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Notícias de Marte

Uma viagem pelo universo dos livros e seus autores: literatura, poesia, ensaio, cinema, banda desenhada, arte e teatro.

Notícias de Marte

Uma viagem pelo universo dos livros e seus autores: literatura, poesia, ensaio, cinema, banda desenhada, arte e teatro.

Agatha Christie «versus» Hercule Poirot!

Rui Luís Lima, 31.12.25

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Agatha Christie «versus» Hercule Poirot!

Muitas vezes se diz que as palavras são como as cerejas, quanto mais se comem mais se gosta delas e muitas vezes o mesmo sucede com os livros, especialmente quando descobrimos no protagonista alguém que nos seduz e nos leva a querer ler mais sobre ele ou as suas aventuras no universo literário.

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Como sou um ser humano com qualidades e defeitos, também eu tenho o meu herói favorito no universo literário e ele, ao contrário do que se poderia pensar, não é americano, nem francês, mas sim belga apesar de muitas vezes ser visto como “esse maldito francês bisbilhoteiro” ou “franciú” como alguns já lhe chamaram, incomodados com as suas investigações.

É verdade, estou a falar de Monsieu Hercule Poirot, esse genial detective belga criado por Agatha Christie e cujos livros já li e reli inúmeras vezes, para além de devorar com uma certa regularidade as adaptações televisivas que foram feitas das suas aventuras e que tiveram o actor britânico David Suchet, a encarnar o célebre detective (que recentemente escreveu um livro intitulado "Poirot and Me", cuja leitura desde já recomendo vivamente).

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As aventuras do detective Hercule Porot são na verdade a minha saga (um termo muito em voga no sec. XXI) favorita, apesar de ter outras de que também gosto bastante, como é o caso do meu amigo Antrophos, criado por Lawrence Durrell. Mas regressando à minha "saga favorita", direi que ler as aventuras de Hercule Poirot é um prazer verdadeiramente sedutor, embora a escritora Agatha Christie não tivesse um grande amor por ele, apesar de serem os livros que o têm como protagonista os que lhe encheram a conta bancária.

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Agatha Christie preferia Misss Marple a Hercule Poirot e em muitos dos livros se percebe que o enredo foi pensado sem ele e depois, talvez por sugestão do editor, lá o introduziu, porque na verdade são as aventuras de Hercule Poirot os livros mais vendidos de Agatha Christie, que até decidiu matar o famoso detective para ninguém dar continuação às suas aventuras.

Mas a família da escritora não foi da mesma opinião e eis que surge nesse mercado editorial do séc. XXI, onde tudo é permitido, outra “entidade” a escrever novas aventuras de Hercule Poirot. No entanto prefiro ler vezes sem conta as aventuras de Poirot pela mão de Agatha Christie do que escritas por outra pessoa, um dia destes ainda teremos "remakes" literários, a serem mais famosos do que os originais!

Rui Luís Lima

O Candeeiro Verde!

Rui Luís Lima, 30.12.25

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O Candeeiro Verde!

Sempre que via estes candeeiros nos filmes, geralmente em bibliotecas, mas também noutros locais, ficava fascinado com eles e até vi dois episódios da série de televisão "Sem Rasto", que tratavam de um sequestro numa livraria repleta destes belos candeeiros. Mais tarde num antiquário na Baixa Lisboeta encontrei o famoso candeeiro verde (usado), mas pediram-me 150,00 € por ele e rapidamente desistimos da compra.

Meses depois voltei a cruzar-me com ele, mas noutra cor sem ser o tradicional verde, mas novo, e desta feita o seu valor era 120,00 € e estivemos quase a cair na tentação, mas depois decidi esperar mais um pouco até que numa viagem a Paris o encontrámos numa loja em frente ao Centro Pompidou, ainda mais barato, mas depois de pesarmos os prós e os contras, mais uma vez a sua vinda ficou adiada até que por mero acaso a senhora aqui de casa se cruzou com ele, quase ao virar da esquina, a um preço bem convidativo e novinho em folha a 60,00 €, posso confessor que são oriundos da Alemanha e como um belo aniversário estava próximo, aqui está ele, já a ser utilizado porque não resisti a esta bela e convidativa tentação.

Rui Luís Lima

Conto - "Café Paraíso"

Rui Luís Lima, 29.12.25

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Conto

"Café Paraíso!"

