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Notícias de Marte

Uma viagem pelo universo dos livros e seus autores: literatura, poesia, ensaio, cinema, banda desenhada, arte e teatro.

Notícias de Marte

Uma viagem pelo universo dos livros e seus autores: literatura, poesia, ensaio, cinema, banda desenhada, arte e teatro.

Clifton - “O Rapto” / “Meu Caro Wilkinson” - Turk / De Groot

Rui Luís Lima, 30.06.25

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Clifton
“O Rapto” / “Kidnapping”
“Meu Caro Wilkinson” / “Cher Wilkinson”
Argumento: Bob De Groot
Arte: Turk (Philippe Liégeois)
Asa / Público

O Rapto” / “Kidnapping”, uma bem animada aventura do célebre Coronel Clifton, um detective privado bem amador e chefe dos escuteiros, surgiu publicada na revista Nouveau Tintin de 16 de Agosto a 8 de Novembro de 1983, respectivamente nºs. 414 a 426 do 9ºano.

Já “Meu Caro Wilkinson” surgiu pela primeira vez na revista Tintin (belga), no habitual sistema de história em continuação, de 23 de Novembro de 1976 a 29 de Março de 1977, respectivamente do nº.48 do 31º. Ano ao nº.13 do 32º. Ano e fez as delicias dos seus leitores!

Esta edição das aventuras do Coronel Clifton na colecção dos heróis da revista Tintin foi um acontecimento, esperemos que novas iniciativas como esta regressem para incentivar a leitura da banda desenhada entre os mais jovens e alegrar os mais velhos que se interrogam porque razão as publicações periódicas de banda desenhada desapareceram do universo editorial ou se preferirem porque foram extintos os livros aos quadradinhos no nosso país!

Rui Luís Lima

David Leavitt - "Dança de Família"

Rui Luís Lima, 29.06.25

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David Leavitt
"Dança de Família" / “Family Dancing”
Paginas: 214
Teorema

David Leavitt, ao contrário de Bret Easton Ellis e Tama Janowitz, foge das mundanidades como o diabo foge da cruz, é pouco visto em público, preferindo a intimidade do seu luxuoso apartamento, compartilhado com o também escritor Mark Mitchell, à corrida vertiginosa dos noctívagos.

Começou muito novo a escrever e passou pelos corredores de Yale. Os contos são o seu género máximo, embora seja o romance e a novela que lhe absorvem parte do tempo, de qualquer forma todos nos lembramos quando em Portugal surgiram de uma assentada “As Mil Luzes de Nova Iorque” / “Bright Lights, Big City” de Jay McInerney, e “ Menos Que Zero” / “Less Than Zero” de Bret Easton Ellis e esse soco no estômago intitulado “Dança de Família” / “Family Dancing” de David Leavitt. E dizemos soco no estômago porque, pela primeira vez, era editado com pompa e circunstância um livro cujo tema era a comunidade gay que então despontava em S. Francisco e na Big Apple, e as suas “short-stories” eram na verdade surpreendentes.

Este trio de escritores era visto então como os novos escritores norte-americanos célebres, jovens e ricos, saídos directamente das universidades e expoentes máximos dos então pouco conhecidos cursos de escrita criativa

David Leavitt é um dos mais brilhantes escritores da sua geração, transportando nas suas “short-stories” toda a sensibilidade do mundo. “Dança de Família” / “Family Dancing”, o seu primeiro livro editado pela Teorema em Portugal, e a sua novela sobre Florença intitulado “Florence, A Delicate Case” e “The Man Who Knew to Much” são os nossos eleitos, porque eles podem ser lidos e relidos vezes sem conta. Curiosamente, em todos os debates e conferências em que participa, o escritor defende sempre a comunidade a que pertence, dividindo presentemente o seu tempo entre a escrita e o ensino (escrita criativa), pelo meio ficou uma polémica com a célebre “New Yorker”.

