A Capital - 2ª Série Nº1 - 21 de Fevereiro de 1968 Último Número: 30 de Julho de 2005 Primeiro Director: Norberto Lopes Preço: 1$00 Ano: 1968
Quem passa pelo meu blog "Notícias de Marte", dedicado aos livros, já percebeu que leio jornais desde tenra idade e comecei a sujar as mãos a preparar os jornais para venda na Tabacaria de um familiar. Ao reiniciar estas minhas memórias dos jornais, tinha que começar por "A Capital", porque foi o primeiro jornal que comprei com o meu próprio dinheiro, nesse ano de 1968, tinha 9 anos, pela simples razão que às segundas-feiras o suplemento de "A Capital" era o "Quadradinhos", uma bela revista de banda desenhada, que se dobrava e cortava e ficava em formato A4.
Gosto muito de olhar o passado da Imprensa e ler os jornais e revistas que se publicavam no século passado, em que o jornalismo era sinónimo de muitas "coisas" belas. E por isso mesmo gostaria de referir que "A Capital", quando surgiu no ano de 1968 com uma nova vida, era fruto de um conjunto de jornalistas oriundo do "Diário de Lisboa" e que geriam "A Capital" como uma Cooperativa de Jornalistas, uma novidade na época. De referir ainda que, todos os dias, havia um suplemento temático (algo que o jornal Público, quando nasceu, viria também a ter muitos anos depois), sendo a última página desses suplementos temáticos dedicada a uma banda desenhada (as célebres páginas dominicais da BD).
Porque me lembro disto!? Jornais não faltavam lá por casa, a minha avó trazia-os para o neto cortar e colecionar as bandas desenhadas e eu enchia os cadernos com tiras de banda desenhada. Depois comecei a ler as páginas do internacional e as da cultura, fui fixando nomes e abrindo os horizontes, muitas vezes nos primeiros tempos só percebia metade do que lia, mas não desistia e ainda havia a aqueles jornalistas que escreviam nas entrelinhas, por causa do "exame prévio" (censura) e foi com estes jornalistas e de outros jornais que me passavam pelas mãos que eu formei a minha opinião sobre o mundo em que vivemos.
Pela direcção de "A Capital" passaram nomes como Mário Neves, Rudolfo Iriarte, Francisco Sousa Tavares, David Mourão Ferreira, Cáceres Monteiro, que como jornalistas contribuíram de forma decidida para o meu olhar sobre a imprensa escrita. O jornalismo é uma profissão bem nobre cujo objectivo é informar, mas também formar os seus leitores.
Blake & Mortimer "Oito Horas em Berlim" Arte: Antoine Aubin Argumento: José-Louis Bocquet / Jean-Luc Fromental Páginas: 64
Estamos perante o volume nº.29 da célebre dupla constituída pelo capitão Francis Blake e o professor Philip Mortimer, nascidos pela mão do genial Edgar Pierre Jacobs (1904 - 1987) e mais uma vez nos é oferecido um trabalho que não só capta a atenção do leitor da primeira à última prancha, como nos oferece o reencontro com o Inspector Pradier, em Berlim (recordam-se de "O Caso do Colar"?), fruto do trabalho dos argumentistas José-Louis Bosquet e Jean-Luc Fromental, por outro lado a arte de Antoine Aubin, que já tinha assinado anteriormente três dos álbuns da famosa dupla, respeita de forma perfeita a Arte que nos foi deixada por Edgar Pierre Jacobs quando criou esta dupla, uma das mais famosas da escola franco-belga de banda desenhada.
"Oito Horas em Berlim" traz-nos de volta também o famoso Olrik (o tenebroso vilão) e a partir de factos históricos, a ida de John Kennedy a Berlim, oferece-nos uma intriga repleta de acção e suspense. Podemos dizer que a 9ª Arte está de parabéns com a continuação das aventuras de "Blake & Mortimer".
Patricia Highsmith “Levemente, Levemente ao Vento” / “Slowly, Slowly in the Wind” Páginas: 222 Distri
Pertenço a essa categoria de leitores que adoram ler contos e assim me tornei admirador de escritores tão distintos como Francis Scott Fitzgerald, Jorge Luís Borges, Ernest Hemingway, Raymond Carver, John Cheever, Erskine Caldwell, Lawrence Durrell com as aventuras de Antropus, Georges Simenon e Maigret, Agatha Christie e Poirot e Patricia Highsmith. Certamente esqueci-me de muitos outros e se voltasse a esta crónica noutro dia, a lista de nomes iria certamente crescer, mas o que me interessa aqui é esse jogo cinéfilo dos tais filmes que levaria para a tal ilha deserta, mas passando a usar contos em vez de filmes e colocando a questão: se só te deixassem levar para a ilha apenas um conto, qual seria ele?
