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Notícias de Marte

Uma viagem pelo universo dos livros e seus autores: literatura, poesia, ensaio, cinema, banda desenhada, arte e teatro.

Notícias de Marte

Uma viagem pelo universo dos livros e seus autores: literatura, poesia, ensaio, cinema, banda desenhada, arte e teatro.

Philip Roth - "O Fantasma Sai de Cena"

Rui Luís Lima, 31.05.25

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Philip Roth
"O Fantasma Sai de Cena" / "Exit Ghost"
Páginas: 288
D. Quixote

Em “O Fantasma Sai de Cena” / “Exit Ghost”, Philip Roth regressa ao seu personagem Nathan Zuckerman. Desta feita iremos encontrar Zuckerman com a idade de setenta anos, a viver isolado nas montanhas, longe de tudo e de todos, dedicando-se exclusivamente ao seu trabalho de escritor, depois de ter sido ameaçado de morte por um desconhecido. Por ali vive isolado, já lá vão dez anos, sem jornais, televisão, amigos ou mulheres, mas um problema de saúde irá obrigá-lo a regressar a essa grande metrópole chamada New York.

Na Big Apple Nathan Zuckerman irá confrontar-se com o passado ao reconhecer a amante do seu mentor, o escritor E. I. Lonoff, cujos livros foram esquecidos por todos, excepto um jovem chamado Kliman que pretende escrever uma biografia sobre esse autor, morto há muito, levando consigo para o túmulo um terrível segredo da juventude.

Nathan Zuckerman irá conhecer durante a sua estadia um jovem casal de escritores, Jamie e Billy, que lhe propõem uma permuta de casa, oferecendo-lhe o seu apartamento luxuoso em New York durante um ano, em troca da sua pequena casa perdida nas montanhas, porque pretendem escrever no sossego da solidão.

O escritor irá aceitar a permuta, mas ao conhecer melhor Jamie, que após ter publicado com sucesso um conto na “New Yorker” nunca mais viu nada publicado durante os cinco anos seguintes, irá sentir uma verdadeira atracção fatal pela jovem, que o conduzirá a escrever um livro tendo ambos por personagens, alimentando desta forma os seus sonhos, em busca da juventude perdida.

Estamos assim perante esse confronto entre juventude e velhice, que nos é oferecido de forma magistral por Philip Roth, como é seu hábito; por outro lado iremos sentir o medo que se instalou na Big Apple após os atentados do 11 de Setembro e que levou muitos dos seus habitantes a reiniciarem a vida noutras paragens com medo de mais um atentado. A forma como nos são descritos esses acontecimentos, a par da reeleição de George Bush, são bem demonstrativos dos sentimentos dos meios liberais, ao conhecerem o sabor da derrota.

“O Fantasma Sai de Cena” / “Exit Ghost” é um livro profundamente comovente, ao acompanharmos os passos desta espécie de alter-ego do escritor, chamado Nathan Zuckerman, cuja vida foi retratada por Philip Roth ao longo da sua genial obra literária.

Bom fim-de-semana!

Rui Luís Lima

Michel Vaillant - "O Campeão do Mundo"

Rui Luís Lima, 30.05.25

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Michel Vaillant
"O Campeão do Mundo"
Arte: Jean Graton
Argumento: Jean Graton
Páginas 192
Edições Devir

Este livro reúne os seguintes álbuns de Michel Vaillant:
- Circo Infernal
- Pânico no Mónaco
- O Desafio das Muralhas
- A Prova

Embora o formato deste livro seja um pouco inferior em termos de dimensões, ao usado nos álbuns de banda desenhada, com o célebre formato A4 das pranchas, o grafismo e as cores apresentam-se de forma perfeita, neste número dedicado a Michel Vaillant e ao seu criador Jean Graton, que é tema de um interessante ensaio de José de Freitas que abre este livro.

A abrir este volume dedicado a Michel Vaillant temos o álbum “Circo Infernal” datado de 1969 e que os leitores da revista Tintin (portuguesa) ainda devem estar recordados, porque foi com esta corrida de “Stock Cars”, que muitos descobriram Michel Vaillant. Já as histórias seguintes são "Pânico no Mónaco" e "O Desafio das Muralhas", que surgiram na década de oitenta do século passado, embora o suspense que se tenta criar, seja decifrado a meio das histórias por um leitor mais atento das aventuras de Michel Vaillant. Por fim este volume encerra com o álbum "A Prova" de 2003, que curiosamente irá ter continuação no álbum seguinte saído da arte de Jean Graton, um nome incontornável do universo da banda desenhada franco-belga. 

Recorde-se como curiosidade que quando Michel Vaillant surgiu nas páginas da célebre revista "Cavaleiro Andante", com a aventura "O Grande Desafio", o seu nome foi "aporteguesado" para Miguel Gusmão, uma prática que na década de cinquenta do século passado era habitual na 9ª arte, o mesmo sucedendo com outras célebres personagens de banda desenhada no nosso país e dou mais dois exemplos: o célebre "Mandrake" foi baptizado de "Dr. Enigma", enquanto o famoso "Rip Kirby" surgiu com o nome de "Ruben Quiirno". Seria na década seguinte que iremos ter os heróis da BD a serem publicados com o nome original dado pelos seus autores.