A sua novela “A Linguagem Perdida dos Guindastes”/”The Lost Language of Cranes” fez furor aquando da sua publicação, numa época em que ainda não tinha sido exibido nos cinemas a película “Long Time Companions” / “Companheiros de Sempre” de Norman Renè e no “mainstream” apenas nos tinha chegado “Os Rapazes do Grupo” / “The Boys in the Band” de William Friedkin (cineasta sempre à frente da sua época e cujo reconhecimento crítico acaba por ficar sempre esquecido nas revistas da especialidade). Felizmente o seu romance “Martin Bauman”, um retrato quase autobiográfico da Nova Iorque no início dos anos oitenta, do século passado, não foi atirado para aquela bancada de tão mau gosto criada nas livrarias, na qual as afinidades afectivas dos escritores estão acima da qualidade das obras literárias produzidas, revelando como o “politicamente correcto” pode bem ser, por vezes, tão mesquinho e provinciano, criando até “ghettos” de má memória.

No cinema David Leavitt viu o seu famoso livro “Family Dancing” / “Dança de Família”, a sua obra de estreia, ser adaptada para o grande écran, tendo participado na feitura do argumento em colaboração com Ryan Shiraki que também assina a realização da película. Anteriormente o seu “The Lost Language of Cranes” / “A Linguagem Perdida dos Guindastes”, tinha visto a luz da caixa que mudou o mundo, através da realização de Nigel Finch, tendo Brian Cox e Eileen Atkins nos protagonistas, corria então o ano de 1991. Por outro lado o próprio David Leavitt, em 2002, foi o responsável do argumento cinematográfico de “Food of Love”, película realizada por Ventura Pons.

A sua obra “The Man Who Knew to Much”, uma biografia de Alan Turing, revelou-nos toda a sua genialidade ao narrar a vida surpreendente do génio que decifrou o código Enigma criado pelos nazis e que foi fundamental para a vitória dos Aliados na Segunda Guerra Mundial. Alan Turing, essa mente brilhante que tratou a inteligência artificial e o computador por tu, irá ser perseguido ao longo da vida pelas autoridades do seu país e David Leavitt oferece-nos em “The Man Who Knew to Much” um relato literário ao nível de “A Sangue Frio” / “In Cold Blood” de Truman Capote.

A escrita de David Leavitt revela-nos uma viagem literária surpreendente, conduzindo o leitor por caminhos nunca antes navegados, onde o brilhantismo e a sensibilidade andam de mãos dadas.

Rui Luís Lima

Bernard Prince - “A Fortaleza das Brumas” / "Objectivo Cormoran" - Hermann / Greg

Rui Luís Lima, 28.06.25

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Bernard Prince
“A Fortaleza das Brumas” / "Objectivo Cormoran"
Argumento: Greg
Arte: Hermann
Álbum: Asa/Público

Muitas vezes quando se fala desse genial argumentista de banda desenhada chamado Greg (Michel Regnier), esquecemo-nos que ele foi o criador de Achille Tallon, uma das mais divertidas personagens que descobri nas páginas da Revista Tintin (português). Porém este homem que foi chefe de redacção da Revista Tintin (belga) entre 1969-1974, teve em Bernard Prince uma das suas mais belas criações e este álbum intitulado “A Fortaleza das Brunas” é a prova disso mesmo e depois temos Hermann, que se tornou o criador perfeito das personagens, pelo traço e pela cor que ofereceu a este trio de aventureiros.

Este número da colecção "Clássicos da Revista Tintin" reúne os álbuns "A Fortaleza das Brumas" e "Objectivo Cormoran". Seria bem interessante que a Asa/Público voltasse a publicar mais volumes desta colecção divulgando outros heróis da banda desenhada da revista Tintin.

