Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Notícias de Marte

Uma viagem pelo universo dos livros e seus autores: literatura, poesia, ensaio, cinema, banda desenhada, arte e teatro.

Notícias de Marte

Uma viagem pelo universo dos livros e seus autores: literatura, poesia, ensaio, cinema, banda desenhada, arte e teatro.

Conto - "Café Paraíso"

Rui Luís Lima, 29.12.25

café de paris.jpg

Conto

"Café Paraíso!"

Pierre olhou em redor e todas as mesas do Café Paraíso estavam ocupadas e nesse preciso instante a porta abriu-se, deixando passar um casal fugido do deserto, em busca do céu protector, Jane e Paul ainda traziam as areias marroquinas nas suas roupas.

No lado direito da sala, Ernest contava a Francis que na véspera tinha jantado pombos, porque a dispensa estava vazia, enquanto Zelda dava gargalhadas sonoras ao ouvir o relato.

Mais um cliente que entra, é Celeste para comprar as habituais madalenas para o Marcel, ele não bebe café, só chá e raramente sai do quarto, anda em busca do tempo perdido.

Usando palavras quase codificadas André traça o rumo da sua escrita com Benjamin, mas sentada a seu lado, Nadja, uma refugiada russa, diz-lhe que o seu cachimbo está apagado: - mas isto não é um cachimbo minha cada amiga - responde ele a sorrir.

Por debaixo da arcada, Virgínia lê passagens do seu diário a Sílvia, sobre as razões da sua poesia habitar nas margens do texto, mas ela não a consegue escutar porque o seu pensamento está bloqueado em Ted.

Na mesa ao lado Madame Stein conversa com Alice, lançando o seu habitual veneno sobre os ausentes e presentes e de súbito as portas do Café Paraíso dão passagem a mais dois dos seus habitantes, são Jules e Jim que se juntam a François e iniciam uma alegre discussão do argumento do filme.

Longe de tudo e de todos, sentado no canto mais escuro da sala, o engenheiro naval observa aquelas almas, enquanto bebe o seu café e o absinto. Do outro lado da rua, o Esteves sem Metafisica, fecha a porta da Tabacaria.

Os ponteiros do relógio marcam as seis horas, Pierre vira-se na cama e acorda do sonho, mais um dia chuvoso aguardava a sua viagem até ao Café Paraíso.

Rui Luís Lima

Jorge de Sena - "A Noite Que Fora de Natal"

Rui Luís Lima, 04.12.25

jorge de sena.jpg

Jorge de Sena
"A Noite Que Fora de Natal"
(Ilustrações de Paulo-Guilherme)
in "Histórias de Natal"
Estúdios Cor

Marco Semprónio conheceu vários Imperadores ao longo da vida, incluindo Nero que mandou incendiar Roma para seu próprio prazer, para depois acusar os cristãos de o terem feito, encontrando assim um motivo para encetar uma feroz perseguição aos seguidores desse novo Deus, que enviara o seu filho à Terra, sacrificando-o perante a injustiça dos homens e recusando a sua salvação, obrigando o seu melhor amigo, Judas, a denunciá-lo às autoridades, que depois iria optar pelo suicídio desses tempos, quando encontrou uma árvore possante para o seu corpo e enforcou-se.

Mas Marco Semprónio está velho e cansado e começa a ter dúvidas sobre as razões que o levam a adorar o Deus Pã e nesse dia em que um antigo amigo da Síria o visita e lhe confessa o seu amor por esse novo Deus, que possui tantos seguidores, escuta que ele um dia iria governar sobre o Roma e o mundo, espalhando a sua bondade entre os homens, e depois Saulo saiu, mas ele não o viu partir, apenas uma luz iluminou o local onde os seus dois netos brincavam.

Jorge de Sena escreveu este conto em Dezembro de 1961 e nele vive a bela arte do conto, que surgiu publicado num volume que reúne diversos contos de Natal das mais variadas origens literárias, tendo todos eles belas ilustrações.

Faltam 21 dias para o Natal!

Paula e Rui Lima

Jack Kerouac - "Viajante Solitário"

Rui Luís Lima, 21.11.25

jack kerouac - viajante solitário.jpg

Jack Kerouac
"Viajante Solitário" / “Lonesome Traveler”
Páginas: 244
Minerva

Este é um livro verdadeiramente aliciante para todos os leitores desse escritor “on the road” chamado Jack Kerouac, que aqui reúne diversos contos publicados em revistas e outros inéditos, apresentando o livro uma introdução escrita na primeira pessoa, pelo próprio Kerouac que nos fala um pouco de si e deste “Viajante Solitário” / “Lonesome Traveler”.