Michel Vaillant surgiu pela primeira vez nas páginas da revista Tintin (belga) com a aventura "24 Heures". Por fim uma última nota para referir, que lamentamos a ausência de indicação dos títulos originais e data de publicação dos respectivos álbuns neste belo volume, mas apesar destas pequenas lacunas temos que saudar a edição deste livro dedicado a Michel Vaillant e ao seu criador Jean Graton.

Rui Luís Lima

Nuno Júdice - "Poesia Reunida 1967 - 2000"

Rui Luís Lima, 29.05.25

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Nuno Júdice
"Poesia Reunida 1967 - 2000"
Colecção: Poesia do Séc. XX
Páginas: 1117
Dom Quixote

Este livro, de mais de mil páginas, reúne o trabalho poético de Nuno Júdice ao longo de mais de três décadas, revelando uma das vozes mais originais da poesia contemporânea, ao mesmo tempo que nos oferece um conjunto de poemas inéditos intitulado “Rimas e Contas”, será de referir que este volume possui um excelente prefácio da responsabilidade de Teresa Almeida que nos situa e apresenta o trabalho deste poeta, escritor, dramaturgo e ensaísta, já que como todos sabemos Nuno Júdice invadiu com a sua arte todos estes territórios literários.

“A Noção de Poema” de Nuno Júdice foi o primeiro livro de poemas editado precisamente na editora Dom Quixote, corria o ano de 1972, integrando a colecção “Cadernos de Poesia”, que reunia autores novos e consagrados das mais diversas paragens do globo. Nuno Júdice pertence a essa genial geração de poetas surgidos nessa época e estou-me a recordar-me de nomes como Joaquim Manuel Magalhães, João Miguel Fernandes Jorge, Rui Diniz (autor do magnifico “Ossuário ou a Vida de James Whistley”, que escreve a introdução / apresentação de “A Noção de Poema”), Fiama Hasse Pais Brandão, Luiza Neto Jorge, Gastão Cruz entre outros, que ofereceram à poesia portuguesa um novo fôlego, criando novos universos onde o poema respirava, mesmo quando o tema era a morte ou o exílio.

Mas para o leitor conhecer um pouco mais do universo poético de Nuno Júdice, nada melhor do que dar voz ao que escreveu Teresa Almeida no prefácio desta “Poesia Reunida 1967 – 2000”):

“…a obra de Nuno Júdice consiste numa interrogação do enigma da escrita, podendo ser lida como uma extensa arte poética do nosso tempo. Dialogou com textos de todas as épocas, pertencentes a escolas diferentes e a variadas línguas. Recuperou os mitos da literatura grego-latina, deixou-se seduzir pelo imaginário medieval, interpelou o Romantismo e o Simbolismo, teve em conta as rupturas da modernidade. É uma poesia cosmopolita e europeia que absorveu e transformou a literatura portuguesa, experiência pensada sobre as potencialidades da língua nacional. A sua dimensão teórica convive com uma experiência lúdica, interpelar os grandes escritores do passado é saber reescrevê-los, criando repetições e diferenças, mantendo um fascínio que não anula a distância ou a capacidade de subversão.”

Ao lermos este volume intitulado “Poesia Reunida 1967 – 2000”, descobrimos todos estes aspectos nos seus poemas, sendo a dimensão teórica mais patente nos seus dois primeiros livros, “A Noção de Poema” e “Critica Doméstica dos Paralelepípedos”, que foram reeditados num só volume, dando assim uma magnífica oportunidade às gerações mais novas para descobrirem um dos nomes incontornáveis da poesia mundial, que infelizmente já nos deixou.

Rui Luís Lima

Raymond Chandler - "A Janela Alta"

Rui Luís Lima, 28.05.25

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Raymond Chandler
"A Janela Alta" / "The High Window"
Páginas: 286
Livros do Brasil

Estamos perante um desses policiais "vintage" assinado por Raymond Chandler em 1942 em que mais uma vez iremos ter a companhia de Marlowe ou se preferirem Humphrey Bogart, porque quem conhece os filmes que se fizeram em Hollywood, ao ler os célebres romances de Raymond Chandler é inevitável associarmos o actor ao personagem e depois o ritmo de "A Janela Alta" / "The High Window" é de tal forma cinematográfico que no final de cada capítulo temos o "raccord" perfeito com o seguinte, como se tratasse de um filme, impedindo-nos de largar o livro. Confesso que o li de um fôlego, se me é permitida a expressão, e por outro lado nunca é demais referir que a literatura passa por aqui, porque Raymond Chandler é genial.