Rui Luís Lima

"«O Bosque Sagrado» - A Poesia e o Cinema" - Vários Autores

Rui Luís Lima, 27.06.25

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"«O Bosque Sagrado» - A Poesia e o Cinema"
Selecção: Jorge Sousa Braga, António Ferreira e Álvaro Magalhães
Páginas: 80
Gota de Água

Portugal é um país de poetas e por vezes o Cinema foi abordado em forma de verso. De todos os poemas dedicados ao Cinema, aquele que ficou mais célebre e é o mais citado foi escrito por esse grande nome da Arte Poética chamado Ruy Belo, o filme tão amado pelo poeta é "Esplendor na Relva" e foi realizado por Elia Kazan, com o Warren Beatty e a Natalie Wood no par dos jovens protagonistas, Ruy Belo olhava desta forma esta maravilhosa película, no seu livro "Homem de Palavra(s)":

"Eu sei que Deanie Loomis não existe/mas entre as mais essa mulher caminha/e a sua evolução segue uma linha/que à imaginação pura resiste. // A vida passa e em passar consiste/e embora eu não tenha a que tinha/ao começar há pouco esta minha/evocação de Deanie quem desiste // na flor que dentro em breve há-de murchar?/ (e aquele que no auge a não olhar/que saiba que passou e que jamais // lhe será dado ver o que ela era)/Mas em Deanie prossegue a primavera/e vejo que caminha entre as mais."

Em Maio de 1986, a editora "Gota de Água" publicou uma antologia de poesia dedicada inteiramente ao cinema de título "O Bosque Sagrado", exibindo na capa uma imagem do filme de Nicholas Ray, "Fúria de Viver", no qual participou James Dean, Dennis Hooper, Natalie Wood e Sal Mineo entre outros. Hoje em dia esse filme de Nick Ray é um "cult-movie" de diversas gerações e esta recolha de poesia cinematográfica, é um "cult-book" dos amantes de poesia/cinema.

Com uma introdução do cineasta António-Pedro Vasconcelos. que infelizmente já nos deixou,  e um ensaio do poeta e crítico de cinema António Cabrita, possuí realização poética de Jorge Sousa Braga, António Ferreira e Álvaro Magalhães. Este livro merece ser procurado nos alfarrabistas, já que a sua tiragem para o mercado foi de 1000 exemplares. Nele podemos encontrar nomes como Herberto Helder, Pier Paolo Pasolini, Ruy Belo, Frank O'Hara, Carlos de Oliveira, Al Berto ou D. H. Lawrence, entre outros.

Ao lermos “O Bosque Sagrado” descobrimos o cinema na poesia das imagens, revelando-se cada palavra como um perfeito fotograma, num livro repleto de Magia.

Rui Luís Lima

Rock Derby -“Os Ladrões de Bonecas" / ““Os Tubarões do Ring” / "Pânico no Paraíso" - Greg

Rui Luís Lima, 26.06.25

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Rock Derby
“Os Ladrões de Bonecas" / ““Os Tubarões do Ring” / "Pânico no Paraíso"
Arte: Greg
Argumento: Greg
Asa / Público

Embora a vida deste personagem de banda desenhada tenha sido curta, ela teve o condão de dar a conhecer a Arte do seu criador como desenhador, já que como argumentista o nome de Greg (Michel Regnier) era já bem conhecido.

“Os Ladrões de Bonecas” / “Les Voleurs de Poupées”, foi a segunda aventura de Rock Derby e surgiu publicada na Revista Tintin (belga), no célebre sistema de “em continuação”, de 29 de Junho de 1960 a 6 de Outubro de 1960 (nºs. 26 a 40 do 15º ano de publicação).

Já Os Tubarões do Ring” / “Les Raquins du Ring” foi publicada pela primeira vez na revista Tintin (francesa) de 18 de Fevereiro a 9 de Junho de 1960, respectivamente nºs. 591 a 607 do 13º Ano de publicação, enquanto "Pânico no Paraíso" surgiu na Revista Tintin (belga) a 13 de Outubro de 1960 (nº,41 - 15ºano) até 19 de Janeiro de 1961 (nº.3 - 16º ano).

Recorde-se que Greg se irá tornar num nome incontornável no interior da banda desenhada franco-belga, como um dos mais importantes argumentistas da revista Tintin, criando uma legião de personagens que virão a ter uma longa vida no interior da 9ª Arte

Rui Luís Lima

Annie Cohen-Solal - “Sartre 1905 – 1980”

Rui Luís Lima, 25.06.25

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Annie Cohen-Solal
“Sartre 1905 – 1980”
Páginas: 976+24
Colecção: Folio Essais nª.353
Gallimard
Ano: 1985

Quando desejamos saber mais sobre um escritor, para além de lermos os seus livros, é importante encontrarmos uma boa biografia sobre ele e a sua obra.

