O cachimbo de Maigret

O cachimbo é um elemento preponderante na literatura e o célebre cachimbo do Comissário Maigret até deu origem a um dos mais famosos contos de Georges Simenon que surgiu no nº.600 da célebre colecção de policiais “Vampiro” editada pela “Livros do Brasil”.

«Maigret depositara os processos numa esquina da secretária, batera o fornilho do cachimbo ainda quente no rebordo da janela, voltara a sentar-se e a sua mão, maquinalmente procurara outro cachimbo onde ele deveria estar, à sua direira.
Não estava. Havia realmente três cachimbos, um dos quais de espuma, mas o bom, aquele que procurava, aquele a que mais vezes recorria, que a mulher lhe tinha oferecido há dez anos, aquando de um aniversário, aquele a que ele chamava o seu bom velho cachimbo, enfim, não estava ali.»

Na verdade fora um jovem que tinha estado no seu gabinete que levara o célebre cachimbo de Maigret, mas nesta visita ao cachimbo também não nos poderemos esquecer do sofisticado cachimbo de Sherlock Holmes e depois temos os escritores que surgiam sempre com os seus cacimbos nas fotografias: William Faulkner, Raymond Chandler, Arthur Conan Doyle, Georges Simenon entre outros. Mas também temos o cacimbo na pintura, sendo o mais célebre do pintor surrealista belga René Magritte.
Nos dias de hoje já é difícil entrar num café e sentir o delicioso cheiro do tabaco de cachimbo, porque é proibido fumar nos cafés a bem da saúde pública e o fumador de cachimbo, que muitas vezes prepara com um enorme carinho o tabaco terá de se refugiar em casa para o fumar tranquilamente.

Foi na "Concorrente" em Campo de Ourique que três membros do futuro "Café dos Filósofos" compraram os seus cachimbos e depois, com o dinheiro que sobrou, juntaram as moedas e adquiriram uma embalagem de "Borkum Riff", que custou 17$50, aconselhados pela simpática senhora da loja (ninguém queria o então conhecido tabaco nacional"Gama") e assim eles deam inicio às suas cachimbadas, nesse ano de 1973!
Depois um familiar, com quem descobri o rock, recomendou-me o "Clan", desaconselhando-me o "Gama", mais tarde encontrei o maravilhoso "Mayflower", até chegar a esse universo chamado "Amphora". Iniciei-me com o "Amphora"(vermelho), mas no dia em que o Tapioca, que criava o seu próprio tabaco de cachimbo com "especiarias", me aconselhou o "Amphora" (Azul), descobri o Paraíso.
Mas, uns anos depois, o Amphora (Azul) começou a desaparecer de circulação e na famosa Casa Havaneza, depois de me confirmarem o seu desaparecimento, recomendaram uma loja de tabacos na Almirante Reis, que ainda tinha o famoso tabaco de cachimbo; quando lá cheguei, encontrei dois outros fumadores de cachimbo, que lamentavam com o amável vendedor o fim do maravilhoso "Amphora" (azul). Anos depois ele reapareceu, mas a fórmula tinha sido mudada e até o azul era um pouco diferente.

Quanto ao célebre cachimbo de Maigret que levara o Comissário a percorrer a pé o Boulevard Richard Lenoir olhando para todos os lados em busca do seu precioso companheiro, que tantas vezes o ajudou nas investigações, começou a perder a calma e a Madame Maigret é que teve de acalmar o marido, mas depois de vários acontecimentos o jovem devolveu o cachimbo ao Comissário, e este disse. «Deixa lá que eu te vou dar outro cachimbo! E ainda maior se o quiseres.
- Só que – replicou o garoto – não será o seu!»
Rui Luís Lima