulado "O livro à procura do leitor" da autoria de Manuel Poppe, e desde então Marcel Proust tornou-se uma das leituras aqui de casa, a par desse outro extraordinário escritor chamado Lawrence Durrell.

E, ao longo dos anos, não só tenho (re)lido Proust, como gosto de descobrir livros sobre o escritor, sendo sempre de referir esse nome incontornável que é Jean-Yves Tadié, que nos ofereceu uma maravilhosa e profunda biografia do escritor, para além dos diversos ensaios que tem publicado ao longo dos anos, tal como Philippe Sollers (outro escritor muito querido aqui do autor do blogue), assim como essa figura extraordinária chamada Philip Kolb, que reuniu a totalidade da correspondência do escritor e nunca nos poderemos esquecer dessa senhora chamada Celeste Albaret (a dedicada criada de Marcel Proust), cujo livro de memórias é verdadeiramente fascinante.

Mas, se foi na televisão que escutámos pela primeira vez o nome de Marcel Proust na década de setenta do século passado, Muitos anos depois descobrimos, nessa caixa que mudou o mundo, no canal Arte, um dos programas mais fascinantes exibidos no pequeno écran, intitulado “”Philosophie”, da responsabilidade do cativante Raphaël Enthoven que fazendo-se sempre acompanhar de um convidado, conversa com ele sobre um tema, de forma bem descontraída, numa emissão que é registada sem qualquer corte e apenas num plano sequência. Acontece inclusive, por vezes, os dois intervenientes saírem da casa onde se encontram e virem para a rua conversar sobre o tema, enquanto caminham pelas ruas de Paris, aliás no programa dedicado a Jean-Paul Sartre, terminaram a emissão num café de forma bem brilhante.

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Nesta maravilhosa emissão televisiva que ainda se encontra disponível na net, Marcel Proust é uma presença regular e numa ida a Bruxelas recebi como oferta o magnífico “Dictionnaire amoureux de Marcel Proust”, escrito a duas mãos por Jean-Paul Enthoven e Raphael Enthoven (pai e filho), que navegam ao longo das 730 páginas do livro de forma brilhante no interior do universo de Marcel Proust e, curiosamente, quando os autores não estão de acordo no tema abordado neste maravilhoso dicionário, somos contemplados com duas entradas, para assim tirarmos as nossas conclusões sobre estes dois leitores de Marcel Proust.

Será sempre de referir que este “Dictionnaire amoureux de Marcel Proust” editado pela Plon / Grasset esta incluído na sua famosa colecção de “Dictionnaire amoureux”, sendo o dedicado a Veneza da autoria de Philippe Sollers ter a particularidade de também visitar Marcel Proust. Este fabuloso livro dedicado a Marcel Proust deve ser lido, da primeira vez, como um romance e só depois como um dicionário, onde temos ainda a particularidade de Jean-Paul Enthoven e Raphael Enthoven nos oferecerem um questionário inspirado no famoso “Questionnaire de Marcel Proust”, em que o leitor pode testar os seus conhecimentos sobre a obra e a vida do célebre escritor francês.

Vale a pena descobrir este “Dictionnaire amoureux de Marcel Proust”, escrito de forma tão perfeita, a duas mãos, por esta dupla familiar constituída por Jean-Paul Enthoven e Raphaël Enthoven, que, com este ensaio inesquecível, conquistaram o “Prix Femina”.

Muito bom dia!

Rui Luís Lima

Marguerite Yourcenar - “Mishima ou a Visão do Vazio”

Rui Luís Lima, 26.05.25

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Marguerite Yourcenar
“Mishima ou a Visão do Vazio” / “Mishima ou La vision du vide”
Páginas: 100
Relógio D’Água

Marguerite Yourcenar, a célebre escritora de “Memórias de Adriano”, que foi responsável pelo belo prefácio da edição francesa da célebre tetralogia “O Mar da Fertilidade” (4. Vols.) do escritor japonês Yukio Mishima, oferece-nos neste belo ensaio dedicado à sua vida e obra uma viagem inesquecível e fundamental, para conhecermos melhor este fabuloso escritor japonês, que bem merece não ser esquecido, aliás no fabuloso diário de Philippe Sollers “L’année du Tigre – Journal” (1998) ele refere, a dado passo, ter sido surpreendido ao saber que no Japão já ninguém lia Yukio Mishima, mas sim Kenzaburo Oe. Passado mais de meio-século sobre a morte de Yukio Mishima (1970) talvez seja possível afirmar que Murakami é o escritor mais lido actualmente no Japão.