Confesso, desde já, que na primeira tentativa que fiz para conhecer melhor Jean-Paul Sartre o resultado não foi satisfatório, já que a autora do livro em questão, uma americana, pertencia a essa legião de novos escritores que andam por aí, a publicar livros com títulos sonantes e com um conteúdo bem decepcionante, para não utilizar outras palavras. Mas felizmente em terras de França, na Gibert Joseph, a minha livraria favorita, descobri este belo livro intitulado simplesmente “Sartre 1905-1980” escrito por Annie Cohen-Solal e confesso que “devorei” o livro numa semana, porque nele viajamos por Paris, pela literatura e filosofia do século xx, acompanhamos os debates que animaram gerações e acima de tudo conhecemos Jean-Paul Sartre, como se estivéssemos a visionar o filme da sua vida.

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Recordo-me que, em tempos idos, a TV5 Monde exibiu uma série bem interessante sobre a vida de Jean-Paul Sartre realizada pelo cineasta Claude Goretta e intitulada "Sartre, l'âge des passions" e Alexandre Astruc também nos ofereceu o belo documentário "Sartre par lui-mème", o homem que recusou o Prémio Nobel, mas este fabuloso livro é um convite a conhecer o homem, o escritor e o filósofo, não esquecendo as suas contradições, os seus amores, as suas lutas, para além de uma viagem pelo século xx, acompanhando o trajecto de um homem que, um estadista famoso, mas que não aprecio, comparou com Voltaire!

“Sartre 1905-1980” de Annie Cohen-Solal, com as suas 1000 páginas, na bela edição de bolso da Folio/Gallimard, é um desses livros que se começa a ler e não se larga mais, até chegar à última página. Bem merecia uma tradução para português, de preferência em edição de bolso, essa "coisa" estranha tão desconhecida do nosso universo editorial!

Rui Luís Lima

Jonathan - “Ela ou Dez Mil Pirilampos” / “O Sabor de Songrong” - Cosey

Rui Luís Lima, 24.06.25

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Jonathan
“Ela ou Dez Mil Pirilampos” / “O Sabor de Songrong”
Arte: Cosey
Argumento: Cosey
Pranchas: 112
Álbum: Asa / Público

Bernard Cosandey o artista suíço que assina os seus trabalhos como Cosey, ao criar as aventuras de Jonathan ocupou um espaço no interior da banda desenhada que iria conquistar inúmeros fans, não só para o seu herói, mas também para a 9ªArte. Esta aventura de Jonathan, intitulada “Ela ou Dez Mil Pirilampos” / “Elle ou dix mille lucioles”, criada por Cosey surgiu em álbum em 2008.

A aventura de Jonathan, intitulada “O Sabor de Songrong” / “Le Saveur de Songrong” foi publicada em álbum pela primeira vez em Novembro de 2001 e em Portugal surgiu publicada na colecção de banda desenhada "Clássicos da Revista Tintin".

Rui Luís Lima

James Joyce - “Retrato do Artista Quando Jovem”

Rui Luís Lima, 23.06.25

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James Joyce
“Retrato do Artista Quando Jovem” / "A Portrait of the Artist as a Young Man"
Páginas: 264
Relógio Água

Foi em Janeiro de 1904 que James Joyce, então com 21 anos, teve a ideia de escrever a sua autobiografia, a que chamou “A Portrait of the Artist”, mas rapidamente percebeu que as hipóteses de publicação eram escassas, mesmo os mais próximos e seus cúmplices literários não mostraram interesse na publicação, recorde-se que nessa época Joyce era já autor de belos poemas. Mas o escritor estava convicto da qualidade da sua escrita e irá continuar a trabalhar, aumentando de forma desmedida o livro inicial, transformando-o em “Stephen Hero”, o nome do protagonista do romance, o jovem Stephen Dedalus.

