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Rui Diniz
"Ossuário (ou: A Vida de James Whistler)"
Páginas: 69
& etc.
Rui Diniz pertence a essa conhecida Geração de 70, que nos ofereceu poetas como Nuno Júdice, Gastão Cruz, Fiama Hasse Pais Brandão, João Miguel Fernandes Jorge, Joaquim Manuel Magalhães, entre outros e em 1977, a editora & etc de Vitor Silva Tavares, publicou o seu livro de poemas intitulado “Ossuário (ou: A Vida de James Whistler)”, que se revelou ser um dos mais belos livros de poesia publicados no século xx, no nosso país, que se encontra mais que esgotado, embora seja possível encontrá-lo para leitura tanto na Casa Fernando Pessoa como na Biblioteca Nacional, ambas em Lisboa. Mas recentemente o poeta viu editado um volume que reúne parte da sua obra poética intitulado "Ossos de Sépia", que inclui precisamente "Ossuário (ou: A Vida de James Whistler)"
Na época da sua publicação o livro de Rui Diniz foi objecto de uma Sessão de Leitura no Teatro da Cornucópia, na Sala Manuela Porto, recorde-se que na introdução de “Ossuário (“ou: A Vida de James Whistler)”, o poeta Nuno Júdice refere que “escritos na sua maior parte, senão todos, em Portugal, estes poemas falam do exílio simultaneamente como prova e exorcismo”. Convém referir que Rui Diniz, desde a publicação deste seu livro, reside nos Estados Unidos da América, na pequena cidade de Eaton, Ohio e só regressou a Portugal a convite da Casa Fernando Pessoa para um encontro de poetas portugueses a viverem fora do país, realizado em 1999, sobre o título “Encontro de Poetas da Diáspora Portuguesa”.
Recorde-se que Rui Diniz e Nuno Júdice criaram ao longo dos anos uma enorme cumplicidade poética, no bom sentido da palavra, tendo até Rui Diniz assinado a introdução do primeiro livro de poemas de Nuno Júdice, intitulado “Noção de Poema” (1972), publicado pela editora D.Quixote na sua célebre colecção "Cadernos de Poesia". Num artigo publicado na revista da "Casa Fernando Pessoa" àcerca do poeta é referido que Rui Diniz enviava os seus escritos para o amigo Nuno Júdice, que como alguns se recordam nos deixou recentemente. Aqui vos deixo um dos poemas incluídos em “Ossuário (ou: A Vida de James Whistler)”, uma das mais belas obras poéticas da segunda metade século xx.
Rui Luís Lima
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Os Anos de Transição – Uma Canção de Exílio
Em Paris vi as raparigas escuras, por entre
a neve, respirando a solidão,
nas esquinas ásperas das tardes, descendo
nos passeios, procurando talvez os amigos
desaparecidos. Estava sentado nos cafés, a
escrever um romance sobre um grupo de pessoas,
muito jovens, que só se reunia nos cafés para
estudar e vadiava e bebia, a maior parte do tempo,
e também às vezes alguém se apaixonava
por alguém de uma maneira terrível e se
preocupava durante dias e às vezes meses seguidos
com isso. Eu próprio, de vez em quando,
parava de escrever e bebia um bocado
de pernod que encomendara.
De certo modo, as minhas recordações eram assim,
com pessoas a amarem-se secretamente, nos cafés,
enquanto conversavam sobre a opressão e os meios
de revolucionar os dias e as tardes, rindo nervosa-
mente, bebendo bagaços ou mesmo «moscas».
E as raparigas que entravam nos cafés e se sentavam
para tomar cafés e começavam a ler um livro
tirando os óculos escuros, eram as mesmas que
eu conhecera e talvez amara em Lisboa, os mesmos
rostos tristes, quase sem palavras, onde uma
alucinação milenária brilhava, em certos instantes, tão
terrivelmente.
Em Paris vi o inverno dilatar-me roxas olheiras
e aumentar-me a fome e não fui capaz de
escrever o romance porque o meu vocabulário
sempre tinha sido muito restrito e afinal eu
nunca soubera escrever na minha vida.
Uma tarde de Dezembro, no café de Versailles,
tomei um whisky com soda e conversei com
o criado sobre o vício em que todos os exilados
como eu ali se afundavam, e vi-o concordar
e várias vezes sorrir-me com uma quase piedade,
e nessa altura paguei, levantei-me, e pensei pelo
caminho muito seriamente se voltaria a
frequentar aquele café.
Rui Diniz
in “Ossuário (ou: A Vida de James Whistler)”
Edições & etc