Ao longo dos oito contos ou “short-stories”, se preferirem, que constituem este belo livro de Jack Kerouac navegamos com ele através da América, mas também visitamos Paris, Marrocos, Londres e México, atravessamos os oceanos Atlântico e Pacífico e acima de tudo descobrimos a bela e envolvente escrita do maior escritor da Beat Generation!

Mas uma das pérolas deste “Viajante Solitário” / “Lonesome Traveler” é precisamente a introdução do livro escrita pelo próprio Jack Kerouac em que ficamos a conhecer muito melhor o escritor e a forma como olhava o universo que habitava, fazendo-nos um resumo da sua vida, dos seus interesses e as expectativas que rodeavam este livro, revelando-se uma verdadeira jóia literária num simples “quarteto” de páginas. Se nunca leu Jack Kerouac, comece por “Viajante Solitário” / “Lonesome Traveler”, pois ele é o livro indicado para mergulhar no universo da Beat Generation!

Rui Luís Lima

jack kerouac.jpg

«Toda a minha vida li e estudei sozinho. Estabeleci um recorde na Universidade de Columbia, faltando às aulas, para ficar no dormitório a escrever uma peça diária e ler».

Jack Kerouac

in “Viajante Solitário”

Patricia Highsmith - “Levemente, Levemente ao Vento”

Rui Luís Lima, 28.08.25

patricia highsmith.jpg

Patricia Highsmith
“Levemente, Levemente ao Vento”  / “Slowly, Slowly in the Wind”
Páginas: 222
Distri

Pertenço a essa categoria de leitores que adoram ler contos e assim me tornei admirador de escritores tão distintos como Francis Scott Fitzgerald, Jorge Luís Borges, Ernest Hemingway, Raymond Carver, John Cheever, Erskine Caldwell, Lawrence Durrell com as aventuras de Antropus, Georges Simenon e Maigret, Agatha Christie e Poirot e Patricia Highsmith. Certamente esqueci-me de muitos outros e se voltasse a esta crónica noutro dia, a lista de nomes iria certamente crescer, mas o que me interessa aqui é esse jogo cinéfilo dos tais filmes que levaria para a tal ilha deserta, mas passando a usar contos em vez de filmes e colocando a questão: se só te deixassem levar para a ilha apenas um conto, qual seria ele?

patricia highsmith1.jpg

A resposta, que inicialmente poderia parecer complexa, termina por ser muito simples: Patricia Highsmith e “O Homem Que Escrevia Livros na Cabeça” / “The Man Who Wrote Books in His Head”, que foi publicado pela primeira vez em 1973 na “New Review” e surgiria a abrir este livro de contos intitulado “Levemente, Levemente ao Vento” / “Slowly, Slowly in the Wind”, publicado entre nós pela Distri em 1984. Todos os contos incluídos neste volume viram a luz do dia durante a década de 70, do século XX, em diversas publicações dedicadas às famosas “short-stories”, mas este conto ficou para sempre na minha memória e como gosto de partilhar os meus pequenos prazeres, deixo-vos o convite para perderem dez minutos do vosso precioso tempo e lerem este conto genial de Patricia Highsmith.

«E. Taylor Cheever escrevia livros na cabeça, nunca no papel. À data da sua morte, com sessenta e dois anos, escrevera catorze romances e criara cento e vinte e sete personagens, das quais se recordava distintamente.»

Assim começa o mais belo e fascinante conto que li em toda a minha vida e quantos de nós já não escrevemos contos, novelas e romances na cabeça, quando sonhamos, acordados ou a dormir.

Rui Luís Lima

Paul Bowles - “À Beira da Água” / "Collected Stories"

Rui Luís Lima, 16.06.25

paul bowles.jpg

Paul Bowles
“À Beira da Água” / "Collected Stories"
Páginas: 510
Quetzal

Paul Bowles e a sua obra literária obtiveram uma nova visibilidade após Bernardo Bertolucci ter levado ao grande écran o seu famoso livro “The Sheltering Sky”, cujo título em português é “O Céu Que Nos Protege”, enquanto a película do famoso cineasta italiano foi “baptizada”, no nosso país, como “Um Chá no Deserto”.