Os anos foram passando e após ter abandonado a sua Irlanda e ido para Trieste, na companhia da mulher da sua vida, a célebre Nora Barnacle, onde dava aulas de inglês (poderão sempre tentar ver o excelente filme de Pat Murphy, intitulado “Nora”, que nos conta a historia de amor entre o escritor irlandês e Nora, sendo o actor Ewan McGregor a dar rosto ao jovem Joyce), começa a trabalhar em “Retrato do Artista Quando Jovem” com vista à sua publicação, reduzindo de forma substancial o número de páginas, já que com o passar dos anos ele tinha adquirido um volume que não iria de forma alguma corresponder ao pretendido e assim irá procurar a forma perfeita, dando por terminada a feitura do romance autobiográfico “Retrato do Artista Quando Jovem” em 1914, precisamente o ano em que vê editado o seu livro de contos “Gente de Dublin” / “Dubliners” e dois anos depois “A Portrait of the Artist as a Young Man” verá a luz do dia nas livrarias.

Ao ler este belo livro, não se esqueça de ler as notas que o acompanham da responsabilidade do tradutor Paulo Faria, que também assina o prefácio, pois elas são um elemento indispensável para a leitura desta magnifica obra literária de James Joyce e não se esqueça de ver o filme "Nora".

Rui Luís Lima

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“Não havia nenhuma silhueta perto dele, nem o ar lhe trazia som algum. Mas a maré estava prestas a mudar, e o dia começava já a declinar. Virou costas ao oceano e correu na direcção da linha costeira e, correndo pela praia inclinada, indiferente aos seixos aguçados, deparou com um recanto arenoso no meio de um anel de colinas de areia com tufos de erva no alto e ali se deitou, para que a paz e o silêncio do final da tarde pudessem aquietar o tumulto que lhe agitava o sangue.”

James Joyce

in “Retrato do Artista Quando Jovem”

Relógio d'Água

“Clorofila Contra os Ratos Negros” / "Clorofila e os Conspiradores" - Raymond Macherot

Rui Luís Lima, 22.06.25

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Clorofila e Minimum
“Clorofila Contra os Ratos Negros” / "Clorofila e os Conspiradores"
Arte: Raymond Macherot
Argumento: Raymond Macherot
Álbum: Asa / Público

Em 1954, o belga Raymond Macherot criou um ratinho do campo chamado "Clorophylle" e o seu amigo Minimum, sendo responsável tanto pelos desenhos como pelo argumento, e o sucesso internacional surgiu rapidamente, tendo esta personagem da BD franco-belga tido a sua maior divulgação no nosso país nas páginas da Revista Tintin (edição portuguesa) em 1968 na aventura “O Bosque Tenebroso”, embora a sua estreia em Portugal tenha surgido uma década antes na Revista Flecha em 1955, precisamente com esta história “Clorofila – Contra os Ratos Negros”.

A reedição desta aventura de "Clorophylle", que em Portugal viu o seu nome traduzido para "Clorofila", revela-se como uma edição a saudar, esperemos que mais aventuras desta dupla criada por Raymond Macherot tenham também direito a serem editadas, para alegria dos fans da banda desenhada franco-belga. Este álbum inclui ainda a aventura "Clorofila e os Conspiradores"

Recorde-se que por vezes nas publicações de banda desenhada estas aventuras dos heróis criados por Raymond Macherot surgem com o nome de "Clorofila e Minimum".

Rui Luís Lima

Rui Diniz - "Ossuário (ou: A Vida de James Whistler)"

Rui Luís Lima, 21.06.25

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Rui Diniz
"Ossuário (ou: A Vida de James Whistler)"
Páginas: 69
& etc.