Esta nova série da "Colecção Vampiro", que já vai no número quarenta e cinco é feita sempre com enorme cuidado, desde as capas, à tradução e impressão, a qualidade do papel e até aquele belo marcador que acompanha sempre os livros e que tem como referência sempre o livro em questão. Estes novos "vampiros de bolso", que recuperam uma das mais célebres colecções da literatura policial criadas no nosso país oferecem-nos os  melhores Mestres da Literatura Policial!

Rui Luís Lima

Entrevistas da «Paris Review»!

Rui Luís Lima, 27.05.25

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Entrevistas da «Paris Review»: E. M. Forster, Graham Greene, William Faulkner, Truman Capote, Ernest Hemingway, Lawrence Durrell, Boris Pasternak, Saul Bellow, Jorge Luis Borges, Jack Kerouac.

(Organização: Carlos Vaz Marques)

Páginas: 345

Tinta da China

A Literatura também possui as suas revistas famosas e a “Paris Review”, a par da "Granta", da "New York Review of Books" e do "Magazine Literaire" é precisamente uma delas, tendo-se a primeira tornado famosa pelas suas entrevistas aos maiores nomes da Literatura.

Neste primeiro volume estão reunidas dez entrevistas realizadas nas décadas de 50/60 do século passado e nelas iremos mergulhar na famosa oficina do escritor. Recordo que posteriormente foram editados mais dois volumes com "Entrevistas da Paris Review".

E. M. Forster abre o livro e as portas da sua casa para receber o entrevistador e ao longo desse encontro mergulhamos no templo do autor ficando a saber, entre muitas coisas, que nem sempre a acção retratada num livro serviu de local para a sua feitura, como nos confessa Forster a propósito de “Passagem Para a Índia”, que seria mais tarde adaptado ao cinema por David Lean.

Já o encontro com Graham Greene, realizado também na sua casa, aborda o catolicismo da sua obra, vindo-nos de imediato à memória “O Fim da Aventura” com a inclusão do milagre e do pecado e a inevitável justiça de Deus. Um dado curioso neste encontro que ficamos a saber pela boca do escritor é que num concurso efectuado por uma revista junto dos seus leitores, convidando-os a imitar a escrita de Graham Greene, o escritor decidiu concorrer utilizando um pseudónimo, tendo obtido o segundo lugar.

William Faulkner é outro dos escritores que abriu as portas à “Paris Review”, oferecendo uma das mais belas entrevistas inseridas no livro. Não só fala dos seus livros e do seu método, como nos conta sem pudores como conseguiu editor para o seu primeiro livro. A sua relação com o cinema também é motivo de interesse, oferecendo-nos o olhar de Hollywood de forma bastante mordaz.

O “enfant-terrible” Truman Capote surge aqui também apresentando-se em todo o seu esplendor, nunca fugindo às perguntas do entrevistador, oferecendo-nos momentos de um humor único. Fala-nos do seu método e confessa a sua paixão pela literatura, não encontrando problemas em ler livros de outros autores enquanto escreve as suas obras, ao mesmo tempo que se revela um leitor compulsivo dos jornais diários.

Por seu lado Ernest Hemingway recebe o entrevistador da “Paris Review” com enorme relutância, sentindo-se a dificuldade do génio em ser confrontado pelo entrevistado na sua casa, situada na ilha de Cuba. O autor de “O Velho e o Mar” surge aqui muitas vezes não escondendo uma certa amargura por pessoas com quem conviveu, em especial Gertrud Stein, cujo relato dos encontros tidos na sua casa de Paris, não foram nada do agrado do escritor, que tão bem a retratou no seu "Paris é Uma Festa".

Lawrence Durrell, por seu lado, revela-se um maravilhoso conversador, oferecendo-nos um dos mais belos retratos que um escritor possa fazer de si, falando da sua infância sem pudores e da forma como desde sempre o universo literário o fascinou. Ficamos a saber como nasceu e foi escrita a sua obra literária mais famosa: “Quarteto de Alexandria”, que nasceu para fazer frente às dificuldades económicas então vividas, assim como foram criados os seus famosos livros de viagens, a maioria deles tendo por fundo as ilhas Gregas, aliás o escritor conta-nos que após ter publicado “Chipre, Limões Amargos”, achou por bem não regressar à ilha devido ao ambiente tumultuoso que então se vivia. Uma entrevista perfeita para figurar ao lado da sua obra, devido ao sabor das suas palavras.

Outra das entrevistas mais belas deste livro é efectuada ao prémio Nobel Boris Pasternak, que irá conversar calmamente com a filha de uns amigos, falando não só da sua obra, mas da pátria onde vive. Ao longo das conversas efectuadas (foram várias durante alguns dias), a entrevistadora relata-nos de forma soberba o ambiente que se vive na casa deste grande vulto das letras, cuja obra mais célebre é o famosíssimo “Dr. Jivago”, como muitos devem estar recordados. A simplicidade das suas palavras e a modéstia que vive nelas é de uma ternura pela vida que nos deixa a todos profundamente seduzidos.