A partir de então, a obra literária de Paul Bowles (recorde-se que ele também é compositor) começou a ser editada em português, primeiro na Assírio & Alvim e depois a surgirem livros na Presença e Publicações D. Quixote. Mas será a editora Quetzal a lançar-se no magnifico trabalho de editar a sua obra completa, tendo já saído "Deixa a Chuva Cair", “Viagens”, “A Casa da Aranha”, "O Céu que nos Protege" e reunido em dois volumes a totalidade dos seus contos, que são apresentados de forma cronológica, o que nos possibilita uma melhor abordagem da evolução da arte do conto, no interior da escrita de Paul Bowles, tendo o primeiro volume recebido o título de “À Beira da Água”, precisamente o primeiro conto datado de 1946, recorde-se que o escritor nos deixou em 1999.

Ao longo de “À Beira da Água” viajamos pelo globo através dos contos de Paul Bowles, cuja escrita percorre diversos continentes, situando-se a acção de um deles no dia de Natal, do qual vos deixo aqui um pequeno excerto, mas antes gostaria de vos fazer um convite para irem a uma livraria qualquer e "perderem" dez minutos do vosso precioso tempo e lerem as quatro páginas que constituem o conto "O Jardim", datado de 1964, e ao terminarem sugeria que meditassem um pouco no que acabaram de ler. Na verdade este conto, que condensa a maravilhosa arte do conto, de que Paul Bowles foi um dos maiores expoentes, poderia ter sido escrito nos dias de hoje.

Rui Luís Lima

paul bowles1.jpg

“A luz branca do amanhecer inundava o quarto quando ele abriu os olhos. Já se ouviam barulhos nas entranhas da casa: as pessoas estavam a começar a acordar. Ouviu uma janela a ser fechada com força e depois o som normal de alguém a rachar madeira com um machado. Seguiram-se ruídos mais próximos e Donald soube que, no quarto ao lado, os pais se tinham levantado. Foi então que a porta dele se abriu de rompante e a mãe entrou no quarto, de roupão de flanela castanho e grosso e com o cabelo a cair-lhe sobre as costas.

- Feliz Natal! – gritou levantando uma gigantesca meia de malha vermelha carregada de fruta e pequenos embrulhos. – Olha só o que eu encontrei pendurado ao pé da lareira!

Donald sentiu-se desiludido porque contava ser ele a ir buscar a meia.

- Trouxe-te porque a casa está mais fria do que um celeiro – explicou ela. – Deixa-te estar aí quietinho na cama até ela aquecer um bocadinho.

- E quando é que é a vez da árvore?

O ritual importante era a árvore: os presentes mais interessantes estavam amontoados debaixo dela.”

Paul Bowles

in “Os Campos Gelados”

Tama Janowitz - "Escravos de Nova Iorque"

Rui Luís Lima, 13.06.25

tama_janowitz.jpg..jpg

Tama Janowitz
"Escravos de Nova Iorque" / "Slaves of New York"
Páginas: 330
Teorema

Tama Janowitz começou primeiro por descobrir os restaurantes frequentados pelo   célebre Andy Warhol e depois entrava neles com um grupo de amigas, distribuindo os seus contos/”short-stories” pelos clientes. Andy Warhol simpatizou com ela e gostou do universo que por ali viu retratado, bem do seu conhecimento, descobrindo o talento que navegava na escrita desta talentosa jovem nascida em S. Francisco em 1957, deu-lhe a mão e o sucesso bateu à porta de Tama Janowitz que fizera de Manhattan a sua metrópole. Os seus contos foram publicados nas famosas revistas “The New Yorker”, “Paris Review”, “Interview”, “Harper’s Magazine” e “The New York Review of Books”, só para referir as mais famosas e mais tarde reunidos em livro. Como todos sabemos, os americanos cultivam essa grande arte que é a “short-story”, um género literário eleito pelas mais diversas gerações de escritores ao longo dos anos, onde encontramos nomes bem consagrados bem como jovens promessas do território literário a darem os seus primeiros passos.

“Escravos de Nova Iorque” / “Slaves of New York”, embora não tenha sido o seu primeiro romance, já que a escritora se estreou em 1981 com “”American Dad”, foi o seu primeiro grande sucesso, que mais tarde iria ter uma nova vida nas salas de cinema através da mão do genial James Ivory, esse cineasta americano, que alguns julgam ser inglês.

A película nascida do livro “Slaves of New York” / “Escravos de Nova Iorque” é uma verdadeira delícia, repleta de humor e de uma profunda mordacidade sobre o universo artístico e os círculos intelectuais que na época se movimentavam em Greenwich Village e no Soho e Tama Janowitz até tem um “cameo” na película, mas o melhor é mesmo lerem o livro com as personagens desse fabuloso, mítico e estranho mundo da “Big Apple” a desfilarem perante o nosso olhar cândido, como se tratasse de uma passagem de modelos com muito ácido, crack e coca à mistura, mas também a magia da arte contemporânea!