A resposta, que inicialmente poderia parecer complexa, termina por ser muito simples: Patricia Highsmith e “O Homem Que Escrevia Livros na Cabeça” / “The Man Who Wrote Books in His Head”, que foi publicado pela primeira vez em 1973 na “New Review” e surgiria a abrir este livro de contos intitulado “Levemente, Levemente ao Vento” / “Slowly, Slowly in the Wind”, publicado entre nós pela Distri em 1984. Todos os contos incluídos neste volume viram a luz do dia durante a década de 70, do século XX, em diversas publicações dedicadas às famosas “short-stories”, mas este conto ficou para sempre na minha memória e como gosto de partilhar os meus pequenos prazeres, deixo-vos o convite para perderem dez minutos do vosso precioso tempo e lerem este conto genial de Patricia Highsmith.
«E. Taylor Cheever escrevia livros na cabeça, nunca no papel. À data da sua morte, com sessenta e dois anos, escrevera catorze romances e criara cento e vinte e sete personagens, das quais se recordava distintamente.»
Assim começa o mais belo e fascinante conto que li em toda a minha vida e quantos de nós já não escrevemos contos, novelas e romances na cabeça, quando sonhamos, acordados ou a dormir.
"Alberto Armando Pereira - Um pioneiro do Jornalismo Cinematográfico Português" Luís Neves Real Páginas: 96 Cinemateca Portuguesa
Na introdução a este livro escreveu Luís de Pina: "Chamar a atenção para todos aqueles que ajudaram a fazer o cinema português tem sido a preocupação constante desta casa. Com esse intuito nasceu a colecção «Figuras do Cinema Português», que regista agora o nome de Alberto Armando Pereira. decano dos nossos jornalistas cinematográficos, nome grande dos pioneiros desta Arte(...)".
O Cinema é feito por todos os seus intervenientes, desde os realizadores, até aos actores e restante equipa técnica, mas também os seus divulgadores, sejam eles os críticos, os cinéfilos ou o público anónimo que vai às salas de cinema e neste século XXI, o cinema usa outras plataformas, para o vermos, onde também podemos descobrir os Primitivos da Sétima Arte muitas vezes em excelentes cópias restauradas..
Este volume editado em 1984 e dedicado a Alberto Armando Pereira escrito por Luís Neves Real encontra-se dividido nos seguintes capítulos, para além do belo Prefácio que lhe dedicou Luís de Pina:
1 - Desde «Au Rendez-Vous D'Elite» a o «Porto Cinematográfico»
2 - De 1919 a 1930
3 - Depois de 1930
Conduzindo-nos a uma bela viagem pelo interior da paixão do Cinema.
Robert Harris "Fatherland" Páginas: 386 Arrow Books
Robert Harris "Pátria / Fatherland" Páginas: 378 Bertrand
Robert Harris, conhecido jornalista e escritor, que tem eleito a História como personagem dos seus livros, oferece-nos em “Fatherland” uma viagem por esse universo recente da História Alternativa, que nos coloca interrogações bem pertinentes ao introduzir a partícula “se” ou “if” se preferirem, consoante a edição que decidem ler deste fabuloso livro.
Coloque então esta questão a si mesmo ou seja a premissa de “Fatherland”: e se a Alemanha de Hitler tivesse saído vencedora da Segunda Grande Guerra?, pois bem, é precisamente isso mesmo que sucede neste magnifico livro de Robert Harris. A Grã-Bretanha de Churchil termina por capitular perante a avassaladora máquina de guerra germânica e o estadista inglês parte para o exilio no Canada, a América durante o conflito remeteu-se ao silêncio e à sua bem conhecida politica isolacionista, sendo governada pelo patriarca da família Kennedy e a Europa vive em “Paz” sobre o domínio alemão e apenas nesse longínquo território anteriormente denominado de União Soviética existem alguns pequenos "problemas logísticos", que o governo alemão se encontra a solucionar, dizem os serviços noticiosos do regime.