Saul Bellow por seu lado fala essencialmente da sua obra e muito em especial de “Herzog”, esse livro incontornável, que o transportou até ao pico da fama.

Jorge Luis Borges oferece-nos outro dos momentos mais belos do livro, conversando tranquilamente com o entrevistador no seu local de trabalho, confessando o seu interesse pelo inglês e norueguês antigo, ao mesmo tempo que mergulhamos maravilhados nas suas palavras percorrendo esse universo único descoberto pelo mundo ao ler a sua obra mágica. Como não podia deixar de ser ficamos também a conhecer a sua luta com a falta de visão, ao mesmo tempo que nos fala do seu interesse pelo cinema.

A terminar este primeiro volume de entrevistas da "Paris Review" a autores que mudaram para sempre os caminhos da Literatura vamos encontrar Jack Kerouac na sua casa, sempre vigiado pela esposa Stella que faz uma verdadeira selecção de quem pode ou não falar com o escritor beatnick. Ficamos a conhecer a forma inteligente como o entrevistador se introduz no seu lar e, de imediato, percebemos que o maior nome da geração "beat" se encontra sobre o efeito de anfetaminas, mergulhando em respostas por vezes desconcertantes, mas profundamente reveladoras. Como não podia deixar de ser ficamos a conhecer um pouco melhor alguns dos episódios da sua convivência com Alan Ginsberg e outros nomes famosos da geração a que pertenceu, ao mesmo tempo que nos são oferecidos pormenores desconhecidos de como foram nascendo os seus livros.

Mergulhar na leitura destas entrevistas é equivalente a uma viagem pelo interior da Literatura do século xx, nas suas mais diversas vertentes, uma viagem que se apresenta profundamente gratificante para o leitor, que inevitavelmente é convidado a (re)descobrir a obra destes homens, que mudaram para sempre o universo Literário. Depois de lerem este belo volume de entrevistas da "Paris Review" há mais dois a esperarem por si!

Rui Luís Lima

Marguerite Yourcenar - “Mishima ou a Visão do Vazio”

Rui Luís Lima, 26.05.25

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Marguerite Yourcenar
“Mishima ou a Visão do Vazio” / “Mishima ou La vision du vide”
Páginas: 100
Relógio D’Água

Marguerite Yourcenar, a célebre escritora de “Memórias de Adriano”, que foi responsável pelo belo prefácio da edição francesa da célebre tetralogia “O Mar da Fertilidade” (4. Vols.) do escritor japonês Yukio Mishima, oferece-nos neste belo ensaio dedicado à sua vida e obra uma viagem inesquecível e fundamental, para conhecermos melhor este fabuloso escritor japonês, que bem merece não ser esquecido, aliás no fabuloso diário de Philippe Sollers “L’année du Tigre – Journal” (1998) ele refere, a dado passo, ter sido surpreendido ao saber que no Japão já ninguém lia Yukio Mishima, mas sim Kenzaburo Oe. Passado mais de meio-século sobre a morte de Yukio Mishima (1970) talvez seja possível afirmar que Murakami é o escritor mais lido actualmente no Japão.

Mas regressando ao que nos interessa, como muitos da minha geração, descobri Yukio Mishima através de um texto pulicado por António Mega Ferreira no JL, aquando da edição de “O Marinheiro Que Perdeu as Graças do Mar”(Assírio e Alvim) e neste livro de Marguerite Yourcenar encontramos inicialmente uma abordagem à obra literária de Mishima, para assim melhor compreendermos o Escritor e só depois o Homem, revelando-se fundamental a leitura/conhecimento dos quatro volumes de “O Mar da Fertilidade”, obra derradeira de Yukio Mishima e terminada por este na véspera do seu suicídio.

Iremos assim viajar pela obra de Yukio Mishima através das palavras de Marguerite Yourcenar que, em certos momentos, é verdadeiramente poética, desde os primeiros tempos em que optou por ser escritor, recusando seguir os conselhos do pai, que pretendia que ele seguisse a carreira de funcionário público, até chegar a esse momento capital em que “Confissões de uma Máscara” lhe oferecem a fama no Japão. Já os célebres romances populares, que escreveu ao longo do tempo e que foram uma das suas fontes de sobrevivência económica, nunca foram traduzidos fora do Japão, como nos confirma Marguerite Yourcenar. Pessoalmente, durante alguns anos, ainda alimentei a esperança de os encontrar em versão francesa.

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De referir ainda a obra teatral de Yukio Mishima, que até é bem considerável, mas que nunca teve tradução portuguesa, que eu saiba, embora esteja disponível em francês, assim como esse volume, fundamental para o conhecermos ainda melhor, que reúne a sua correspondência com Yasunari Kawabata, que tal como Mishima se irá suicidar, precisamente um ano depois, embora tenha optado por uma morte bem diferente e “tranquila” (inalação de gaz), tendo confessado dias antes que tinha sido “visitado” por Yukio Mishima.