Pierre olhou em redor e todas as mesas do Café Paraíso estavam ocupadas e nesse preciso instante a porta abriu-se, deixando passar um casal fugido do deserto, em busca do céu protector, Jane e Paul ainda traziam as areias marroquinas nas suas roupas.

No lado direito da sala, Ernest contava a Francis que na véspera tinha jantado pombos, porque a dispensa estava vazia, enquanto Zelda dava gargalhadas sonoras ao ouvir o relato.

Mais um cliente que entra, é Celeste para comprar as habituais madalenas para o Marcel, ele não bebe café, só chá e raramente sai do quarto, anda em busca do tempo perdido.

Usando palavras quase codificadas André traça o rumo da sua escrita com Benjamin, mas sentada a seu lado, Nadja, uma refugiada russa, diz-lhe que o seu cachimbo está apagado: - mas isto não é um cachimbo minha cada amiga - responde ele a sorrir.

Por debaixo da arcada, Virgínia lê passagens do seu diário a Sílvia, sobre as razões da sua poesia habitar nas margens do texto, mas ela não a consegue escutar porque o seu pensamento está bloqueado em Ted.

Na mesa ao lado Madame Stein conversa com Alice, lançando o seu habitual veneno sobre os ausentes e presentes e de súbito as portas do Café Paraíso dão passagem a mais dois dos seus habitantes, são Jules e Jim que se juntam a François e iniciam uma alegre discussão do argumento do filme.

Longe de tudo e de todos, sentado no canto mais escuro da sala, o engenheiro naval observa aquelas almas, enquanto bebe o seu café e o absinto. Do outro lado da rua, o Esteves sem Metafisica, fecha a porta da Tabacaria.

Os ponteiros do relógio marcam as seis horas, Pierre vira-se na cama e acorda do sonho, mais um dia chuvoso aguardava a sua viagem até ao Café Paraíso.

Rui Luís Lima

"Paris! Paris!"

Rui Luís Lima, 28.12.25

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"Paris! Paris!"

As saudades que tenho de passear por Paris,
Ver a vida a passar por Paris,
Os Boulevards repletos de gente em Paris,
As exposições de Paris,
As livrarias e os seus bouquins em Paris,
As discotecas e as caves de Paris,
A moda a passear por Paris
As moules, a choucroute e os coscous saboreados no Bouillon Chartier em Paris,
O cinema de Rohmer, Truffaut e Godard na Cinemateca em Paris
Chorar de emoção a escutar Leo Ferré em Paris
Descer de mão dada com o meu amor os Champs-Élysées
Ah Paris! O Sollers passou por mim e eu não o vi!

Rui Luís Lima

O Prazer da Escrita

Rui Luís Lima, 27.12.25

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O Prazer da Escrita

Tinha perdido o sentido das palavras
e um dia numa simples ligação
descobri três letras nascidas nas marcas do deserto
indicadoras do caminho do oásis.

Chegado lá saciei a minha sede de poesia
e comecei a edificar a minha casa no bairro,
mas no vocabulário da minha nova casa
não poderia haver portas fechadas, nem chaves,
apenas uma entrada larga para uma simples sala,
onde a todos fosse permitido habitar,
apesar de por vezes existirem olhares não coincidentes
e se trocarem ideias opostas.

Os antagonismos gerados pelas palavras,
conduzem a um labirinto sem portas,
enquanto o direito à diferença
origina o saber e a beleza da descoberta
de novos mundos e de outros seres,
para partilhar o mesmo território de liberdade,
na diversidade das linguagens,
e assim nasceu a escrita no deserto,
como aprendi recentemente.

O prazer da escrita não possui tempo nem lugar,
ele existe em comunhão com o desejo,
o desejo sem deveres nem leis,
porque as palavras nascem livres de condicionalismos
e só assim é possível nascer a poesia.

Rui Luís Lima

Tabacaria Orquidea!

Rui Luís Lima, 26.12.25

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Tabacaria Orquidea!

Na Tabacaria há jornais e revistas,
tabaco, fósforos e isqueiros,
lápis, canetas, borrachas e apara-lápis,
mas também tinteiros,
pequenas bombas de gasolina
a dez tostões para isqueiros
e latas de gaz para isqueiro, para os mais finos,
vejo-me aflito a encher os isqueiros
e a colocar correias nos relógios.