Mas regressando ao que nos interessa, como muitos da minha geração, descobri Yukio Mishima através de um texto pulicado por António Mega Ferreira no JL, aquando da edição de “O Marinheiro Que Perdeu as Graças do Mar”(Assírio e Alvim) e neste livro de Marguerite Yourcenar encontramos inicialmente uma abordagem à obra literária de Mishima, para assim melhor compreendermos o Escritor e só depois o Homem, revelando-se fundamental a leitura/conhecimento dos quatro volumes de “O Mar da Fertilidade”, obra derradeira de Yukio Mishima e terminada por este na véspera do seu suicídio.

Iremos assim viajar pela obra de Yukio Mishima através das palavras de Marguerite Yourcenar que, em certos momentos, é verdadeiramente poética, desde os primeiros tempos em que optou por ser escritor, recusando seguir os conselhos do pai, que pretendia que ele seguisse a carreira de funcionário público, até chegar a esse momento capital em que “Confissões de uma Máscara” lhe oferecem a fama no Japão. Já os célebres romances populares, que escreveu ao longo do tempo e que foram uma das suas fontes de sobrevivência económica, nunca foram traduzidos fora do Japão, como nos confirma Marguerite Yourcenar. Pessoalmente, durante alguns anos, ainda alimentei a esperança de os encontrar em versão francesa.

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De referir ainda a obra teatral de Yukio Mishima, que até é bem considerável, mas que nunca teve tradução portuguesa, que eu saiba, embora esteja disponível em francês, assim como esse volume, fundamental para o conhecermos ainda melhor, que reúne a sua correspondência com Yasunari Kawabata, que tal como Mishima se irá suicidar, precisamente um ano depois, embora tenha optado por uma morte bem diferente e “tranquila” (inalação de gaz), tendo confessado dias antes que tinha sido “visitado” por Yukio Mishima.

“Mishima ou Uma Visão no Vazio” revela-se uma verdadeira pintura de cores bem vivas da vida do célebre escritor Japonês, que ambicionava que o reconhecimento literário obtido no seu país transpusesse as fronteiras do Japão, mas as suas visitas a Paris e à América, revelaram-se bastante frustrantes para Yukio Mishima e depois também descobrimos que certos biógrafos ocidentais, referidos por Marguerite Yourcenar, fizeram leituras bem desastrosas da sua vida, fazendo-me recordar uma inenarrável biografia de Sartre assinada por uma senhora americana, que tive a infelicidade de ler.

Este livro de Marguerite Yourcenar é fundamental para conhecermos Yukio Mishima e a sua obra literária, verdadeiramente incontornável, no universo das letras e a sua leitura é mais do que recomendável, tal como o filme que Paul Schrader lhe dedicou e sobre o qual iremos escrever em breve no blog "Manuscritos da Galáxia" dedicado ao cinema aqui no Sapo blogs.

Marguerite Yourcenar transforma este ensaio sobre Yukio Mishima num belo romance contemporâneo, sobre um dos maiores nomes do universo literário.

Rui Luís Lima

Umberto Eco / Jean-Claude Carrière - “Não Contem com o Fim dos Livros”

Rui Luís Lima, 19.05.25

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Umberto Eco / Jean-Claude Carrière
“Não Contem com o Fim dos Livros” / “N’espérez pas vous débarrasser des livres”
Páginas: 263
Gradiva

Será que os livros em papel estão condenados? Será que daqui a um século os nossos descendentes irão visitar exposições para descobrirem a Literatura em papel? Será que a revolução tecnológica irá eliminar para sempre o formato do livro? Será que a net e os infindáveis gadgets irão substituir os livros? Será que a Wikipédia irá fazer desaparecer da memória a famosa Enciclopédia Britânica? Será possível viver num universo sem memória dos livros?

A todas estas questões e a muitas outras irá o leitor descobrir a resposta através de uma conversa, que se estendeu por diversos dias, entre Umberto Eco (1932 - 2016) e Jean-Claude Carrière (1931 - 2021), conduzida por Jean-Philippe de Tonnac, em Paris e onde o famoso Umberto Eco, bem conhecido do grande público pelo seu romance “O Nome da Rosa” e não só, mas também um profundo observador dessa ideologia dominante do século XXI, que é o “politicamente correcto”, nos ofereceu um conjunto de saborosas conversas com o argumentista Jean-Claude Carrière, que ficou famoso pela sua colaboração com o cineasta Luis Buñuel e não só.