“Mishima ou Uma Visão no Vazio” revela-se uma verdadeira pintura de cores bem vivas da vida do célebre escritor Japonês, que ambicionava que o reconhecimento literário obtido no seu país transpusesse as fronteiras do Japão, mas as suas visitas a Paris e à América, revelaram-se bastante frustrantes para Yukio Mishima e depois também descobrimos que certos biógrafos ocidentais, referidos por Marguerite Yourcenar, fizeram leituras bem desastrosas da sua vida, fazendo-me recordar uma inenarrável biografia de Sartre assinada por uma senhora americana, que tive a infelicidade de ler.

Este livro de Marguerite Yourcenar é fundamental para conhecermos Yukio Mishima e a sua obra literária, verdadeiramente incontornável, no universo das letras e a sua leitura é mais do que recomendável, tal como o filme que Paul Schrader lhe dedicou e sobre o qual iremos escrever em breve no blog "Manuscritos da Galáxia" dedicado ao cinema aqui no Sapo blogs.

Marguerite Yourcenar transforma este ensaio sobre Yukio Mishima num belo romance contemporâneo, sobre um dos maiores nomes do universo literário.

Rui Luís Lima

Fernando Pessoa - "O Banqueiro Anarquista"

Rui Luís Lima, 25.05.25

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Fernando Pessoa
"O Banqueiro Anarquista"
Páginas:112
Assírio & Alvim

O conto “O Banqueiro Anarquista” foi publicado em 1922 na Revista Contemporânea, sendo assinado por Fernando Pessoa e não por nenhum dos seus heterónimos. Ao longo dos anos têm surgido diversas edições da obra e uma delas dada à estampa pela “Assírio e Alvim”, sendo a responsável pela edição Manuela Parreira da Silva, que nos apresenta o texto tal como foi publicado na época, juntando em anexo os diversos acrescentos feitos pelo escritor, numa tentativa posterior de desenvolver mais o texto, para uma possível edição em Inglaterra, o que não veio a suceder. Recorde-se que na época em que foi escrito o Movimento Anarquista tinha grande influência nos meios operários portugueses, editando-se o famoso jornal diário “A Batalha”.

Este belo livro de Fernando Pessoa  oferece-nos o diálogo entre duas personagens que, ao lermos os textos em anexo, iremos descobrir que se encontram num restaurante, possivelmente na Rua dos Douradores, essa célebre rua onde um dia se irão cruzar Fernando Pessoa e o seu heterónimo Bernardo Soares.

Apresentando-se como um texto reflexivo e satírico no verdadeiro sentido da palavra, já que ninguém imagina ser possível haver um banqueiro a defender o anarquismo, iremos acompanhar o raciocínio do banqueiro que nos irá contar a sua história de sucesso, desde os tempos em que nasceu numa família humilde, passando pela época em que acompanhou os anarquistas, até perceber que o verdadeiro anarquismo só poderia ser encontrado por si próprio numa luta contra o capital, usando os mesmos expedientes do capitalismo para obter sucesso e dinheiro, podendo assim defender em tranquilidade a verdadeira doutrina anarquista, sem chefes nem patrões.

Ao longo da conversa, o banqueiro anarquista com o seu charuto e cognac irá desenvolver a sua teoria, em contraponto às doutrinas existentes na época, já que o socialismo começava a ter os seus adeptos e os acontecimentos da revolução russa faziam inevitavelmente eco no nosso país e aqui o banqueiro anarquista irá desmontar tanto o capitalismo como o socialismo, usando o primeiro para demonstrar como subiu na escala social, enquanto o segundo só irá atrasar a libertação do homem, porque também ele possui os seus patrões em torno de uma doutrina, que necessita de ter sempre essa voz de comando, tão contrária ao movimento anarquista.

O leitor deste conto percebe como Fernando Pessoa se encontra bem informado politicamente usando o humor com imenso saber, à medida que vai desmontando as reflexões do seu interlocutor.

“O Banqueiro Anarquista”, que possui um excelente posfácio da responsabilidade de Manuela Parreira da Silva, ao ser lido nos dias de hoje, continua a possuir um enorme fascínio, esse mesmo fascínio que a incontornável obra de Fernando Pessoa transmite a quem a lê.

Rui Luís Lima

Frédéric Strauss - "Conversas com Pedro Almodóvar"

Rui Luís Lima, 24.05.25

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Frédéric Strauss
"Conversas com Pedro Almodóvar" / "Conversations avec Pedro Almodóvar"
Páginas: 288
90 Graus Editora

Hoje em dia, o nome de Pedro Almodóvar é conhecido do mais comum espectador de cinema. Ele é, sem dúvida alguma, o cineasta espanhol em actividade mais famoso internacionalmente, e dizemos vivo, porque há aquele nome incontornável chamado Luís Buñuel, esse sim, definitivamente o “enfant terrible” da cinematografia espanhola, recorde-se o caso de “Viridiana”, feito em Espanha após um longo exílio e ainda durante a vigência de Francisco Franco, que contornou a censura míope, e depois foi exibido no Festival de Cannes em representação oficial da Espanha para grande escândalo das autoridades espanholas que, ao verem a película, já com a graduação apropriada nas lentes, caíram positivamente da cadeira abaixo e Buñuel lá teve que se exilar novamente. Mas o que nos trás hoje aqui é Pedro Almodóvar, porquê falar em Franco?