Também temos livros
dos clássicos às coboiadas,
Corin Tellado e familiares,
policiais, guerra e o Asimov para quem fuma cachimbo,
mais o Vilhena debaixo do balcão para os amigos!
Uns são vendidos e outros alugados
15 tostões os mais antigos e dois escudos as novidades.
Depois há os postais, para todos os géneros:
aniversários, romance e uns mais atrevidos debaixo do balcão.

Na Tabacaria temos pastilhas elásticas Pirata para os miúdos
e chocolates da Regina para os gulosos.
Come chocolates pequena, como dizia o Engenheiro.
Mas Digital não temos, caro Costa,
por aqui há envelopes, papel de carta, avulso e em blocos,
confesso que adoro os de papel fino para avião,
mas tenho pena dos de tarja preta e dos seus clientes.

A tabuada do Ratinho vende-se bem e já a decorei toda a cantar,
os cadernos de duas linhas ajudam-nos a ter uma letra bonita,
os quadriculados a respeitar os números nos quadrados,
os de desenho dizem se temos talento,
mas do que gosto mesmo são das sebentas,
com aquele cavaleiro andante parecido com o Ivanhoe!

Sabonetes e dentífricos também se vendem bem,
Nove em cada 10 estrelas de Hollywood usam Lux,
(não sei se os números estão certos)
mas eu gostava era do Nordika,
tinha aquele cheiro dos pinheiros da Escandinávia
(embora nunca lá tivesse estado).

Mais o 4711 e a Bien Être para oferecer à namorada
e as alianças a 25 tostões muito procuradas,
por essas raparigas simpáticas que navegam no Bairro,
uma delas um dia perguntou-me se tinha camisas de Vénus,
era bem gira, confesso!

Quando chega o Natal a Tabacaria muda de cor,
fica cheia de brinquedos, jogos e bonecas,
as gentes do Bairro, nessa véspera de Natal,
levaram-nos a fechar a porta muito depois das nove da noite,
para despachar o embrulho das prendas
usámos uns laços já feitos que estavam para venda
e depois lá fomos comemorar o Natal para o Largo do Carmo.

Na Tabacaria, que abria às sete da matina
e fechava muitas vezes depois das nove,
havia de tudo: meias de senhora, pentes, atacadores, brincos,
e todo um universo que insistem em nos eliminar da memória.
Não se parava um minuto, mas eramos felizes sem o digital.

Rui Luís Lima

Conto de Natal! - Uma Partida de Xadrez Numa Noite de Natal!

Rui Luís Lima, 24.12.25

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Conto de Natal!

Uma Partida de Xadrez Numa Noite de Natal!

Ele olhou para o tabuleiro de xadrez e viu o rei em perigo, depois o Filho indicou-lhe o relógio. Sim, era verdade mais um ano se aproximava do fim e naquele dia como acontecia desde que Ele criara o mundo, durante um minuto, não haveria mortos, as guerras pararam à meia-noite para serem retomadas 60 segundos depois, era a "tradição" segundo uns ou as regras do jogo como afirmavam certos políticos. Mas aquele peão dificultava a sua jogada com a torre e o Filho reparou que o minuto passara e o Pai esquecera-se de colocar o mundo que criara de regresso à inevitável narrativa histórica. E Eles ali continuaram sentados com a atenção presa no jogo de xadrez.

No mundo os soldados esperavam nas trincheiras pelas ordens superiores para retomarem os combates e os dias passavam, até que uma tarde começaram a regressar a casa, as guerras terminaram sem vencedores nem vencidos, a pouco e pouco as desigualdades começaram a diminuir, os sorrisos renasciam nos rostos, em África as guerrilhas regressavam às aldeias em paz e inventavam outro modo de vida, no Extremo-Oriente o ódio deu lugar ao amor e a guerra à paz, na Europa a paz regressara, a indústria de armamento mudou de actividade e o Mundo deixou de sonhar com a guerra.

Entretanto as semanas transformaram-se em meses e o buraco na camada de ozono começou a diminuir e o nível das águas estabilizou e até a maioria começava a esquecer-se das epidemias e do tristemente famoso “covid” e aquele simples peão no tabuleiro de xadrez continuava a dificultar a jogada Dele. O Filho reparou na passagem das horas, mas nada lhe disse, porque desejava prolongar aquela partida de xadrez infinitamente, para que todos tivessem a oportunidade de reencontrar a felicidade.