Tanto Umberto Eco como Jean-Claude Carrière eram coleccionadores de livros antigos, sendo o último casado com uma iraniana, cujo pai “fez um estudo sobre um encadernador de Bagdad, que viveu no século X, chamado Al-Nadim” e também iremos ficar a saber por Jean-Claude Carrière “que foram os iranianos que inventaram a encadernação e mesmo aquela que recobre por completo a obra para a proteger”, terminando este coleccionador de livros antigos por nos dizer que, num período de grandes dificuldades económicas, foi forçado a vender parte da sua Biblioteca para fazer frente aos imponderáveis da vida e aqui tenho de confessar que também já me aconteceu o mesmo, o que nos leva a amar ainda mais os livros que possuímos na nossa Biblioteca.

Ao longo destes saborosos diálogos viajamos desde a Antiguidade, passando pela famosa Biblioteca de Alexandria, até chegar aos nossos dias. Os autores desde delicioso livro revelam a sua enorme sabedoria pela forma como abordam o panorama literário e a proliferação dos "best-sellers" e essa “vanity press” (o delicioso termo é aplicado por Umberto Eco), que enche o espaço dos destaques das grandes superfícies culturais, conhecidas vulgarmente por livrarias.

E, como não podia deixar de ser, também esse espaço conhecido por “A Biblioteca” está bem presente nestas conversas, não só a famosa "Biblioteca Pública" onde alguns de nós ainda vão, mas também a nossa querida Biblioteca que vamos construindo ao longo da nossa passagem pelo Universo e aqui tanto Umberto Eco como Jean-Claude Carrière nos falam desse visitante, amigo ou familiar, cuja personagem também já entrou na nossa habitação e ao olhar para as paredes afirma: “Tantos livros! Mas vocês já leram estes livros todos!?”. Sendo precisamente nestes momentos, que nos apetece dar uma dessas respostas que terminaria de imediato com a conversa e possivelmente com a amizade, mas a educação leva-nos a sorrir e a mudar de assunto, já Umberto Eco prefere responder assim, “Não. Estes livros são simplesmente os que terei de ler na próxima semana. Os que já li estão na Universidade.”

Neste incontornável livro, intitulado “Não Contem com o Fim dos Livros”, também se fala desses maus livros que espalharam o ódio como o “Mein Kampf” e as razões que levam ao seu reaparecimento nas livrarias, mas mais curioso são as respostas que alguns editores deram ao devolverem certas obras que fazem parte da memória literária do universo, considerando-a o organizador deste livro, Jean-Philippe de Tonnac, como “uma outra página caricata ou desconcertante da história do livro” e aqui passo a palavra a Umberto Eco que, ao responder à questão, se refere assim ao assunto:

 “Já mostraram que podiam, por vezes, ser suficientemente estúpidos para recusar certas obras-primas. Trata-se, com efeito, de um outro capítulo da história das burrices. «Sou talvez um pouco limitado, mas não consigo compreender a necessidade de consagrar trinta páginas para narrar como alguém se volta e torna a voltar na cama, sem conseguir dormir.» É o primeiro relatório de leitura sobre “Em Busca do Tempo Perdido” de Marcel Proust. A propósito de “Moby Dick”: «É pouco provável que uma tal obra possa interessar a um público jovem.» Dirigido a Flaubert, a propósito de “Madame Bovary”: «Caro Senhor, o seu romance submerge sob um mar de detalhes bem desenhados, mas inteiramente supérfluos.» A Emily Dickinson: «As suas rimas estão todas erradas.» A Colette, a propósito de “Claudine à l’école”: «Receio não vender mais que dez exemplares.» A George Orwell, sobre “Animal Farm”: «É impossível vender uma história de animais nos Estados Unidos.» Sobre o “Diário de Anne Frank”: «Esta rapariguinha não parece fazer a menor ideia de que o seu livro não pode ser senão objecto de curiosidade.»

Depois Umberto Eco ainda refere como contraponto o que, certos responsáveis dos Estúdios de Hollywood, afirmaram sobre Fred Astaire e Clark Gable e aqui chegado, meus caros amigos, sugiro que leiam este magnífico livro porque, se gostam de livros, este “Não Contem com o Fim dos Livros” tem que constar da vossa Biblioteca.

Rui Luís Lima