Simplesmente porque o cineasta espanhol nunca falou nele nos seus filmes e na conversa com Frédéric Strauss refere que ignorando o ditador é uma forma de combater o período franquista e os elementos negativos transportados pelo regime. As “Conversas com Pedro Almodóvar” / “Conversations avec Pedro Almodóvar” foram publicadas originalmente nas Edições dos “Cahiers du Cinema”, tendo sido editadas em Portugal através da “90 Graus Editora”, numa edição cuidada que recomendamos.

O livro de Frédéric Strauss partiu de entrevistas que foram feitas ao longo dos anos e publicadas cronologicamente, sendo acompanhadas por textos deste crítico de cinema, do próprio cineasta e do seu irmão, habitual produtor dos seus filmes, para além de uma filmografia final com resumo dos argumentos das respectivas películas.

Ao longo das conversas vamos descobrindo a história de Pedro Almodóvar,  ex-funcionário dos correios, desde a sua descoberta do Super-8 que ainda hoje prefere ao vídeo, exibindo em bares e galerias os filmes realizados, chegando a dar voz às diversas personagens durante a projecção dos filmes oferecidos à movida de Barcelona, até ao nascimento de “Pepi, Luci, Bom e Outras Raparigas Como a Minha Mãe” / “Pepi, Luci, Bom y Otras Chicas del Montón”, a película “oficial” do nascimento do cineasta, feito com dinheiro dos amigos, passando depois pelo milionário mecenas que financiou o seu segundo filme, porque pretendia oferecer um papel à mulher por quem estava apaixonado, assim nascendo o famoso “Negros Hábitos” / “Entre Tiniebas”.

À pergunta: “Que conselhos daria hoje a alguém que queira tornar-se cineasta?”, Pedro Almodóvar responde: “Em primeiro lugar, é preciso que seja simpático, porque tem que pedir favores e conseguir que vinte pessoas aceitem trabalhar gratuitamente para poder filmar uma primeira curta-metragem. Depois, tem que convencer os que vão pagar o negativo. Tem que ser simpático, optimista, e se for «sexy» será melhor ainda. Para realizar uma segunda curta-metragem tem que ser persistente, cínico e atrevido, e frequentar um ginásio, porque entretanto envelheceu. Tem que ser maquiavélico, porque da segunda vez tem que enganar a pessoa que da primeira vez seduziu.”

Depois foi a descoberta internacional do seu cinema, os êxitos e o reconhecimento com o Oscar do Melhor Argumento para essa genial película intitulada “Fala Com Ela” / “Hable con Ella”, mas pelo caminho também fica o azedume de o Júri de Cannes, presidido por David Cronenberg, lhe ter recusado a Palma de Ouro porque o cineasta canadiano o via como um competidor do seu cinema de autor. Na realidade, segundo os padrões “institucionalizados” pelos Cahiers du Cinema para a definição de Autor, o cinema de Pedro Almodóvar é Cinema de Autor, no verdadeiro sentido do termo, todos nós reconhecemos de imediato um filme de Pedro Almodóvar.

Ficamos também a saber do cuidado posto por Pedro Almodóvar na feitura dos cartazes dos filmes e do seu desgosto quando os distribuidores estrangeiros os alteram. Descobrimos que ele gosta de ser o autor dos dossiers de imprensa porque, melhor do que ninguém, ele poderá falar/escrever acerca dos filmes que realiza. A sua relação com as actrizes dos seus filmes está também bem documentada nestas conversas, incluindo os “cameos” da sua mãe nas suas películas, para além da perda que foi a partida de António Banderas para Hollywood, mas que em 2011 regressou ao “universo” do cineasta que o deu a conhecer para surgir em ”A Pele Onde eu Vivo” / “La Piel que Habito” e, mais tarde, em 2013 em “Os Amantes Passageiros” / “Los Amantes Pasajeros”.

“Conversas com Pedro Almodóvar” / “Conversations avec Pedro Almodóvar” de Frédéric Strauss é um rio de palavras, que nos cativa a alma e nos oferece um retrato fiel do cineasta que recusou Hollywood, porque o seu Cinema seria condicionado pelos padrões da Indústria e dos Estúdios, mantendo-se assim fiel ao seu estilo, para prazer e paixão de todos os amantes da Sétima Arte.

Bom fim-de-semana!