Berlin, essa esplendorosa e poderosa capital do mundo em tempos idealizada por esse génio da Arquitectura chamado Albert Speer, tornou-se realidade e deixou de fazer parte da ficção e pela primeira vez um Presidente Norte-Americano vai visitar o Führer, esse obreiro da nova ordem internacional, que apesar de possuir já uma idade bastante avançada continua a viver em glória; todas as autoridades do regime preparam esse grandioso acontecimento e como não podia deixar de ser televisões de todo o mundo encontram-se em Berlin para fazer a cobertura deste grandioso acontecimento mediático. Para acompanhar os grupos de jornalistas as autoridades do Terceiro Reich nomeiam um oficial modelo, mas no período que antecede a chegada do Presidente Americano, altos dirigentes do regime que tiveram cargos de relevo durante o conflito vitorioso da Segunda Grande Guerra começam a desaparecer e as suas mortes a ocorrerem, camuflando assim um dos maiores segredos do regime que fora eliminado da memória de todos.
“Fatherland” de Robert Harris agarra o leitor da primeira à última página, tornando-se num livro inesquecível e empolgante, mas também perturbante porque nos leva a interrogar a História e a colocar questões que muitas vezes preferimos deixar no limbo das interrogações, quando assistimos nos nossos lares ao quotidiano dos serviços noticiosos que nos trazem as notícias do mundo, perfeitamente formatadas e que recebemos de braços abertos no conforto do lar. Robert Harris ao escrever “Fatherland” convidou-nos a meditar sobre a informação que nos rodeia.
Nota: O livro "Fatherland" de Robert Harris teve uma excelente adaptação televisiva realizada por Christopher Menaul e com interpretações de Rutger Hauer e Miranda Richardson.
& etc - Uma Editora que ficou na História da Cultura em Portugal!
Tudo começou ainda andava eu a colar as tiras dos Peanuts publicadas no Diário de Lisboa, no caderno da instrução primária, sendo o melhor aquele das duas linhas para termos uma letra bonita. Nesse ano de 1965 o Jorrnal do Fundão foi proibido de ver a luz do dia de Maio a Novembro de 1965.
O jornal regional incomodava o poder e em 1967 António Pauloro (director do jornal) e Vítor Silva Tavares (editor na Ulisseia) criam um suplemento cultural intitulado "& etc", que irá abanar os alicerces do regime. O título do suplemto ao ter o nome "& etc" contornava o olhar da censura porque parecia não abordar um tema específoco evitando o disparo dos alarmes na "Censura" mais tarde baptizada de "Exame Prévio". Porque como alguns ainda se recordam a cultura é um veneno mortal para as ditaduras e um perigoso xarope para as democracias populistas, promovendo o "penso logo desisto"!
E assim, entre finais de 1967 até 1971, o Suplemento Cultural do Jornal do Fundão intitulado "& etc" tornou-se o "mal-amado" do regime e na capital começou-se a vender o Jornal do Fundão. (2)
Vítor Silva Tavares, que fizera muitas viagens entre Lisboa e o Fundão em 1973, decide abrir o ano a lançar a "folheca cultural & etc" da qual viriam a sair 25 números, quinzenalmente, que ao longo do tempo iriam mudar de papel, o inicial era muito fino, com um formato quadrado bem definido e do qual me foi parar às mãos um exemplar numa Feira do Livro, enquanto depois o papel era mais grosso e melhor.
Seriam 25 os números a ver a luz do dia, deste dito cujo quinzenário cultural, que viria a comprar na totalidade na Livraria Opinião por 200$00, prenda de aniversário da minha avó (1) e rapidamente travei conhecimento com o Hipólito Clemente, que quando saiu o "Coisas", primeiro livro da editora & etc situada no subterrâneo 3 da Rua da Emenda, ali para os lados do Largo do Camões, em Lisboa guardou-me um exemplar.
A partir de então e durante longos anos todos os livros do "& etc" do Vítor Silva Tavares (1937 - 2015), com aqueles "hors-text" fabulosos do Carlos Ferreiro e no formato 15,5 x 17,5 cm, que reproduzia de certa forma as dimensões da "folheca cultural", entraram-me em casa sempre que surgiam no mercado e eram de imediato lidos.