Um Feliz Natal a todos os que passam por aqui!

Paula e Rui Lima

Ingmar Bergman - “Fanny e Alexandre”

Rui Luís Lima, 23.12.25

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Ingmar Bergman
“Fanny e Alexandre”
Assírio & Alvim

“Segundo a tradição, o jantar de Natal tem lugar na cozinha de Héléna, decorada com tapeçarias, Pais Natal, guardanapos de Natal, luzes de Natal e velas feitas em casa. A mesma tradição exige que patrões e criadagem jantem todos juntos, instalando-se cada um à mesa no lugar que quiser. As iguarias estão em exibição, do primeiro ao último prato, nos balcões da cozinha em cima do enorme aparador, e tudo está enfeitado com toalhas coloridas. Cada um serve-se copiosamente e segundo as capacidades dos seus estômagos.”

Ingmar Bergman

“Fanny e Alexandre”

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O cineasta sueco Ingmar Bergman, deixou-nos uma filmografia incontornável mas, de todos os filmes que vi realizados por ele, o meu favorito, que não me canso de rever tanto na versão de cinema como na de televisão, é precisamente “Fanny e Alexandre”, considerado por muitos como o testamento do cineasta. O Natal, essa bela época festiva, revela-se como fundamental na acção deste belo filme de Ingmar Bergman, já que a película se inicia com ele e termina um ano depois com a família novamente reunida em torno da célebre consoada. Recomendamos a leitura deste belo e inesquecível livro, que tem tradução do poeta Armando Silva Carvalho, na edição da Assírio e Alvim. Recordo que anteriormente esta obra literária de Ingmar Bergman foi editada pela Distri.

Faltam 2 dia para o Natal!

Paula e Rui Lima

Conto de Natal - "O Frio e a Neve!"

Rui Luís Lima, 22.12.25

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Conto de Natal

"O Frio e a Neve!"

Ele não queria acreditar, ao acordar, na paisagem que os seus olhos viam. A neve invadira por completo os telhados das casas e as ruas estavam brancas, cobertas por uma fina camada de neve, que ainda não se tinha derretido. Arrumou calmamente os seus pequenos haveres na velha mala que sempre trazia consigo, depois de a esconder no local habitual da casa abandonada que lhe servia de abrigo, decidiu sair.

Num dos jardins da cidade duas crianças brincavam com a neve acompanhadas dos pais e ele, ao vê-las, recordou-se dos seus tempos de infância. Também ele fora criança e a memória que guardava dessa época aqueceu-lhe por breves instantes o seu corpo, do frio que sentia.

Desceu a rua lentamente e ao ver um automobilista em dificuldade decidiu ajudá-lo. Aproximou-se do veículo e ofereceu os seus serviços, começando a empurrar o veículo, esperando que uma moeda lhe acabasse por cair na mão. Mas o condutor, em vez disso, após ter conseguido sair da zona onde se acumulava uma enorme quantidade de neve, acelerou e desapareceu pela estrada fora, sem o mínimo gesto de agradecimento.

Ainda era cedo para ganhar as pequenas moedas que lhe iriam possibilitar sobreviver mais um dia, na sua vida triste e solitária. Com a passagem dos anos aprendera a não confiar em ninguém e depois desse dia trágico em que lhe roubaram os sapatos no albergue, decidira que se encontrava mais seguro a dormir sozinho, na pequena casa abandonada.

A televisão já andava pela cidade, a entrevistar as poucas pessoas que se aventuravam a sair de casa naquele domingo gelado e quando ele se aproximou da jornalista, ela olhou para ele, espantada com a sua figura, mas rapidamente lhe virou as costas, seguida pelo colega para o outro lado do passeio, para fazerem a tão desejada reportagem. Ao ver que não iria servir de material noticioso, decidiu regressar a “casa”, subindo a rua novamente, transportando nos ombros o duro peso da solidão.

Lentamente, os farrapos de neve que ainda caíam foram dando lugar a uma chuva miudinha, que começou a limpar as ruas da sua camada branca e fria.

Nesse domingo gelado, o sol decidira fazer folga e apenas o frio se iria apresentar ao trabalho.

Faltam 3 dias para o Natal!

Rui Luís Lima

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