Rui Luís Lima

Marcel Proust - "Correspondance avec madame Straus"

Rui Luís Lima, 23.05.25

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Marcel Proust
"Correspondance avec madame Straus"
Páginas:320
Le livre de poche

A primeira vez que entrei na Livraria Gibert Joseph, do boulevard Saint Michel em Paris, e me dirigi ao piso dedicado à literatura, fiquei fascinado pelo espaço, o cheiro a livros era inebriante, e pelo facto de ter na minha frente uma série de volumes da correspondência de Marcel Proust na edição do Philip Kolb, esse americano que se apaixonou por Paris, onde conheceu a sobrinha de Proust, que lhe irá permitir que ele, num trabalho que durou quase meio-século, reunisse a totalidade da correspondência do escritor francês e a editasse e assim ali tinha eu vários desses volumes, vendidos por alguém que certamente necessitava de dinheiro, a preços proibitivos para a minha bolsa. Terminei por trazer um "bouquin" da Flammarion com uma antologia da correspondência do escritor, correspondência essa que se iniciava com uma carta escrita em criança, dirigida à mãe.

No meu aniversário, mão amiga ofereceu-me este volume da correspondência de Marcel Proust com a madame Straus, que viria a servir de modelo para a criação da célebre Duquesa de Guermantes, personagem de "Em Busca do Tempo Perdido". E este belo volume surgido em 1974 na edição do "Le Livre de Poche", nesta época o Gallimard ainda não se tinha zangado com o amigo, só depois nasceria a Folio, oferece-nos um prefácio de Suzy Mante-Proust, que nos introduz de forma simples e aliciante nas personagens que iremos encontrar neste livro, que está dividido em várias partes:

1 - Lettres a madame Émile Straus (o grosso do volume: 124 cartas)

2 - Lettres a monsieur Émile Straus (9 cartas)

3 - Dédicaces a monsieur et madame Straus

4 - Lettres de madame Émile Straus a Marcel Proust (que surge em apêndice)

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A leitura da correspondência ou os diários de um escritor permitem sempre conhecermos melhor a sua obra, mas também de entrarmos discretamente na sua intimidade e ainda me recordo do "escândalo", no bom sentido da palavra, (todo o cuidado é pouco ao escrevermos), quando surgiu a "Conta-Corrente" do escritor Vergílio Ferreira, mas regressemos a Marcel Proust, porque mais uma vez penetramos nessas vielas estreitas entre a ficção e a realidade que constituem o incontornável "Em Busca do Tempo Perdido".

Iremos assim viajar na primeira pessoa nos problemas da edição da obra de Marcel Proust; a doença que o fustigava lentamente; a bela Celeste sempre pronta a ajudar; o imbróglio com o Alfred Agostinelli e a sua morte, recorde-se que o secretário do escritor serviu de modelo para a Albertina; as finanças de Marcel que ele sempre geriu mal, seguindo conselhos errados e fazendo investimentos ruinosos, jogar na bolsa era sempre um desastre garantido; as eternas correcções dos manuscritos; os jantares e os saraus sempre nesse esplendor que um dia nos ofereceu o cineasta alemão Volker Schlöndorff no seu filme “A Paixão de Swann” com a Ornella Mutti e o Jeremy Irons: iremos ainda saber que ele nunca guardava uma cópia dos textos que enviava para o jornal Figaro.

A leitura desta "Correspondance avec madame Straus" conduz-nos não só ao interior das páginas do "Em Busca do Tempo Perdido", como também nos reenvia para a leitura da famosa biografia que Jean-Yves Tadié lhe dedicou, recomendo vivamente a sua leitura: dois volumes contendo mais de 2000 páginas. E chegados aqui convém escrever que a madame Straus, que trata o escritor por "mon petit cher Marcel" se chama Geneviève Halévy e foi casada primeiro com o célebre compositor George Bizet e mais tarde com o advogado Émile Straus, que sempre deu bons conselhos ao escritor, especialmente durante a morte acidental do seu secretário Agostinelli, que era casado e a viúva gostava bastante desse metal que faz rodar o mundo.

"Correspondance avec madame Straus" de Marcel Proust é um livro que recomendo a todos os leitores de Marcel Proust, sei que ainda há por aí alguns e tenho de confessar que este livro foi uma bela prenda de aniversário.

Muito bom dia!

Rui Luís Lima

Paul Auster - “4, 3, 2, 1”

Rui Luís Lima, 22.05.25

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Paul Auster
“4, 3, 2, 1”
Páginas: 870
Editora: Asa

Por vezes os escritores apaixonam-se pelas personagens que criam e terminam por regressar a elas das mais diversas maneiras. John Steinbeck, quando terminou a escrita de “Bairro da Lata” / “Cannery Row”, era um homem feliz, mas sentia que faltava ali uma personagem feminina para o seu herói, o Doc, e assim iria nascer anos depois o romance “Um Dia Diferente” / “Sweet Thursday”. Recorde-se que David S. Ward fez a adaptação cinematográfica das duas obras literárias e realizou o filme com Nick Nolte e Debra Winger nos protagonistas e contando com a voz de John Huston no narrador.