Neste século XXI já não temos as fabulosas edições & etc, o seu editor Vítor Silva Tavares deixou-nos em 2015, mas ainda pior é só termos a Biblioteca Nacional e a Casa Fernando Pessoa para lermos os livros da & etc (as tiragens eram pequeninas) editados por Vítor Silva Tavares, o editor que vivia fora do sistema! (3)
Ao longo da sua existência a editora & etc publicou diversas colecções de livros sempre com tiragens reduzidas o que levou a que muitos deles sejam raridades nos dias de hoje e fruto da procura de muitos colecionadores e bibliófilos, atingindo por vezes preços exorbitantes nos Alfarrabistas. Mas o que é certo é que contam-se pelos ddos de uma mão, os livros que surgiram na & etc, que foram reeditados em outras editoras. Aqui neste meu post de memórias no blog "Notícias de Marte" aproveitei para reproduzir o número 1 de cada colecção da editora, para além de vos deixar as fotos de António Pauloro e Vítor Silva Tavares, dois nomes incontornáveis da divulgação da cultura no nosso país.
(1) - Vi as revistas do "& etc" atados aos molhos com cordel nos degraus interiores da Livraria Opinião que davam acesso aos andares de cima e pedi ao Hipólito que mos guardasse, e fui a correr até casa, perto de S. Bento, e a avó Rosa lá me deu o dinheiro (era a prenda de aniversário, embora só fosse no dia seguinte) e lá regressei eu a correr até à Livraria Opinião, futura editora Cotovia e hoje...
(2) - Os célebres Suplementos & etc foram publicados em livro de grande formato reproduzindo de forma perfeita esta aventura cultural do Jornal do Fundão.
(3) - A biblioteca particular do escritor Herberto Helder está disponível para leitura (no local) no Palácio Galveias e nela podem-se encontrar mutos livros da editora & etc, que publicou alguns dos seus livros: "Cobra" e "O Corpo, o Luxo e a Obra".
"Cisco Kid" Arte: José Luís Salinas Argumento: Rod Reed Colecção: Antologia da BD Clássica nº. 5 Páginas: 52 Editorial Futura
Este volume da célebre colecção de banda desenhada clássica editada em boa hora, pela Editorial Futura é composto por 234 tiras diárias das aventuras de Cisco Kid, originalmente publicadas entre 15/01/1951 e 13/10/1951, incluindo três aventuras do célebre cow-boy e do seu amigo Pancho.
Sendo sempre de recordar que esta personagem surgiu primeiro no cinema e só depois na banda desenhada pela mão do desenhador argentino José Luis Salinas, que na América iria desenvolver o seu herói, sendo o argumento da autoria de Rod Reed.
As aventuras de Cisco Kid obtiveram um enorme sucesso, surgindo também na rádio nos célebres folhetins radiofónicos, cativando uma legião de ouvintes. Por outro lado o meu encontro com as aventuras de Cisco Kid deu-se no Mundo de Aventuras e mais tarde no maravilhoso "Jornal do Cuto", embora nos dias de hoje o encontre também no saudoso Cavaleiro Andante.
Este álbum de Cisco Kid revela-nos já todas as características do herói e das suas atribuladas aventuras, sempre a despertar fortes paixões no sexo oposto.
Céleste Albaret "Monsieur Proust" (Souvenirs recueillis par George Belmonte) Páginas: 460 Robert Laffont
Céleste Albaret "Monsieur Proust" Edição da Universidade de Lisboa
Céleste Albaret nasceu na província em França, numa pequena cidade chamada Auxillac, e com 21 anos apenas casou-se com um motorista de táxi parisiense chamado Odilon Albaret. Mas Odilon tinha um cliente muito especial que irá mudar para sempre a vida da jovem Céleste, esse cliente chamava-se Marcel Proust, que até lhes enviou a 27 de Março de 1913, aquando do casamento de Odilon, um telegrama a felicitá-lo pelo feliz enlace e a desejar as maiores felicidades para o jovem casal.
Após a viagem de núpcias, Odilon e Celeste regressaram a Paris, uma cidade que a jovem desconhecia por completo e poucos dias depois Odilon Albaret decidiu passar pelo número 102 do Boulevard Haussmann, para informar Marcel Proust que já tinha regressado, tendo levado consigo a jovem esposa, para quem tudo era novidade. Curiosamente, será na cozinha que a jovem Céleste Albaret irá conhecer Marcel Proust e como ela não tinha nenhum emprego em vista, o escritor decidiu oferecer de forma indirecta uma primeira tarefa para a jovem de 22 anos efectuar, com grande agrado de Odilon, que assim via a esposa a começar a ter uma ocupação na cidade das luzes e mais ainda por ficar relacionada com o seu melhor cliente, por quem aliás tinha uma enorme estima.