Rui Diniz pertence a essa conhecida Geração de 70, que nos ofereceu poetas como Nuno Júdice, Gastão Cruz, Fiama Hasse Pais Brandão, João Miguel Fernandes Jorge, Joaquim Manuel Magalhães, entre outros e em 1977, a editora & etc de Vitor Silva Tavares, publicou o seu livro de poemas intitulado “Ossuário (ou: A Vida de James Whistler)”, que se revelou ser um dos mais belos livros de poesia publicados no século xx, no nosso país, que se encontra mais que esgotado, embora seja possível encontrá-lo para leitura tanto na Casa Fernando Pessoa como na Biblioteca Nacional, ambas em Lisboa. Mas recentemente o poeta viu editado um volume que reúne parte da sua obra poética intitulado "Ossos de Sépia", que inclui precisamente "Ossuário (ou: A Vida de James Whistler)"

Na época da sua publicação o livro de Rui Diniz foi objecto de uma Sessão de Leitura no Teatro da Cornucópia, na Sala Manuela Porto, recorde-se que na introdução de “Ossuário (“ou: A Vida de James Whistler)”, o poeta Nuno Júdice refere que “escritos na sua maior parte, senão todos, em Portugal, estes poemas falam do exílio simultaneamente como prova e exorcismo”. Convém referir que Rui Diniz, desde a publicação deste seu livro, reside nos Estados Unidos da América, na pequena cidade de Eaton, Ohio e só regressou a Portugal a convite da Casa Fernando Pessoa para um encontro de poetas portugueses a viverem fora do país, realizado em 1999, sobre o título “Encontro de Poetas da Diáspora Portuguesa”.

Recorde-se que Rui Diniz e Nuno Júdice criaram ao longo dos anos uma enorme cumplicidade poética, no bom sentido da palavra, tendo até Rui Diniz assinado a introdução do primeiro livro de poemas de Nuno Júdice, intitulado “Noção de Poema” (1972), publicado pela editora D.Quixote na sua célebre colecção "Cadernos de Poesia". Num artigo publicado na revista da "Casa Fernando Pessoa" àcerca do poeta é referido que Rui Diniz enviava os seus escritos para o amigo Nuno Júdice, que como alguns se recordam nos deixou recentemente. Aqui vos deixo um dos poemas incluídos em “Ossuário (ou: A Vida de James Whistler)”, uma das mais belas obras poéticas da segunda metade século xx.

Rui Luís Lima

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Os Anos de Transição – Uma Canção de Exílio

 

Em Paris vi as raparigas escuras, por entre

a neve, respirando a solidão,

nas esquinas ásperas das tardes, descendo

nos passeios, procurando talvez os amigos

desaparecidos. Estava sentado nos cafés, a

escrever um romance sobre um grupo de pessoas,

muito jovens, que só se reunia nos cafés para

estudar e vadiava e bebia, a maior parte do tempo,

e também às vezes alguém se apaixonava

por alguém de uma maneira terrível e se

preocupava durante dias e às vezes meses seguidos

com isso. Eu próprio, de vez em quando,

parava de escrever e bebia um bocado

de pernod que encomendara.

De certo modo, as minhas recordações eram assim,

com pessoas a amarem-se secretamente, nos cafés,

enquanto conversavam sobre a opressão e os meios

de revolucionar os dias e as tardes, rindo nervosa-

mente, bebendo bagaços ou mesmo «moscas».

E as raparigas que entravam nos cafés e se sentavam

para tomar cafés e começavam a ler um livro

tirando os óculos escuros, eram as mesmas que

eu conhecera e talvez amara em Lisboa, os mesmos

rostos tristes, quase sem palavras, onde uma

alucinação milenária brilhava, em certos instantes, tão

terrivelmente.

Em Paris vi o inverno dilatar-me roxas olheiras

e aumentar-me a fome e não fui capaz de

escrever o romance porque o meu vocabulário

sempre tinha sido muito restrito e afinal eu

nunca soubera escrever na minha vida.

Uma tarde de Dezembro, no café de Versailles,

tomei um whisky com soda e conversei com

o criado sobre o vício em que todos os exilados

como eu ali se afundavam, e vi-o concordar

e várias vezes sorrir-me com uma quase piedade,

e nessa altura paguei, levantei-me, e pensei pelo

caminho muito seriamente se voltaria a

frequentar aquele café.

Rui Diniz

in “Ossuário (ou: A Vida de James Whistler)”

Edições & etc

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