“Vou lá para cima descansar um bocado” disse Ginger. “Estou a ficar com dores de cabeça. Quando puderes Marley, vai até lá acima ao quarto. Há lá um Roy Lichenstein de que penso hás-de gostar.” E se estiver a pensar que irá encontrar uma escrita datada, engana-se por completo, porque certas modas levam décadas a atravessar o Atlântico e quando surgem nas praias lusitanas até parecem respirar uma certa velocidade contemporânea.

“Quando o meu emprego como anotadora, num filme alemão que ia ser filmado na Venezuela, deu em águas de bacalhau, tornou-se óbvio que tínhamos de arranjar uma maneira diferente de fazer dinheiro rapidamente. Para um chulo e uma prostituta, Bob e eu tínhamos uma relação muito invulgar. Quanto ao papel que desempenhava, ele podia ter-se esforçado um pouco mais. Mas eu não me importava, pagava as contas, comprava as fitas para a máquina de escrever e, depois, se me apetecesse entregar-lhe algum dinheiro que sobrasse, era eu que decidia. À noite, quando vinha a casa para descansar, encontrava-o estendido na cama a ler Kant ou O Que é Uma Coisa? de Heidegger.”

Tama Janowitz, nos seus livros seguintes, continuou a debruçar-se sobre o meio boémio da “downtown” nova-iorquina de uma forma bem sedutora, sem qualquer tipo de concessões, revelando-se uma perfeita conhecedora do universo noctívago . “A Certain Age”, outro dos seus livros, conta-nos a história da bela e solteira Florence Collins que, aos 32 anos, decide repensar o mundo que a rodeia. Um livro a não perder, tal como sucede com o também famoso “A Cannibal in Manhattan”.

Descobrir a escrita de Tama Janowitz conduz-nos ao interior de uma geração de escritores que nos ofereceu o retrato perfeito da década de 80, do século xx, em que os célebres 15 minutos de fama de que falou um dia Andy Warhol, permanecem bem vivos no quotidiano deste século XXI.

Rui Luís Lima

Fernando Pessoa - "O Banqueiro Anarquista"

Rui Luís Lima, 25.05.25

fernando_pessoa.jpg

Fernando Pessoa
"O Banqueiro Anarquista"
Páginas:112
Assírio & Alvim

O conto “O Banqueiro Anarquista” foi publicado em 1922 na Revista Contemporânea, sendo assinado por Fernando Pessoa e não por nenhum dos seus heterónimos. Ao longo dos anos têm surgido diversas edições da obra e uma delas dada à estampa pela “Assírio e Alvim”, sendo a responsável pela edição Manuela Parreira da Silva, que nos apresenta o texto tal como foi publicado na época, juntando em anexo os diversos acrescentos feitos pelo escritor, numa tentativa posterior de desenvolver mais o texto, para uma possível edição em Inglaterra, o que não veio a suceder. Recorde-se que na época em que foi escrito o Movimento Anarquista tinha grande influência nos meios operários portugueses, editando-se o famoso jornal diário “A Batalha”.

Este belo livro de Fernando Pessoa  oferece-nos o diálogo entre duas personagens que, ao lermos os textos em anexo, iremos descobrir que se encontram num restaurante, possivelmente na Rua dos Douradores, essa célebre rua onde um dia se irão cruzar Fernando Pessoa e o seu heterónimo Bernardo Soares.

Apresentando-se como um texto reflexivo e satírico no verdadeiro sentido da palavra, já que ninguém imagina ser possível haver um banqueiro a defender o anarquismo, iremos acompanhar o raciocínio do banqueiro que nos irá contar a sua história de sucesso, desde os tempos em que nasceu numa família humilde, passando pela época em que acompanhou os anarquistas, até perceber que o verdadeiro anarquismo só poderia ser encontrado por si próprio numa luta contra o capital, usando os mesmos expedientes do capitalismo para obter sucesso e dinheiro, podendo assim defender em tranquilidade a verdadeira doutrina anarquista, sem chefes nem patrões.

Ao longo da conversa, o banqueiro anarquista com o seu charuto e cognac irá desenvolver a sua teoria, em contraponto às doutrinas existentes na época, já que o socialismo começava a ter os seus adeptos e os acontecimentos da revolução russa faziam inevitavelmente eco no nosso país e aqui o banqueiro anarquista irá desmontar tanto o capitalismo como o socialismo, usando o primeiro para demonstrar como subiu na escala social, enquanto o segundo só irá atrasar a libertação do homem, porque também ele possui os seus patrões em torno de uma doutrina, que necessita de ter sempre essa voz de comando, tão contrária ao movimento anarquista.