Quando Proust e Céleste se conheceram, o escritor tinha acabado de ver editado na Grasset o livro “Du côté de chez Swann”, uma edição que aliás foi paga pelo próprio escritor, que durante largo tempo viu o primeiro volume da sua obra “Em Busca do Tempo Perdido” recusado pelos editores e teve que usar o expediente de financiar a própria edição do livro. Como não podia deixar de ser, Marcel Proust encontrava-se a preparar o envio de diversos exemplares do livro devidamente autografados para amigos, familiares e críticos literários, sendo a tarefa de Céleste entregá-los nas respectivas moradas, numa cidade que já era bastante extensa e após ter cumprido esta tarefa que durou algumas semanas com sucesso, a jovem entrou ao serviço do escritor no número 102 do Boulevard Haussmann.
Nos primeiros tempos Marcel Proust irá tratar Céleste Albaret por Madame mas, pouco tempo depois a jovem, já familiarizada com a forma de agir de Proust, irá solicitar ao escritor que este a trate simplesmente pelo seu nome próprio, iniciando-se assim uma das mais famosas relações de amizade, repleta de cumplicidades mútuas que irá originar um dos mais belos e sinceros testemunhos dos últimos anos de vida de Marcel Proust, assim como da feitura desse Monumento Literário intitulado “Em Busca do Tempo Perdido”.
Após a morte do célebre escritor muito se escreveu sobre Marcel Proust e a sua obra, mas nem sempre o que surgia escrito, fosse na imprensa ou em livro, correspondia à realidade e será isso mesmo segundo irá confessar Céleste Albaret, a contar as suas memórias a George Belmonte aos 82 anos, dando assim o seu testemunho dos anos passados ao serviço do escritor, foram as “não verdades” como ela refere que vão dar origem a este fabuloso livro intitulado “Monsieur Proust”, que se lê como um verdadeiro romance da primeira à última página.
Georges Belmonte, na introdução que nos oferece, conta-nos que nas setenta horas de conversa tidas com Céleste Albaret lhe foram dadas todas as provas necessárias da veracidade dos acontecimentos narrados por ela, sem uma única contradição nos testemunhos recolhidos, certamente porque perante ele se encontrava a mais bela e sincera das vozes: a voz da amizade.
Ao lermos “Monsieur Proust” de Céleste Albaret, deparamos com o mais belo e sincero testemunho dos últimos anos de vida desse eterno recluso chamado Marcel Proust, emboscado nas trincheiras do seu quarto contra esses terríveis ataques asmáticos que sempre o perseguiram desde criança, aliás bem retratados pelo narrador de “Em Busca do Tempo Perdido”; a sua eterna luta para concluir a obra de uma vida, que se revelaria sempre um “work in progress”, como ele confidenciou um dia à chére Céleste, esse termo bem carinhoso com que ele a tratava, ao mesmo tempo que lhe lia as páginas que ia escrevendo deitado na cama; alimentando-se nos últimos tempos quase sempre de litros de café e de croissants, só em ocasiões especiais aceitava comer um pouco de peixe ou carne, sempre por insistência de Céleste, para não perder tempo, porque “Em Busca do Tempo Perdido” era a razão da sua existência no Universo.
Céleste Albaret é a responsável pela ideia de colar as famosas páginas de formato A3 manuscritas por Proust (os célebres acrescentos) umas às outras para os tipógrafos, ao receberem as correcções das provas feitas pelo escritor, não se enganarem terminando assim com um dos grandes temores de Marcel Proust. Por outro lado, no dia em que a jovem esposa de Odilon sugeriu ao escritor para este arranjar uma secretária, este sorriu e respondeu-lhe que já tinha uma, por quem possuía uma enorme estima, chamada Céleste.
Em “Monsieur Proust” são inúmeros os acontecimentos bem marcantes que atravessam as páginas deste fabuloso livro de memórias: o comportamento de André Gide ao receber para análise o manuscrito de “Du cotê de chez Swann”, afirmando Marcel Proust que ele nunca o leu, tendo simplesmente recusado para publicação, porque os nós do pacote vinham tal como ele os tinha feito, para o envio; a atitude de Gaston Gallimard quando “À l’ombre des jeunes filles” foi consagrado com o Prémio Goncourt (**), o segundo volume de “Em Busca do Tempo Perdido”; a famosa ida de Marcel Proust na companhia de Jean-Louis Vaudoyer ao Jeu de Paume para ver uma exposição de quadros de Vermeer, que mais tarde irá surgir no romance, revelando-se um dos momentos mais memoráveis da obra literária de Marcel Proust.