Já Jay McInerny, na sua obra-prima intitulada “Quando o Brilho Cai” / “Brightness Falls”, que infelizmente se encontra à muito esgotada no nosso país, revelando-se a sua reedição uma prova de carinho pela Literatura, que tão maltratada anda neste século XXI, recorde-se que a primeira edição portuguesa do livro (Asa) ostentava na capa as célebres Torres Gémeas, destruídas a 11 de Setembro num atentado de má memória. Mas regressando a “Brightness Falls”, de todos os seus romances o meu favorito, Jay McInerney decidiu dar continuação à vida dos seus heróis, Russell e Corrine, já por duas vezes, primeiro num conto e depois num novo romance.

E assim chegamos a Paul Auster e ao seu herói Archie Fergusson, cuja vida nos irá ser narrada pelo célebre escritor nova-iorquino, que aqui assina o seu mais longo romance, na edição original, em hard-cover, são mais de 1000 páginas, enquanto na edição nacional, para não afugentar os potenciais leitores, diminui-se o tamanho da letra e enfiou-se muito mais linhas numa página, esquecendo-se como seria importante para o leitor atento e fan de Paul Auster, como é o meu caso, o livro ter precisamente “mil cento e trinta e três páginas com espaçamento duplo” (pag.867). Por outro lado Paul Auster irá trabalhar a partícula “se” / “If”, que tantas vezes altera o nosso quotidiano e que tantas vezes ao olharmos para o passado nos interrogamos sobre o caminho que decidimos tomar ao chegar à célebre encruzilhada da vida em que por vezes é um simples gesto ou palavra, que altera o rumo dos acontecimentos, de forma definitiva.

Em 1982/83 o dramaturgo britânico Alan Ayckbourn escreveu uma série de oito peças para os mesmos personagens, intitulada genericamente “Intimate Exchanges”, partindo desse princípio em que um simples acontecimento, por vezes fortuito, alterava o comportamento e a vida dos personagens que tinha criado e assim todas as peças se iniciavam da mesma maneira, mas tinham sempre desenvolvimentos e desfechos bem diferentes para esses eleitos habitantes do Yorkshire, nascidos da sua escrita e o êxito foi tal que ultrapassou fronteiras e terminou por ser levado ao cinema pela mão do cineasta francês Alain Resnais, nascendo o conjunto memorável desses dois filmes intitulados “Smoking” / “No Smoking”, que em Portugal teve o título de "Fumar" / "Não Fumar" que contou na escrita do argumento cinematográfico com a célebre dupla Jean-Pierre Bacri/Agnès Jaoui de “O Gosto dos Outros” / “Le Gout des Autres”.

Paul Auster, neste seu fabuloso “4, 3, 2, 1”, decidiu oferecer ao seu protagonista quatro destinos diferentes e uma bela surpresa no final deste inesquecível romance, por onde passa a história da América, desses anos sessenta e setenta, do século passado, que cada vez mais estão a ser apagados da memória colectiva. Mas regressando ao romance de Paul Auster, apresento a minha sugestão de leitura de “4, 3, 2, 1”, porque tal como sucede com o fabuloso “Quarteto de Alexandria” / “The Alexandria Quartet” (1962) de Lawrence Durrell, que nos oferece diversas possibilidades de leitura nos quatro volumes que constituem a obra, devendo no entanto iniciar-se sempre com “Justine”, já no livro de Paul Auster tudo se inicia em “1.0”, para descobrirmos como o judeu russo Reznikoff chegou no ano de 1900 à América e como um pequeno lapso terminou por transformar o seu apelido em Fergusson.

Depois o escritor oferece-nos a vida desta família desdobrada por quatro, fruto desse destino que irá marcar o percurso dos diversos protagonistas do romance e assim a minha sugestão de leitura dos capítulos é de os lerem não em sequência, mas acompanhando em separado cada uma das 4 vidas de Archie Fergusson:

Fergusson 1 – Capítulos 1.1; 2.1; 3.1; 4.1; 5.1; 6.1; 7.1.

Fergusson 2 – Capítulos 1.2; 2.2.

Fergusson 3 – Capítulos 1.3. 2.3; 3.3; 4.3; 5,3; 6.3.

Fergusson 4 – Capítulos 1.4: 2.4: 3.4: 4,4: 5.4; 6.4; 7.4.

Ao longo deste fabuloso romance o leitor, se for fan de Paul Auster, irá descobrir diversos traços biográficos do escritor com a personagem de Archie Fergusson, seja no gosto pelo cinema, como nas referências literárias, passando por essa cidade de Paris onde Paul Auster viveu durante alguns anos e depois temos sempre o encontro de uma das personagens da célebre “A Trilogia de Nova York” / “The New York Trilogy”, que tornou famoso Paul Auster e que reunia três novelas suas, algo que irá suceder com os primeiros escritos do Fergusson escritor.

"4,3,2,1" é uma obra única no interior do universo ficcional de Paul Auster!

Rui Luís Lima

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