O leitor deste conto percebe como Fernando Pessoa se encontra bem informado politicamente usando o humor com imenso saber, à medida que vai desmontando as reflexões do seu interlocutor.

“O Banqueiro Anarquista”, que possui um excelente posfácio da responsabilidade de Manuela Parreira da Silva, ao ser lido nos dias de hoje, continua a possuir um enorme fascínio, esse mesmo fascínio que a incontornável obra de Fernando Pessoa transmite a quem a lê.

Rui Luís Lima

Lawrence Durrell - "Cenas da Vida Diplomática"

Rui Luís Lima, 14.05.25

Lawrence_Durrell.jpg

Lawrence Durrell
"Cenas da Vida Diplomática"
Paginas: 190
Ulisseia

Este divertido livro de Lawrence Durrell, editado pela editora Ulisseia, reúne dois livros do escritor com a mesma personagem, o célebre Antrobus, um funcionário do Foreign Office cujas aventuras ou (des)venturas deixa o leitor à beira de um ataque de lágrimas. Imagine só para ter uma ideia do que digo, a conhecida série televisiva “Sim Senhor Ministro” a ser escrita pelo genial Lawrence Durrell e o resultado seria o que irá encontrar nas páginas de “Cenas da Vida Diplomática”, que como já referimos é constituído pelos volumes “Stiff Upper Lip” e “Esprit De Corps”. Sendo também de salientar que as aventuras de Antrobus foram escritas por Lawrence Durrell, no formato de contos, durante o período em queo escritor  criava esse monumento literário intitulado “O Quarteto de Alexandria”.

O humor de Lawrence Durrell é por demais conhecido em outras obras do escritor e encontra-se bem expresso neste livro, que possui um "irmão gémeo" também editado pela Ulisseia, intitulado “Salve-se Quem Puder”, com Antropus como protagonista.

Durante vários anos Lawrence Durrell foi adido de imprensa de diversas embaixadas britânicas, tendo passado por países como o Egipto e a Jugoslávia, que serviram de palco a alguns dos seus livros. O sucesso das aventuras de Antrobus foi de tal ordem no Reino Unido que a BBC emitiu diversas emissões de rádio em que o conhecido actor Simon Callow (“Quatro Casamentos e Um Funeral”) dava voz ao sensível e diplomático Antrobus, que termina sempre por se ver enredado nos mais diversos conflitos diplomáticos, muitos deles sem resolução possível, como irá descobrir o leitor.

Lawrence Durrell dedicou “Cenas da Vida Diplomática” a Richard Aldington desta forma: “A Richard Aldington que me animou a escrever estas tolices”. A edição inglesa desta obra que reúne  "Stiff Upper Lip", " Esprit de Corps" e "Sauve Qui Peut”, sobre o título de “Antrobus Complete” oferece-nos uns divertidos "cartoons” dos diversos personagens criados pelo autor de "O Quarteto de Alexandria".

Para terem uma ideia do que são as aventuras de Antrobus, descritas pelo genial Lawrence Durrell, aqui vos deixo um excerto do conto intitulado “A Voz do Mar”, incluído no livro “Cenas da Vida Diplomática”, que mais uma vez teve a excelente tradução de Daniel Gonçalves, um profundo conhecedor da escrita de Lawrence Durrell - vamos assim entrar numa festa que a Embaixada Britânica se encontra a dar numa enorme jangada à beira do Danúbio.

…/…

«Estava tudo acabado. Não foi exactamente num abrir e fechar de olhos mas numa série de movimentos como numa sessão de "streap-tease". Aqueles que leram o Tufão de Conrad, podem fazer uma ideia do que se passava.

O Danúbio arrancou o oleado, desatou os troncos e lançou tudo pelos ares. Foi uma sorte que houvessem troncos em número suficiente. Não posso afirmar que o corpo diplomático estivesse a fazer uma bonita figura às cavalitas nos lenhos, com a água a cachoar em torno, mas, pelo menos, não era um espectáculo que se visse todos os dias. O ministro da argentina foi arrastado, aos gritos, rio abaixo, e só o encontraram no dia seguinte a dez milhas de Belgrado. As margens do Danúbio, de Belgrado a Smog, estavam coalhadas de suecos, finlandeses, japoneses e gregos ensopados e inertes, De Mandeville apanhou uma pancada na cabeça, Polk Mowbary ficou com o colarinho amarrotado. Draper perdeu o chinó, que lhe tinha custado cem libras, e teve de usar um barrete durante cerca de dois meses.»

Lawrence Durrell"

in "Cenas da Vida Diplomática"

Livros Ulisseia