“Monsieur Proust” da autoria de Céleste Albaret revela-se assim como uma obra fundamental para a compreensão e estudo desse Monumento Literário que é “Em Busca do Tempo Perdido” de Marcel Proust, oferecendo-nos de uma forma simples, mas profundamente mágica a relação entre o escritor e Céleste Albaret, que um dia lhe disse: «o senhor é um mágico».
Recorde-se que o cineasta alemão Percy Adlon (1935 - 2024) nos contou a história da amizade entre Céleste Albaret e Marcel Proust no filme "Celeste" que realizou no ano de 1980 e que teve estreia no cinema Quarteto, tendo como protagonista a actriz Eva Mattes, um rosto bem conhecido dos filmes do realizador WerNer Herzog, já a figura de Marcel Proust é interpretada pelo actor Jürgen Arndt. Esta película que foi apresentada pela primeira vez no Festival da Figueira da Foz conquistou o grande Prémio deste Festival.
Aqui vos deixou um pequeno filme da "France Culture," que nos oferece Céleste Albaret na primeira pessoa e nos convida a conhecer a sua relação com Marcel Proust.
Nota: Este livro foi editado em Portugal numa edição da Imprensa da Universidade de Lisboa.
(*) “Do Lado de Swann” Ed. Relógio D’Água
(**) “À Sombra das Raparigas em Flor” Ed. Relógio D’Água”
"Ernesto de Albuquerque" A. Videira Santos Páginas 44+6 Cinemateca Portuguesa
No volume dedicado a Ernesto de Albuquerque da responsabilidade do investigador A. Videira Santos, editado pela Cinemateca em 1983, encontramos uma bela introdução que nos conta a forma "atribulada" como tudo foi feito pelo autor, de uma honestidade, rara nos dias de hoje. Mas aqui o seu desejo de dar a conhecer os primitivos do cinema português falou mais alto, porque percebeu, como era importante dar a conhecer o trabalho deste operador de cinema, mais tarde realizador e assim nasceria este livro, que merece a atenção de qualquer cinéfilo ou simples amante da Sétima Arte.
A tiragem deste livro foi de 300 exemplares e teve os seguintes capítulos:
1 - Esboço bio-filmográfico.
2 - Perfil de Albuquerque como homem e cineasta.
3 - «A cultura do cacau» ou o problema do filme sobre o cacau.
4 - «A Internacional» e as actualidades de Ernesto de Albuquerque.
5 - Realizador e operador de filmes de fundo.
Apresentando ainda um destacável de seis páginas sobre o filme "Quim e Manecas".
Dar a conhecer os primitivos do cinema português foi a missão cinematográfica desta bela colecção de livros de cinema, que tinha grafismo de Judite Cília.
Umberto Eco "Aos Ombros de Gigantes" / "Sulle Spalle des Giganti" Páginas: 444 Gradiva
Lições em La Milanesiana 2001 - 2015
Os textos que compõem este volume foram escritos para serem lidos no "Festival La Milanesiana", por Umberto Eco em forma de "lectio magistralis", inclusivamente ilustrada, através dos célebres diaporamas. Mais uma vez a escrita do genial escritor e ensaísta italiano deixa o leitor encantado pela forma simples, como desmonta as novas "certezas" da sociedade contemporânea, atravessando os séculos e a História, navegando pela religião, até chegar ao célebre "terceiro segredo do milagre de Fátima" contado pela irmã Lucia, passando também pela imaginação frutuosa de um escritor chamado Dan Brown, que se tornou milionário.
Em "Aos Ombros de Gigantes" temos muito mais para explorar, desde "A Beleza" até à "Fealdade", em que o dinheiro tudo compra, assim como as temáticas do "Absoluto e Relativo", não esquecendo o "Invisível" e "O Sagrado", para além dos célebres "Paradoxos e Aforismos" onde navega Oscar Wilde e o seu "Dorian Gray". Mas a "Imperfeição" também é tema, tal como as "Falsificações" sejam elas na "Arte", como na "Política", onde é inevitável visitar a "Conspiração" através dos séculos e nesse novo universo mediático que é a net e onde a numerologia surge como uma equação conspirativa bem curiosa.
Mas quanto a revelações nada melhor do que visitar "Casablanca", o célebre filme de Michael Curtiz, que também por aqui navega de forma bem interessante. Quando terminamos a leitura deste livro fabuloso, repleto de ilustrações, como era agrado do escritor, sentimos de imediato a falta que Umberto Eco nos faz, neste perigoso universo "unipessoal".